Ensinar Música é utopia?

O ensino, enquanto reflexo da sociedade, está em constante mudança, não sendo por isso possível assumir nenhum paradigma de forma dogmática e estacionária no tempo. A visão construtivista que tanto deu que falar surge precisamente como reação a uma exposição prolongada do ensino ao paradigma anterior, principalmente da necessidade de dar respostas mais satisfatórias a alguns problemas que qualquer professor em atividade conhece de perto (mesmo que o anterior governo se tivesse dedicado a crucificar esta visão do ensino). Dewey (1953) dizia que “há mais conversa sobre educação progressista do que propriamente sobre a sua implementação”. Creio que esta citação resume o principal problema do ensino em Portugal, e concretamente do ensino da música. Numa altura em que são dezenas os professores que se formam anualmente neste domínio, o que imediatamente pressupõe uma investigação e uma metodologia muito atuais, acaba por não se perceber uma diferença real e tangível na forma como ensinamos Música às nossas crianças e jovens hoje em relação ao passado.

Creio que o domínio da Música se constitui um campo recheado de potencial para explorar a visão construtivista do ensino e da aprendizagem. Num contexto em que as aulas são individualizadas, torna-se razoavelmente mais fácil para o professor instigar uma aprendizagem muito mais focada nas necessidades e interesses do aluno, nomeadamente no que toca ao processo de orientar este aluno para estabelecer os seus próprios objetivos. A integração de diferentes conhecimentos e comparação com o percurso passado encontra aqui o seu expoente máximo, pois na Música para sentirmos a verdadeira evolução, somos confrontados com estas realidades diariamente. A própria contextualização dos conteúdos com a realidade de cada aluno é também um grande exemplo do quão privilegiados somos: na nossa área é mais que exequível abordar músicas que supram as necessidades dos nossos alunos, necessidades essas que são tanto aquilo que eles gostariam de tocar, como aquilo que consideramos que devem tocar para o seu desenvolvimento.

Na Música, como talvez em mais nenhuma área de aprendizagem, este tipo de integração e de equilíbrio não só é possível como é relativamente fácil e simples de conseguir.

Para mim que iniciei a minha atividade docente há pouco tempo, foi-me possível já observar que a realidade atual não se compadece das desculpas vãs que os professores do meu percurso pessoal apresentavam. Atualmente temos toda a informação disponível à distância de um clique, e o mundo avança tão rápido que se torna até difícil acompanhar esse desenvolvimento. Neste sentido, é impensável assumir que os alunos de hoje devem aprender da mesma forma que os alunos de ontem. Se a perspetiva construtivista é reconhecida já há mais de 50 anos, hoje, arrisco-me a dizer mais que nunca, ela constitui uma emergência social. É indispensável uma mudança na representação que temos do ensino e da aprendizagem, na medida em que não mais faz sentido acreditar que os alunos aprendem todos da mesma forma, quando todos os estudos nos demonstram o impacto que tem a grande divergência de contextos sociais que circundam estes alunos. Não faz sentido continuar a insistir numa aprendizagem que se baseia na imitação e na memorização de informação selecionada de acordo com uma experiência tendenciosa de outras gerações educacionais, quando o mundo é hoje tão mais vasto e as necessidades dos alunos completamente distintas das de então.

Neste sentido, o professor atua maioritariamente como facilitador da aprendizagem, analisando potencialidades/dificuldades de cada aluno face a determinada situação específica em contexto de aprendizagem. Cabe-lhe a ele colocar hipóteses, testando assim os limites de cada aluno (e consequentemente alargando as suas ambições), mas em simultâneo selecionando as melhores possibilidades de sucesso. Cabe-lhe também a tarefa de orientar os alunos durante o estabelecimento dos seus próprios objetivos (ajustando expectativas) e mediando todo o processo que se quer direcionado para esses objetivos, contextualizando os percursos passados com os atuais, integrando-os na aprendizagem. Do aluno requer-se a sua participação activa, conceito que implica necessariamente a atribuição de um significado pessoal atribuído à aprendizagem de determinado conteúdo. Pretende-se que o aluno seja capaz de estabelecer relações entre conteúdos diferentes, e até de disciplinas distintas, mas direcionados para a sua concretização prática na vida real de cada um, promovendo assim uma aprendizagem significativa. O professor deve estar atento e orientar todo este processo (ou na verdadeira acepção da palavra, todo este caminho), usando estratégias diversificadas.

Devíamos tentar que fosse fundamentalmente o aluno a instigar e direcionar o seu próprio processo educativo, actuando nós maioritariamente como um facilitador da aprendizagem, analisando potencialidades/dificuldades de cada aluno face a determinada situação específica em contexto de aprendizagem. Devíamos tentar que se colocassem hipóteses, testando assim os limites de cada aluno (e consequentemente alargando as suas ambições), mas em simultâneo selecionando aquelas que parecem ser as melhores possibilidades de sucesso. Devíamos tentar orientar os alunos durante o estabelecimento dos seus próprios objetivos (ajustando expectativas, etc.) e mediando todo o processo que se quer direcionado para esses objetivos, contextualizando os percursos passados com os atuais, integrando-os na aprendizagem. E já que vamos lançados, porque não fomentar a partilha de opiniões e de conhecimentos entre colegas, já que esta é talvez uma das mais eficazes ferramentas de aprendizagem?

Claro está, esta abordagem exige assim uma mudança significativa na organização de todo o processo educativo, a começar pela mentalidade dos próprios docentes.

Assim, urge repensar a prática pedagógica à luz de uma nova perspetiva, mais real, mais sintonizada (afinada, se quiserem) com as pessoas, mais reflectida. Mais séria, no fundo. Quem sabe se assim orientando toda a educação em Portugal.

You might also like

No Comments

Leave a Reply