Queremos a erradicação da violência de género: será?

Comemorou-se no passado dia 25 de Novembro o Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres, uma comemoração que se prolonga já desde 1999 (se as minhas fontes não estão erradas). Esta é, desde já há muito tempo, uma luta com que me identifico profundamente, e agora afigurou-se-me pertinente discutir duas premissas essenciais em que assenta esta batalha (ainda) tão desigual.

Atentemos na denominação: reparem que não mais se luta apenas contra a violência doméstica (cuja própria designação parece induzir em erro, remetendo para um universo particular, “doméstico”, onde tudo é privado e que não deve por isso ser remexido), o que a mim me diz que já há 16 anos se reconhece que a violência de género assume muitas formas e feitios e que todas (TODAS!) devem e podem ser combatidas. Por outro lado, falamos em eliminação: apoiam-se as vítimas, previnem-se possíveis ocorrências futuras, denunciam-se situações presentes, tudo isto é certo.

Mas a batalha centra-se, e hoje talvez mais que nunca, na completa erradicação de comportamentos violentos contra a mulher.

Basicamente, a diferença reside em que o que agora se pretende é curar esta doença, por oposição a apenas tratar os seus sintomas, como até recentemente. Portanto esta luta é para obliterar (não minimizar, não abrandar) toda a violência exercida sobre as mulheres (não apenas a violência doméstica).

É precisamente sobre esta nova e fresca perspectiva que vos quero falar; reconheço o sem-número de iniciativas que têm sido levadas a cabo ao longo dos anos para contribuir para o total desaparecimento de violência contra as mulheres, da mesma forma que reconheço o ressurgir na opinião pública dum feminismo mais justo, mais assente na igualdade de género e partilhado tanto por mulheres como por homens, que recorrentemente tem contribuído para um real e significativo enfoque nesta questão. Reconheço também a vasta quantidade de instituições (estatais e não estatais) que se aliaram nesta luta e as medidas governativas que as têm vindo a apoiar. Há no entanto uma lacuna: será que estamos a educar as nossas crianças para contribuir para esta erradicação? Estamos a educar os rapazes para saber respeitar uma rapariga como um igual? Estamos a educar as raparigas para saber reconhecer comportamentos violentos e saber reagir a eles assertivamente? Eu creio que não.

Tudo o que vejo diariamente, ainda para mais tendo em conta que trabalho regularmente com crianças e jovens, assim como me apoio na minha própria experiência pessoal (tenham em conta que cresci como uma adolescente loira, de olhos claros e bastante desenvolvida para a minha idade, por favor) nega categoricamente que as nossas crianças estejam a ser educadas para ser parte activa nesta luta. O contexto que as circunda hoje é tão intricado, uma teia tão brilhantemente tecida por um conjunto tão mais vasto de factores, que se torna difícil colocar o dedo na ferida, circunscrevê-la, para tentar assim trata-la conveniente. Trocando por miúdos, é extraordinariamente difícil perceber o que, em cada um dos nossos quotidianos, colabora para que estes comportamentos tão mediaticamente repudiados continuem a ocorrer. Talvez correndo o risco de ser algo arrogante, uma vez que não tenho nem nunca tive a pretensão de investigar estas questões, consigo diagnosticar três grandes factores que, ainda que de forma inconsciente ou irreflectida, perpetuam a ideia de que só existe violência contra as mulheres se lhes “levantarmos a mão”.

COMUNICAÇÃO SOCIAL
Continuamos a ver, numa base quase diária, ideias difundidas nos media que poderão ser nocivas à construção duma sociedade igualitária, sem diferença de género, e que podem inclusive, fomentar conceitos de interação misóginos, paternalistas e agressivos. Falemos de exemplos concretos: recentemente tivemos um spot promocional da RTP acerca da cobertura das comemorações da República, em que o busto da República é submetido a vários piropos elogiando-lhe a boa forma física. Parece inofensivo, inócuo, não parece? Mas não é, porque é representativo de algo muito maior:

se vemos passar num canal público de televisão a ideia de que é simpático, bem-humorado até, “elogiar” as mulheres que por nós passam na rua, que mensagem estamos de facto a transmitir?

