Vamos jogar à cabra cega?

Amanhã é dia de ir votar. E neste Portugal dos Pequenitos, ir votar vai ser tal e qual como jogar à cabra cega: é tentar apanhar um e adivinhar quem ele é. Sim, adivinhar, porque somos continuamente vendados para ver apenas aquilo que alguém quer que vejamos, porque esta campanha foi recheada de tentativas (bem-sucedidas, infelizmente) para mascarar a verdadeira natureza de alguns candidatos. Desenganem-se: não vou estar aqui a fazer um apelo ao voto. Aquela larga fatia abstencionista da população não recolhe nem a minha simpatia nem o meu interesse. Não votar é uma escolha consciente que se faz (por motivos mais ou menos válidos), e por norma não gosto de assumir que as pessoas com opiniões divergentes da minha são inconscientes e ignorantes ao ponto de precisarem de ser incentivadas a votar. A mim o que me preocupa é em quem vão votar os outros todos, inclusive aqueles a que não consigo reconhecer capacidade intelectual, por muito que tente (e olhem que há alturas em que realmente me esforço), para conseguirem ir lá colocar a cruzinha de olhos bem abertos. Que é como quem diz: anda meio mundo cego, vendo aquilo que é mais conveniente ver, quer para uma elite (nada bem) disfarçada, quer para si próprios, para que consigam perpetuar o mundo fantasioso em que vivem.  

É precisamente esse o tema que aqui quero tratar: a cegueira colectiva que parece proliferar neste país e estas “jogatanas políticas” que mais se assemelham a um autêntico jogo da cabra cega.

Já muitos o disseram: no nosso tempo as guerras já não se fazem com armamento; as guerras hoje são financeiras, e o que vemos no nosso país (e assim como noutros) trata-se de uma invasão (pouco) camuflada.

O que me parece inaceitável não é que a nossa classe política seja conivente com isto. Tendo em conta aquilo que nitidamente lucram com essa postura e também tendo em conta o carácter que historicamente têm vindo a demonstrar, seria de prever uma linha de acção neste sentido. O que verdadeiramente me choca também não é a passividade com que encaramos este facto, permanecendo inertes no nosso sofá a assistir ao Telejornal, em vez de criarmos uma ameaça real à continuidade da existência de tais pessoas. Não, o que me incomoda sobremaneira é ser confrontada com a estupidez que tomou conta do povo português, na sua larga maioria, uma cegueira altamente contagiosa que afecta de forma acentuada uma larga fatia da nossa população.

Este discurso, eficazmente difundido em todos os diferentes veículos mediáticos não só nacionais, mas também mundiais, conseguiu manipular a opinião da generalidade das pessoas a ponto de desenvolverem uma estirpe do Síndrome de Estocolmo que futuramente se irá estudar, não tenho dúvidas, na medida em que conseguem não só aceitar as decisões do seu opressor, como fundamentá-las, apoiá-las, justificá-las. Enfim, conseguem ACREDITAR que são necessárias. Conseguem ACREDITAR que somos de facto uma cambada de meliantes a tentar através de todo e qualquer subterfúgio fugir de pagar as nossas dívidas. Sem que ninguém pareça querer encarar a clara mentira que estas representam.

Falo de uma cegueira colectiva que afecta milhões de pessoas. Pessoas que acreditam que uma ideologia política que vá contra a actualmente difundida (este neo-liberalismo redentor, capaz de nos vir resgatar dos excessos do socialismo) é um logro, é um ataque à própria sociedade ou à própria democracia, é um insulto à inteligência das pessoas.

Não me refiro a nenhuma sondagem, até porque esta seria uma sondagem que não interessava a ninguém fazer. Refiro-me ao que é possível observar lendo as caixas de comentário das notícias que saem todos os dias na comunicação social, por exemplo. Aí, eu vejo uma cegueira que torna as pessoas abertas à intolerância, permeáveis à manipulação, abandonadas à inércia, e incitadas ao fascismo. Partindo desta premissa e do que temos observado nos últimos meses cá pelo nosso Portugal, é possível concluir que efectivamente vivemos num regime fascista, onde aliás prevalece a censura como há 40 ou 50 anos atrás, e desta vez está tão bem montado, que a maioria dos portugueses, claramente sofrendo desta tal cegueira colectiva, vive tranquila e alegremente as suas vidinhas pacatas sem se saber censurada. Somos passarinhos enjaulados em gaiolas douradas, e gostamos. Há tantos exemplos para sustentar esta tese que se torna impossível enumerá-los (e incrivelmente maçador). Por outro lado, dificilmente se conseguirá dizer a um cego para ver como é negro o carvão. Mas mesmo assim, como sou uma gaja casmurra e tenaz, quero tentar:

