Carta aberta a um cabrão.

Depois de um mês profícuo em notícias relacionadas com as relações abusivas, e depois de ser confrontada com algumas lutas de pessoas que me são muito queridas, percebi que (ainda) é urgente falar-se do que são relações abusivas. A todas as mulheres que possam estar hoje nesse labirinto, aqui vai um exemplo daquilo que lhe deviam dizer mal chegue a casa. Saibam que como todos os labirintos, há uma saída; e há muito melhor à vossa espera.  

Olá. Sei que ainda te lembras de mim todos os dias. E também sei porquê. Compreendo que não deva ser nada fácil viver com facto de saber que a (única?) gaja que te deu com os pés continua alegremente a sua vida por aí. Calculo que seja difícil de digerir que uma miúda frágil e insegura foi capaz de ver o tamanho da tua pequenez. Imagino que custe saber que há alguém que sabe exactamente a amostra de homem que tu és, e que não podes fazer absolutamente nada para a iludir, mascarando isso. É tramado sentires-te assim, impotente e fraco, não é?

Como já se passou algum tempo, gostava de te dar algumas novidades. Talvez não saibas que entretanto a minha vida mudou; se me visses hoje, tenho sérias dúvidas se reconhecerias a miúda insegura de outros tempos. Já ninguém decide o que posso ou não vestir, porque já ninguém que eu escolha para estar ao meu lado ousa sequer tecer as insinuações que tu tecias. Já não me sinto uma louca por ver a vida duma forma distinta das que conheces, até porque não conheces tantas assim, e já não tenho problemas com o ser possuidora de uma inteligência claramente superior à tua.

É que agora estou rodeada de pessoas que valorizam isso como um traço de carácter, que ao invés de sentirem em mim oposição, me vêem antes como uma mais-valia nas suas vidas.

Há já muito tempo que não tenho de lidar com gritos, recriminações, acusações ou insultos numa base diária, e isso devolveu-me a confiança que me é natural. Talvez por isso tenho atraído pessoas cada vez mais interessantes para a minha vida, talvez por isso olhem para mim e me vejam uma líder nata e inquestionável. Também não me recordo quando foi a última vez que me trancaram, seja num carro, em casa ou numa varanda no frio da noite. São coisas que simplesmente não acontecem mais: é que sabes, agora dou-me com gente com menos perturbações mentais.

Gostava que soubesses que actualmente percebo bem melhor esta história do sexo, e se já apreciava, fiquei a gostar muito mais. É que sabes, desde que só faço aquilo que quero fazer, desde que ninguém me obriga ou coage a nada, tive oportunidade de descobrir coisas muito interessantes, posso garantir. Nunca mais me aconteceu passar noites em claro, numa insónia constante provocada por um terror inclemente de ti.

Também passei a comer muito melhor, sem receio nenhum de possíveis consequências estéticas. Vê lá tu que descobri que se pode amar alguém pelo gosto que tem em comer! Se nunca gostaste que eu roubasse olhares por onde quer que passasse, agora ias odiar muito mais: é que sabes, desde que passei a alimentar-me como uma pessoa normal, em ambos os formatos, ganhei curvas bem mais torneadas, e passo bem menos despercebida. Só que a diferença é que quem agora caminha ao meu lado sente orgulho nisso, enquanto pensa na sorte que tem em ter uma gaja destas.

Posso-te dizer que desde que te larguei, tal qual se larga uma droga que nos consome de dentro para fora, me tenho tornado uma pessoa a cada dia melhor, sem a menor preocupação acerca disso poder ferir as susceptibilidades de quem caminha a meu lado.  Não estranhes pois o meu sorriso aberto quando me vês: estar bem acompanhada tem destas coisas.

Como já se passou algum tempo e nunca antes tive a oportunidade, gostava também de te dizer algumas coisas. Só é aceitável ser um fedelho mimalho e egocêntrico quando somos crianças. Até aos 8 anos, diria eu. Não quando já somos um jovem adulto, e certamente não quando já somos um adulto pai de filhos. Outra coisa: será que pensavas honestamente que “pôr-me a pata em cima” iria alimentar o teu ego? Terias tu uma auto-estima assim tão baixa? É que ninguém diria, afinal sempre foste um grande artista (ainda que por algum motivo, ninguém to pareça reconhecer). Vou-te ensinar uma coisa importante: quando se ama, ninguém tem que ser melhor do que ninguém. É-se o que se é, e ama-se o outro precisamente por ser assim.

Convém também que saibas que não adiantou nada hostilizares as pessoas que fazem parte do meu mundo: elas já cá estavam antes de ti. E por muito que te tenhas esforçado por me isolares do resto do mundo, ele esteve aqui à minha espera quando te decidi dar um chuto. Creio que também deves desconhecer o conceito de lealdade: sendo fiel ou não (até porque nunca fui uma puritana) há limites para a maneira como atraiçoas alguém. Se há coisa que não podes mesmo fazer, é injuriar-me e tecer mentiras a meu respeito para te conseguires fazer de vítima e assim manipular outra perdida como eu fui, e muito menos podes pôr-me doida enquanto te escondes em mentiras e negações. Ser-se homem é isso mesmo, assumir os erros e pedir desculpa; lamento se nunca antes ninguém to disse.    

Gostava de te dizer embora a estupidez nem sempre seja reconhecida pelos próprios portadores, a filha da putice não entra na mesma categoria. Não adianta desempenhares o papel de “coitadinho” tão bem como sempre soubeste desempenhar, ou tentares ser meu amigo. Não adianta vires atrás de mim, ou arranjares motivos para me falares. A minha resposta vai ser sempre o não ou o completo nada que tu já tão bem conheces, e a quem nos rodeia (pelo menos aqueles que importam), nunca vais conseguir enganar. Tu sabes exactamente o cabrão que foste e o cabrão que ainda és, e quem convive contigo sabe disso. Só assim se explica que ainda hoje persigas “presas fáceis”, que tanto podem ser mulheres com muitos problemas de auto-estima, como adolescentes recheadas de daddy issues acabadinhas de concluir 18 anos (que se há coisa que não és, é burro). Acredita, toda a tua existência e a necessidade que tens de a colorir com as mais elaboradas fantasias, só nos demonstram a todos o que tu verdadeiramente és:

um canalha com mais cérebro que juízo, um atrasado mental misógino e profundamente perturbado que precisa de sentir um controlo total sobre a existência de quem está ao lado para se conseguir sentir homem, um cretino de causar repulsa a qualquer uma por ousares tentar convencer alguém de que o que tens para oferecer é amor, quando tudo o que dás é pura agonia, alguém tão minúsculo que nunca mereceste sequer pisar o mesmo chão que eu. Ah, e com uma pila pequena.

No fundo, já só existes num lugar recôndito da minha memória para onde te exilei da minha vida. Mesmo que nos cruzemos todos os dias. Porque tu que hoje convives comigo, és completamente inexistente, uma ausência e um vazio que não consegue despertar qualquer sensação em mim, por mais insignificante que seja. Aquilo que vejo quando nos cruzamos é então apenas isso mesmo: um vazio (com pernas).

Fomos namorados, amantes, casal assumido, amor clandestino, fomos o quê mesmo? É que já não me lembro. Lembro sim da última coisa que me disseste: “nunca ninguém te vai amar como eu”. É que sabes, ainda bem: a intenção é mesmo essa.

You go, girls.

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