Eu digo-vos: estamos a transmitir a ideia de que é legítimo uma mulher ir na rua e ouvir: “boa tranca, boa prateleira… só é pena é essa cara”. Ou então, em casos mais extremos: “montava-te o dia todo”. Ainda não conseguem ver maldade? Ora então, abre também a porta para que alguém, alguém se calhar mais bronco, mais agressivo e globalmente mais estúpido, se ache no direito de tentar agarrar essa mulher à força, em vez de se ficar apenas por uns piropos mais badalhocos. Agora imaginem: essa mulher era a vossa mãe, ou então a vossa mulher, ou pior, era a vossa filha de 14 anos. E agora, parece inofensivo? É impensável alguém, homem ou mulher, menino ou menina, sentir que não pode andar na rua vestido como quer, porque pode estar sujeito a ouvir comentários inadequados e ordinários. É impensável, num país que se quer civilizado, eu com os meus 16 anos sentir necessidade de andar na rua sempre de headphones nos ouvidos para conseguir não ouvir e assim ignorar este tipo de comentários. Agora falo de piropos, mas permitindo-se isso (e não falo de banir legalmente o piropo, como houve quem tentasse, falo de ser socialmente aceitável), permite-se também, numa última instância, que as jovens meninas desenvolvam uma noção ERRADA de que é permitido serem assim comentadas, como se de um pedaço de carne se tratassem, e que até acabem por considerar esse tipo de ofensas como elogios! Para mim, que fui desde cedo habituada a responder a isto de forma igualmente agressiva e taxativa (sempre para grande surpresa dos muitos broncos que me rodeiam o quotidiano), permitir isto é completamente inaceitável e voltando ao cerne da questão, enquanto os meios de comunicação social perpetuarem este e outros comportamentos, estamos a ser coniventes com esta deficiente formação cívica prestadas às crianças e jovens.

Meus senhores, não é introduzindo a temática da violência doméstica nas novelas que isto lá vai! É simples: retratem se faz favor um mundo se calhar utópico, em que as mulheres das novelas não precisem de se deitar com o patrão para terem uma promoção na empresa, em que não haja tempo de antena para comentadores completamente misóginos a cheirar a bafio, em que não representem a mulher como um ser frágil que não se sabe defender, em que não obriguem as vossas jornalistas e actrizes a corresponder a um ideal corporal completamente errado e quase desumano. Por exemplo. Para começar, talvez baste não permitir promos em que o busto da República é “elogiado” no parlamento como uma coxa de frango no talho.

INTERACÇÃO SOCIAL NO CONTEXTO ESCOLAR
É na escola que actualmente as nossas crianças passam mais tempo. E é também aí que adquirem comprovadamente a maior parte das competências sociais que as vão moldar como jovens adultos. Por esse motivo, devíamos estar preocupados com o tipo de mensagens que são aí ensinadas às crianças, não aquelas transmitidas pelas vias institucionais, mas pelas que se perpetuam nos corredores na corrida dos dias. É importante questionarmo-nos se estamos a ensinar as nossas meninas a responder de forma adequada quer aos comentários maliciosos tecidos pelos colegas, quer aos tão recorrentes “apalpanços”, da mesma forma que se assume importar questionar se estamos a ensinar os meninos a saber respeitar o espaço individual de cada um.

É comum ver-se meninos a excluir meninas de algumas brincadeiras por serem “de meninos”, e vice-versa. É comum verem-se meninas a ser apalpadas de forma umas vezes sorrateira, outras vezes abertamente indecentes. É comum ouvirem-se insultos entre géneros, rotulando raparigas de “putas”, “vacas”, “cabras” (entre outros, bem mais inventivos) por algum comportamento de que se possa não gostar (e é entre meninas que isto mais escandaliza, mas que se assume normal!).

É comum assistir-se a uma exploração da sexualidade muitas vezes precoce, motivadas por coação da parte dos restantes colegas.

É comum assistir-se a tentativas declaradas de chantagem, ameaçando-se a divulgação de vídeos pseudo-pornográficos na falha da continuidade de favores sexuais. É comum ver-se as crianças e os jovens cada vez mais sexualizados, sem que continuem a saber lidar com essa sexualidade de forma mais actualizada. É comum assistir-se a uma educação sexual completamente inadequada, orientada quase exclusivamente para a componente fisiológica da questão, sem que se pense também em educar para os afectos.