  • Tivemos um Ministro Adjunto e dos Assuntos Parlamentares com um curso superior comprovadamente forjado, conquistado com recurso a favores (em teoria, com recurso a equivalências – 32, para ser mais exacta);
  • Tivemos um Ministro da Educação que decidiu, de forma perfeitamente arbitrária, pretensiosa e grotescamente prepotente que se conseguiria tornar as crianças mais inteligentes e competitiva criando mais exames, aumentando significativamente as metas de cada disciplina e aumentando a carga lectiva de Matemática e Português (como se fossem disciplinas de primeira e as restantes de segunda ou de terceira), mesmo que todas as investigações das últimas décadas isso contradigam categoricamente;
  • Tivemos um Primeiro Ministro que após 4 anos de uma luta cerrada à evasão fiscal, se descobriu ter uma dívida de milhares à Segurança Social, dívida que NUNCA chegou a pagar na totalidade, usando como desculpa o seu desconhecimento de tal facto;
  • Tivemos um ex-Primeiro Ministro preso preventivamente 9 meses, sem que NENHUMA acusação tivesse sido feita pelo Ministério Público, interrompendo precisamente o momento em que se encontrava como comentador político no serviço público de comunicação social (dos poucos de esquerda, certamente também estranha coincidência);
  • Tivemos um Ministro do Ambiente que achou ser necessário privatizar a água: enquanto dizia que nem sequer o equacionava, ao pretender apenas uma reestruturação do sector, planeava entregar a sua concessão a 5 grandes empresas (privadas), e se depois se acabassem por aglomerar apenas numa, seria uma consequência natural dessa reestruturação, nunca uma privatização;
  • Temos uma comunicação social em que prevalecem ASSUMIDAMENTE os comentários políticos de direita;
  • Tivemos um Ministro dos Negócios Estrangeiros que estando claramente implicado num processo criminal de desvio de fundos públicos (o chamado caso dos submarinos), fez desaparecer todos os documentos que podiam constituir prova no processo.
  • Tivemos um Presidente da República que foi comprovadamente desonesto (é, diz que até houve papéis a dizer isso e tudo) em muitas “negociatas” (falemos do BES e da casa da Coelha, meramente para ilustrar);
  • Tivemos um Presidente da República que em muitos e variados momentos escolheu favorecer o seu partido, mesmo quando a Constituição o impedia terminantemente de o fazer;
  • Tivemos uma campanha eleitoral para as eleições presidenciais a decorrer, em que um dos candidatos se encontra em situação de claro favorecimento, uma vez há mais de 15 anos que se assume como uma das mais importantes vozes de comentário político nacional, moldando naturalmente o pensamento de todo esse sector da comunicação social;

Já é mais óbvio a que me refiro quando falo desta cegueira colectiva? Não? Vamos fazer um desenho (olhem lá para mim a usar as mesmas técnicas de manipulação que os donos disto tudo, ao infantilizar o meu discurso): mesmo perante todas estas evidências, estes escroques foram votados para voltar ao poder por uma significativa fatia da população, e embora não conseguindo a maioria dos votos, conseguiram vencer as eleições. E porque esta fatia da população também conseguiu sair dos seus sofás para se revoltar transtornada contra a possibilidade duma coligação histórica entre os 3 principais partidos da esquerda, e contra a possibilidade dessa coligação se constituir governo. Mesmo que tenha sido precisamente o que fizeram estas pessoas depois dos resultados eleitorais das anteriores eleições legislativas; mesmo que não haja qualquer impedimento legal ou constitucional em fazê-lo. E claro, mesmo que não haja certamente qualquer impedimento ético ou moral, e mesmo que tal se tenha constituído como uma emergência social. Daqui se percebe o óbvio: os portugueses ou estão cegos ou são burros. Não quero acreditar que intrinsecamente burros, na medida em que nos mostramos claramente susceptíveis à manipulação de opinião, evidenciando por isso uma volatilidade de pensamentos notável.

Mas seremos certamente burros, cegos, populistas, incultos, chico-espertos e mesquinhos, se amanhã mais uma vez perpetuarmos estes comportamentos.

Atenção, não se confunda isto com um discordar de políticas de direita, pois não é disso que se trata. Apesar de não me rever nas ideologias políticas de direita, reconheço-lhes legitimidade e utilidade, principalmente naquilo que deveria ser o debate necessário e essencial para se governar um país. Isto é pegar nessas ideologias e radicalizá-las a ponto de se tornarem quase irreconhecíveis, é colocar os interesses financeiros acima dos direitos humanos, uma decisão calculista que além de atroz se pode descrever como incrivelmente estúpida.

Parece-me que todos estes radicais (sim, porque quando olhamos para as pessoas que compunham a coligação CDS/PSD até agora, eu vejo radicalistas à direita, desculpem-me que sou meia míope) se esqueceram de algo muito simples: sem pessoas, não há capital. Ponto.

Por isso, amanhã votem em quem quiserem. Até podem votar no Prof. Marcelo, nada contra, mas votem nele apenas se souberem em quem estão a votar (qual dos Marcelos?), no que defende (conhecem-lhe alguma ideia política concreta?) e no que representa (é completamente apartidário, mas também é em simultâneo o candidato do regime, será possível?). Em suma, votar não é expressar simpatias: é decidir a quem relegamos a nossa vida. E eu não deposito a minha vida nas mãos de quem não (re)conheço, cujas ideias e ideais desconheço e em quem não sei o que representa. Eu não vou só lá colocar a cruz: eu vou lá para acabar com o jogo da cabra cega.

You might also like

No Comments

Leave a Reply