A vida através da lente do telemóvel

Não sei precisar no tempo quando foi que fotografar tudo o que fazemos se tornou “normal”. Sei que a minha infância/adolescência não foi povoada de selfies, nem de fotos da ementa de cada dia. E eu só tenho 25 anos.

Hoje para qualquer criança de 10 anos é normal ter um perfil electrónico, para qualquer adolescente de 16 anos é normal tirar e publicar (!) fotos de si próprio (selfies, que coisa tão interessante que até é importada e tudo) em frente a espelhos de elevador ou de casas-de-banho públicas, e para qualquer jovem adulto é normal partilhar um álbum inteiro daquelas férias fantásticas no Sul de Espanha ou a foto do prato daquele restaurante fantástico que abriu na baixa do Porto. A minha pergunta é simples: a que propósito se assume importante fotografar cada acontecimento corriqueiro da nossa existência, talvez revestindo-a de uma importância que ela não possui, e como podemos ser tão alarves que fazemos questão de esfregar essa nossa parvoíce na cara dos outros?! Se nos debruçarmos sobre isto com vontade, mesmo à séria, facilmente conseguimos chegar à conclusão de que vivemos imersos no ridículo duma humanidade que só consegue fruir da beleza das coisas se for através duma lente. Todos nos escandalizamos quando lemos relatos de pessoas que no meio de um incêndio, ficam para trás para o fotografar e acabam por ficar presas; é tudo um escândalo, algo impensável.

Mas não parece chocar ninguém quando diariamente vemos a vida íntima de cada um esparramada no feed do Facebook.

É quase como se as coisas/acontecimentos não fossem reais se não se puderem comprovar com uma foto. Os nossos olhos deixam de apreciar a beleza pela beleza e deixamos de estimular a nossa memória e imaginação, porque apenas procuramos momentos para capturar numa lente e encerrar num universo electrónico que NÃO É REAL. Pior do que (vi)ver a vida através de uma lente é necessitar duma validação virtual para que esta seja de facto consumada. Se for a um restaurante japonês incrível e não publicar uma foto do prato fantástico que pedi, esperando obter com isso umas dezenas de likes validando a minha óptima escolha e o meu requintado estilo de vida,  como me poderei gabar disso mesmo, na intimidade do meu próprio egocentrismo?

Assim, todo este universo virtual actua com ferramenta de validação externa e consolo narcisista para o ego.

Se acham que não, pensem comigo: fotografar a comida que vem para a mesa (ainda mais se vier com um aspecto verdadeiramente suculento) há 15 anos seria considerado uma tolice e uma estupidez! E é isso mesmo que representa, uma grandessíssima alarvidade que ainda por cima deturpa a forma como interagimos socialmente! É das coisas mais ridículas que encontro no meu quotidiano. 

Falemos também disso: numa sociedade onde as redes sociais são presença omnisciente (sim, porque não se iludam, aquelas sugestões que a web nos consegue fazer não são produto do acaso) no nosso quotidiano, em que as telecomunicações permitem um contacto sempre constante e sob os mais variados feitios, é muito fácil deturpar os modelos seculares de interação social. Aliás, se não se importarem de ser rotulados como extremistas ou como maluquinhos da conspiração, poderão constatar que isso já é o que acontece.

Antes da difusão dos telemóveis era impensável que as pessoas estivessem sempre contactáveis; trocavam-se telefonemas a horas bem específicas, sempre da linha de telefone fixo, o que por sua vez implicava saber à partida que o interlocutor estava em casa quando falava connosco. Agora, trocam-se chamadas, SMS, MMS, videochamadas, tweets, imessages, e sei lá bem mais o quê. A qualquer hora, em qualquer momento e em qualquer lugar. Não é por acaso que se tem assistido a um aumentos dos comportamentos agressivos (principalmente aquelas agressões que nunca o chegam a ser em termos criminais, pois são só psicológicas) dentro das relações amorosas.

Não é por acaso que as pessoas evidenciam uma maior necessidade de controlo, do outro, de tudo e todos.

Ao invés de nos tornar mais rápidos, tornou-nos mais imediatos, que não é bem a mesma coisa. Quero eu dizer que presentemente procuramos sempre aquilo que está “mais à mão”, o instantâneo, o sem esforço. Até nas relações: o sexo dissociou-se completamente do amor ou do afecto (afinal, não é normal mandar fotos “provocantes” a seja quem for que as peça? Então e o sexting – para quem não sabe, ter sexo através da troca de mensagens – não é a mesma coisa? Então e as megas declarações de amor eterno para todo o mundo ver, não são bonitas?), ou quando se sai com os amigos consegue-se manter em paralelo conversas virtuais com quem não está ali (mas se me mandam mensagens, vou fazer o quê, ficar sem responder? Isso seria profundamente indelicado). Parece quase mesquinho, mas se nos dedicarmos a observar as pessoas sem rosto e sem nome que por nós se vão cruzando, percebemos que estamos hoje mais sós do que nunca. Pior, se analisarmos o nosso próprio comportamento, veremos que já estamos todos “contaminados”; e sim, é mesmo de um vírus que se trata.  

Atenção que eu, apesar de gostar assim-assim de ser o objecto de fotografias, sou uma utilizadora fiel das redes sociais, e reconheço-lhes muito mérito quer na divulgação profissional, quer no estreitamento de laços afectivos (principalmente entre quem está separado pelas mais variadas distâncias)! Sou também dependente incurável do telemóvel, e fico instantaneamente em pânico se vejo a bateria a desaparecer. Não sou hipócrita. No entanto, sê-lo e ter em simultâneo esta noção do ridículo ajuda-me a não perder de vista aquilo que é realmente importante. Por esse motivo, custa-me mesmo a digerir a necessidade da maioria das pessoas em tirar pelo menos um foto a si próprio por dia e em publicá-la para o mundo ver. Pior, às vezes fazem-no aos filhos, completamente inconscientes dos perigos reais que isso representa para a sua segurança. E a noção do ridículo, o bom-senso, a sensibilidade, onde é que ficam? Não raras vezes, e principalmente em contexto social (feminino, perdoem-me mas é verdade), podemos ser surpreendidos na rua por um grupinho de pessoas que pára num sítio aparentemente aleatório e desata numa prolífica sessão de fotos, com direitos a bocas mais delineadas, ancas meneadas e olhares ensaiados. Não sei se concordam, mas sempre que me cruzo com um cenário destes a primeira impressão é mesmo o desconforto provocado pela vergonha alheia. O que eu leio num perfil electrónico que publique uma foto de si próprio por dia, é um carácter profundamente narcisista, egocêntrico e imaturo. E talvez uma vida profundamente aborrecida e desocupada, para que o único entretenimento útil seja ver-se a si mesmo.

No fundo é engraçado, isto dos avanços tecnológicos e do mundo novo das redes sociais: faz-nos sentir a todos como umas vedetas (afinal se as figuras públicas podem tirar umas fotos da sua ementa ao jantar, em que é que eu sou diferente?!), expondo o nosso quotidiano maioritariamente medíocre, mas em vez de promover uma real introspecção, um olhar-se a si mesmo pelo íntimo (necessidade urgente do mundo actual!), promove apenas um foco no que temos de mais superficial, acentuando os julgamentos alheios e o preconceito. Curioso, não?

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