Tudo isto é comum, e por isso incorremos no erro de o considerar normal. Representa a regra sim, lamentavelmente, mas devíamos estar a fazer tudo ao nosso alcance para que não seja considerado normal, para que estes comportamentos sejam considerados as aberrações que representam! Se queremos que as nossas jovens mulheres saibam reconhecer o que é uma relação abusiva, temos que lhes dar ferramentas para isso, temos que lhes ensinar o que representa de facto estar numa relação e o que traduz um supremo abuso de confiança e um abuso continuado (seja ele físico ou psicológico). Se é na escola que as nossas crianças passam mais tempo, a escola tem de estar ciente destes problemas e dos riscos que lhes estão inerentes e tem de actuar preventivamente, não continuar a agir apenas depois do mal já estar feito e sempre de forma medíocre. Os pais também não podem ser excluídos da equação, naturalmente: uma criança precisa de vir ensinada de casa a como reagir a uma situação destas e essa reação tem de ser taxativa.

Bem sei que não sou nada imparcial para o estar a dizer: afinal, a mim ensinaram-me que ninguém me podia tocar a não ser que eu o quisesse, e que se alguém o ousasse fazer sem o meu consentimento, estaria eu autorizada a repudiar fisicamente e imediatamente o infractor (vá, o belo do pontapé vocês sabem onde).  Parece extremo, mas essa pode ser, num cenário também ele extremo da vossa filha ser forçada pelo namorado a iniciar uma práctica sexual que não deseja nem consente, a diferença em educar ou não a vossa filha para ser uma vítima. Da parte das escolas, exige-se em primeiro lugar um reconhecimento destes problemas, em vez de continuarem a olhar para o lado, e em segundo lugar que disponibilizem ferramentas que permitam a erradicação do problema na raiz.

EDUCAÇÃO PARENTAL
Por último, mas talvez o mais importante factor dos três que me propus a enumerar, o modelo de interação social entre um homem e uma mulher que as crianças recebem em casa, através do que observam nos pais, assume-se um dos maiores orientadores do seu comportamento futuro. Um filho que veja o pai a tratar a mãe com condescendência ou coisas piores, naturalmente irá tratar da mesma forma uma namorada. Uma filha que assista a uma atitude constantemente servil da mãe para o pai, vai achar normal que um marido se recuse a ajudá-la nas lides domésticas ou que se ache no direito de fazer exigências. Um filho que assista ao pai constantemente a menosprezar a opinião da mãe, naturalmente vai crescer a achar que a opinião das mulheres não é importante ou significativa. Uma filha que veja a sua mãe a aguentar, ano após ano, maus-tratos do pai, vai achar que também o deve fazer quando tiver um marido mais irascível, que por vezes se excede e até lhe assenta uma bofetada.

Um filho ou filha que veja nos pais um modelo de casal em que não há frontalidade, honestidade, respeito, igualdade e afecto, mas onde sobre ciúmes e desconfiança, discussões violentas e rancores acumulados, vai procurar (ainda que sem o saber) uma relação idêntica, perpetuando assim um ciclo de violência inegável.

Como pais temos mesmo de nos começar a responsabilizar pelos filhos que lançamos no mundo, percebendo que o nosso exemplo é o que eles levam consigo a vida toda. Não podemos esperar que os nossos filhos reajam da forma que consideramos certa a situações de desigualdade ou violência de género, se em casa transmitimos mensagens diferentes pela forma como tratamos o nosso parceiro(a), ou na forma como nos deixamos tratar por ele(a). Uma criança precisa de ver nos pais duas pessoas que se respeitem, que se tratem como iguais e no caso de serem um casal (sim, porque mesmo não o sendo é possível que a igualdade e o respeito sejam as bases da interação, embora muita gente se pareça esquecer disso), precisa de ver afectos, precisa de perceber de que forma é aceitável ou não que um homem manifeste afeição por uma mulher, ou vice-versa.

Temos de encarar frontalmente que se queremos mesmo erradicar a violência contra as mulheres temos de, primeiro, ensinar a todas as crianças que ela não é normal por ser a regra, mas é sim uma aberração, uma barbaridade e uma atrocidade a ser denunciada imediatamente. Segundo, temos ensinar todas as crianças a como reagir perante este tipo de abusos, recorrendo a todas as ferramentas ao nosso dispôr e de forma igualmente assertiva. Por último, temos de reflectir cuidadosamente sobre o exemplo que estamos a passar e ajustar o que necessitar de ajustamento.

A violência de género só vai desaparecer no dia em o queiramos, a verdade é mesmo essa. E é de casa, do nosso quotidiano e daquilo que somos todos os dias, que surgem as nossas vontades e de onde parte realmente a verdadeira mudança.

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