Vidas úteis

Esta minha semana foi dedicada intensivamente ao ensino da música: foi (e ainda está a ser!) dedicada aos preparativos para os vários concertos que tendencialmente se promovem nesta época festiva. E tive oportunidade para me aperceber de dois fantásticos privilégios que tenho na minha vida: primeiro, de poder conhecer tantas pessoas ainda em formação, e depois por poder ajudar nessa construção através da Arte e da importância que lhe está associada. Num mundo que se move a uma velocidade estonteante e que nos instila, hoje cada vez mais, um sentido de dever tão extremado que é capaz de obliterar todos os demais propósitos da nossa existência, poder fruir da Beleza em estado puro assume-se claramente como um autêntico privilégio. Mas não o devia ser: devia ser a regra, não a excepção. Debrucemo-nos intensivamente sobre o conceito de vidas úteis: disse o conhecido economista checo Tomás Sedlácek que “não estamos aqui para viver vidas úteis, mas vidas belas.” Parece bonito, mas aquele bonito que reservamos às utopias que sabemos não ser concretizáveis.

Em Portugal é tristemente comum vivermos com o permanente sentimento de culpa por não estarmos a cumprir na íntegra tudo aquilo que de nós é esperado no universo laboral. Fica sempre alguma coisa por fazer, e a culpa é nossa porque fomos nós que em dado momento não nos esforçamos tanto como devíamos, não cumprimos o nosso propósito no seio da empresa.

E, tal como às peças das máquinas que deixam de funcionar, enfrentamos o constante receio de ser substituídos por um novo modelo mais eficaz. Bem vistas coisas, só interessamos quando temos uma utilidade claramente perceptível, muito bem direccionada.

Na génese, este conceito parece-me completamente aberrante: retira-nos toda a nossa Humanidade, cria inseguranças, medos e instila a comportamentos cada vez mais irascíveis e agressivos, retira-nos toda e qualquer sensibilidade, tornando-nos em pessoas imunes à empatia e ao afecto (sim, porque não se iludam ao pensar que estes comportamentos se conseguem circunscrever ao universo profissional), enfim, drena-nos o tempo que devíamos ter para nos dedicarmos a viver.

Eu sei que na actualidade é quase tabu falar-se disto, mas vou dizê-lo na mesa: a vida não serve só para trabalhar. Trabalhar, como meio de encontrar uma forma de subsistência e como forma de realização pessoal no atingir dos nossos objectivos (nossos, não os que nos impõem) é desde sempre um dos pilares da sociedade. Mas assistimos hoje a uma forma de encarar o trabalho que extrapola largamente este âmbito: assistimos ao que se assume como um verdadeiro flagelo mundial, em que as pessoas só pensam em trabalho, ainda por cima com um sentido profundamente pejorativo a ele associado, e que por isso não têm tempo. Numa era cada vez mais tecnológica, somos meros robôs: acordamos de manhã, levamos as crianças às escolas que os vão tornar em outros modelos robóticos cada vez mais eficazes, enfiámo-nos no escritório 8h pelo menos a gerir os conflitos dos outros e a resolver problemas que muitas vezes não são nossos, mas que nos ordenam que são nossos de resolver, chegamos a casa para alimentar e deitar as crianças, tão exaustas como nós, e acabamos por sucumbir ao cansaço crónico que nos assola o corpo e a alma sem que nos demos conta da devastação que provoca (não sem antes terminarmos o que ficou por fazer nas 8h que gastamos no escritório). E amanhã, fazemos tudo igual.

Vivemos à espera do feriado, do fim-de-semana, das férias, das promoções que vão permitir ganhar mais dinheiro a trabalhar menos tempo, mas que por alguma razão não parecem chegar. 

Somos robôs, somos ocos, e porquê? Porque nos roubam o tempo, enlaçando nas teias de mentiras que perpetuam a ideia de que mais tempo de trabalho = mais dinheiro = mais prazer. E sem tempo, deixamos de apreciar a Beleza, tornamo-nos imunes a ela e deixamos de viver. Eu sei que esta ideia parece muito rebuscada, mas só é assim porque o processo de formatação de décadas que temos em nós profundamente entranhado se encarrega de a revestir com as cores da estranheza, do irreal. Se decidirmos usurpar o tempo que nos roubam e parar para observar o que nos rodeia, facilmente começamos a perder os diferentes filtros que nos foram impostos e começamos a ver a realidade com outras tonalidades. Ou isso, ou passamos a contactar diariamente com crianças, como eu, e procuramos ver o mundo pelos seus olhos: garanto que é bem eficaz.

Pensemos a nível micro: nós, portugueses, somos todos uns grandes mandriões, mas bem vistas as coisas trabalhamos sempre a mais do que aquilo que nos é pedido. É a regra escondida nas entrelinhas, ninguém nos obriga a isso contratualmente mas o colega sai 1h mais tarde todos os dias, a colega vem sempre meia hora mais cedo, todos vêm ao fim-de-semana se for preciso… Em contrapartida, há várias empresas na Europa a restringir o envio de emails profissionais após as 17h. Somos uma data de preguiçosos, mas desempenhamos as nossas funções com brio (os funcionários públicos não, que todos sabem que são uns mal-encarados empedernidos à espera da reforma!), que é como quem diz, trabalhamos até que o trabalho fique bem feito, implique as horas que implicar… Por outro lado, os países do Norte da Europa, os mais produtivos (!), trabalham uma média de 6h diárias.

Ora isto não é muito coerente, quer-me parecer. O que me parece óbvio é que vivemos à sombra de um incumprimento que nos venderam ser quase genético, uma característica alienável da nossa alma lusitana, tão nossa como o “deixa andar”. E sim, vender é a palavra certa, porque afinal pagámo-lo muito caro. Dizem-nos que não somos bons profissionais, principalmente quando comparados com as pessoas das grandes potências europeias, e entranha-se assim bem fundo em nós um sentido de dever deturpado, na medida em que a balança está continuamente desequilibrada para o nosso lado. Façamos o que fizermos, nunca é o bastante e estamos sempre em falta. Isto não é verdade, e o tal preço alto que pagamos é mesmo a nossa alma, a nossa existência, como lhe preferirem chamar.

Perdemos anos de vida com a quantidade de horas diária que nos dizem que devemos trabalhar, assim como com o stress que trazemos do universo laboral para o universo pessoal.  

Talvez esta ideia seja apenas sentimentalismo bacoco próprio da época natalícia, mas perguntem-se quantos anúncios publicitários costumam ver por esta altura a reforçar a ideia de que o maior presente de Natal é poder oferecer tempo àqueles que amamos. Toda a gente se comove com isto, toda a gente proclama Carpem Diem! Agora, perguntemo-nos quanto ao que fazemos diariamente para poder oferecer continuamente a nós mesmos e aos que nos rodeiam esse tempo. Assustador, não? Está a chegar ao Natal e lanço um desafio: paremos todos um bocadinho, um dias ou dois, para pensar na nossa real utilidade/propósito na vida e depois retomamos tudo a partir dessa premissa. Tenho a certeza que as utopias vão parecer cada vez mais perto, cada vez mais concretizáveis.

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