Em 2016, façam por amar!

Então parece que já começou um novo ano. Todo o mundo renova os anseios por um ano melhor, construindo uma realidade também ela melhor (seja num prisma mais individualista, seja noutro já mais consciencioso). Sei que ceder a essa vontade se constitui como um clichê, mas de alguma forma (talvez no meio deste estado inebriado propiciado pelas festividades em que me encontro) este ano parece-me inevitável, e quase bonito. Tenho um e apenas um desejo para 2016: gostava que todos pudessem sentir, nem que seja apenas num único dia na vida, o que é ser-se genuinamente amado.

É, continuam no Pimenta na Língua e não num concurso da Miss Universo, mas leram correctamente: desejo Amor.

Gostava que pudessem encontrar um amor que una dois colos como casa um do outro, onde duas mãos enlaçadas sejam o conforto e ternura que antecede a volúpia. Um amor onde um beijo seja um tesouro que se oferece, como se com ele se oferecesse também a capacidade de nos despirmos de todas as muralhas que nos envolvem e a capacidade de entregar o mais íntimo do que somos sem vergonhas nem pudores. Um amor que veja beleza no outro até no mundano mais ordinário, naquilo que todos os demais só conseguem ver fealdade: que dispense maquilhagens e cabelos arranjados, ou espartilhos (reais ou construídos) destinados a tornar o corpo num objecto mais aprazível. Este amor que veja a beleza dum bigode de leite no lábio, do inchaço dos olhos ao acordar, do cabelo suado e desarranjado depois do sexo, da barriga inchada depois duma refeição exagerada; um amor que encontre no outro a beleza sublime de um sorriso aberto espraiado nos lábios, ou de uns olhos refulgentes de felicidade.

Desejo que façam por correr atrás de um amor que permita o conforto do silêncio partilhado, em que a ausência de palavras não significa que não haja nada para dizer, mas antes seja a certeza dum fluxo de pensamento em deliciosa simbiose, que respira em conjunto. Um amor em que ambos reconhecem a luta que representa mantê-lo nutrido e a florescer estação após estação, e que mesmo assim tenham coragem de o tentar: com as limitações mais absolutas de cada um, com as tão óbvias imperfeições e inconsistências que carregam consigo, mas em que ambos diariamente se superem para o fazer acontecer. Esse amor em que a segurança em si próprio não seja nunca abalada sem que para isso seja necessário enjaularmo-nos em nós mesmos, mas antes que se reforce no desafio de ir continuamente ao encontro do outro, mesmo (e principalmente) quando o nosso mais primitivo instinto egocêntrico nos grita que não é possível dois serem um.

Toda a gente merece um amor que seja rochedo capaz de resistir à erosão da corrida de todos dias, tão impenetrável e inquestionável que as tempestades ocasionais que a todos acometem, não sejam mais que oportunidades para dançar à chuva.

Esse amor em que a passagem do tempo não consegue fazer esmorecer a ânsia da carne, não mitigue o frémito de duas almas encerradas em dois corpos que se desejam, nem extinga o fogo que queima de dentro para fora nos momentos em que se abandonam um no outro. Um amor que se der filhos, os seja capaz de nutrir com bons exemplos e capaz de formar pessoas que acrescentam, por oposição a pessoas que parasitam; em que esses filhos não sejam gerados pelo egoísmo de vidas centradas no próprio umbigo, mas sim pelo desejo de fazer do mundo um sítio melhor frequentado.

Gostava que conhecessem um amor que se revista daquele fascínio que só dedicamos às mais elevadas genialidades, quando olhando o outro; em que a rotina dos dias seja preenchida com aprendizagens mútuas onde cada um oferece o que tem e isso se assume fonte inesgotável de sorrisos e gargalhadas. Um amor que seja como o vento debaixo das asas de um pássaro, impelindo os seus vôos sem nunca ambicionar dirigi-los ou comandá-los, e onde as conquistas de cada um sejam celebradas sem invejas ou ressentimentos, mas sim que nos preencham com o orgulho de ver o outro brilhar. Aquele amor em que cada um é livre de ser cada um, com os seus sonhos e os seus medos, sem que nenhum tente ser mais do que o outro e apenas queira ser melhor que si próprio; aqui as mãos servem para impulsionar e amparar, nunca para asfixiar ou pisar.

É bonito ser-se amado assim, posso garantir. Mas é privilégio reservado a muito poucos: só consegue amar assim quem faz por crescer todos os dias, quem despreza a inércia que embala e vai atrás do abismo do desconhecido com a coragem da impulsividade,

quem é inteligente a ponto de não se contentar nunca com o conhecimento de hoje. Desejo, qual plácida Miss Universo, que façam por encontrar este amor, cientes de que ele apenas se encontra na construção continuada de muitos acasos, acasos esses que representam sempre a possibilidade de se auto-aperfeiçoarem ou de se conformarem com o que são. Esses acasos são sempre o risco ou a regra, o limbo ou a certeza, o abismo ou o comodismo, a vertigem do medo ou a inércia, a felicidade absoluta ou o “vai-se andando”. Queria mesmo que 2016 trouxesse este ímpeto a muita gente, este nervo e esta coragem, para podermos começar a construir um mundo melhor.  Falando com sobriedade, concluo: desejo que percebam que só ama quem tem tomates para amar.   

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