Do ódio e outros demónios.

Esta não era a crónica que tinha preparado para esta semana. Este não era o tema que queria abordar. É aliás, um tema de que tenho fugido terminantemente, à semelhança de larga maioria da sociedade, de resto. Porquê? Porque é doloroso ser confrontado com a maldade humana, nas suas diferentes formas. Estou obviamente a falar dos mais recentes atentados (que se dizem) terroristas em Bruxelas, os mais recentes numa linha que parece não ter fim à vista. Mas a maldade de que falo não se denuncia apenas naqueles que decidiram explodir com dezenas de pessoas. A maldade humana assume uma forma muito sui generis na forma como o resto do Mundo reage a estes atentados, o que se diz e o que se mostra, o que se escreve e o que se faz. 

Assusta-me a eficácia que se tem conseguido na implementação deste discurso do ódio. Todo o mundo logo se mobiliza para odiar, julgar, batalhar, mas poucos são aqueles que se dispõem a tentar ouvir, ou tentar perceber. E há muito que tentar perceber, garanto.

Estas respostas simplórias de que há uma religião que odeia mais que as outras, que incentiva e instiga a violência e a barbárie, e que por conseguinte todos os praticantes dessa mesma religião são uma ameaça declarada, merecendo ser por isso combatida, a mim não me satisfazem. O afunilamento da informação, orientada para um ponto de vista apenas, criando, ou pelo menos colaborando na criação de uma visão deturpada da realidade, a mim afronta-me a inteligência. Há para mim 2 grandes logros criados, manufacturados porque todos aqueles que têm um interesse (naturalmente económico, mas não só) muito forte na perpetuação de conflitos. O primeiro é que os refugiados são uma ameaça. O segundo é que nós queremos combater isto. Vamos por etapas.

O Daesh (sim, porque não são um Estado, não têm nação, não têm nada a não ser uma rede difundida pela mundo) não é uma consequência inevitável do islão. Em grande parte das afrontas que esta religião faz aos católicos fervorosos, o catolicismo não difere muito. A instigação da violência contra os infiéis (basta pensar nas Cruzadas, ou na Inquisição), a misoginia e a opressão da mulher (eles podem-nas obrigar a andar de burka, mas também a religião católica embora goste delas um pouco mais soltas, também coloca a mulher como alguém inferior ao homem, origem de todo o pecado), só para enumerar dois exemplos. O que torna as pessoas más NÃO É a religião que professam, mas sim os seus valores e consequentemente a forma como a interpretam e aplicam.

Estes milhares de desgraçados que nos têm “invadido” as fronteiras são refugiados, um estatuto reconhecido universalmente, gente que foge da desolação de guerras que fomos nós que criamos. São muçulmanos e têm costumes diferentes? Sim. Se alguns deles poderão ter visões da sociedade que chegam a assustar? Certamente. Mas se achamos verdadeiramente que os nossos costumes e valores é que estão certos, a forma real e eficaz de os difundir não é ir para lá “estabelecer a democracia”. Chama-se integração, meus senhores. É deixar que uma geração após a outra, uma vez sentindo uma real integração no mundo ocidental (real, não aquela que andamos a deturpar até hoje), possam ir sendo positivamente influenciadas, levando-as a alterar costumes menos dignos. Esta é de resto, evolutivamente falando, a forma como no resto do Mundo se têm afastado prácticas também não muito correctas (a escravidão, o casamento forçado, a ausência de direitos legais para as mulheres, por exemplo).

Não se lhes pode fechar a porta, nem tão pouco criar muros (será que o Muro de Berlim caiu assim há tanto tempo?!), ou muito menos empurrar para campos (a semelhança com os campos de concentração passa assim tão facilmente despercebida?!).

São pessoas, exactamente iguais a mim ou a vocês, pessoas completamente desesperadas com as mãos vazias e os filhos (crianças, só crianças) nas costas. Arriscam tudo para cá chegar, fugindo duma completa destruição instilada por nós, ocidentais, e nós viramos-lhes as costas?! E porquê? Porque nos adormecem difundindo o discurso do medo. Por cada 100 refugiados que chegam, não sei quantos são terroristas infiltrados. Mesmo os que não são, vêm para cá propagandear a mensagem e converter os outros (os nossos!) a sê-lo. Porque não está certo oferecer-lhe melhores condições de vida quando nós não temos as que devíamos ter. Será mesmo só a mim que tudo isto parece absurdo? São pessoas, têm o mesmo direito que eu a asilo como refugiados de guerra. Tudo o resto, são tretas.

Mas vamos agora ao segundo ponto, então. São tretas porque é tudo uma grande teia de mentiras, em que a aranha bem no centro, bem gordinha à força de tantas mosquinhas que comeu, são os E.U.A. Sem querer escrutinar teorias que provavelmente menosprezariam como vulgares teorias da conspiração, há factos inegáveis aqui no meio. Como é que os E.U.A. podem ser íntimos parceiros da Arábia Saudita, o país com maior índice de radicalismo religioso, e depois podem invadir outros países, como invadiram o Afeganistão ou o Iraque, para instalar a democracia e combater o terrorismo? Grandes nações não entram em contradições deste tipo; se o fazem, é certamente em consciência e por motivos muito fortes. Razões como os milhões de dólares que ganham com a exploração petrolífera e com a indústria do armamento, por exemplo, para falar apenas dos mais imediatos. É também inegável afirmar que o fanatismo e radicalismo religioso, embora uma constante secular (em todas as religiões, já agora), só desde 2001 é que mostra ser organizado, amplamente difundido, convenientemente armado e globalmente mortífero. Antes não eram mais do que loucos escondidos em pontos distantes pelas montanhas. O que mudou então? De onde é que apareceram os recursos necessários? Espera, 2001 não foi o ano do 11 de Setembro? Não foi a partir daí que esta zona do Mundo passou a ser constantemente invadida pelos E.U.A? Pois.

Lamento, mas basta uma breve e sintética análise à histórias destes países, para perceber que não eram nem retrógrados, nem extremistas, nem porra nenhuma antes de alguém ter conseguido financiar uma mão cheia de grupos radicias a ponto destes conseguirem chegar ao poder.

Por isso sim, este massacre de há quase duas décadas, fomos nós que o criamos. Nós, ocidentais, europeus, americanos. Nós, os civilizados, os democráticos. O que é curioso verificar é que a informação que nos chega, apresenta sempre as mesmas incoerências, sempre direccionadas para o mesmo lado. Afinal mataram o Bin Laden, não foi? Ninguém sabe bem como, nem ninguém percebeu porque é que supostamente o mataram se era uma mais-valia tão valiosa para desmontar o terrorismo islâmico, ninguém viu nada, mas dizem que sim, que o mataram. Afinal, todos os noticiários divulgaram as fotos dos homens que orquestraram estes últimos atentados (os de Bruxelas, claro, que o do Iraque é lá na terra deles, já não é bem a mesma coisa), mas ninguém estranha que num aeroporto cheio de centenas de câmaras, as imagens de vigilância nunca pareçam conseguir uma imagem clara e nítida dos culpados. Ninguém sabe bem como estes acontecimentos passam a ser factos reais, verdades absolutas. Só sabemos que estamos a ser bombardeados continuamente com estas “informações”, logo se dizem todos o mesmo é porque deve ser assim. É só a mim que isto parece incrivelmente estúpido?

Não me entendam mal: a perda de centenas de vidas, a disseminação do medo no centro de uma Europa já assustada, a brutalidade das feridas que se abrem, são absolutamente terríveis e merecem por isso toda a minha compaixão. Mas eu só gostava de respostas satisfatórias às perguntas que me assaltam, e gostava de ver acções dignas e reais. Não me tentem ludibriar por favor, não desprezem assim o sofrimento de tanta gente. E por favor, não ignorem o sofrimento continuado de milhares de pessoas do outro lado do muro.

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