Recursos Humanos: o novo acordo semântico.

Com um pé (de chinelo, claro, é favor não esquecer a casta a que pertencemos) na chamada silly season, há temas que se comprovam recorrentes, pelo menos na nossa imprensa: fogos e quedas de arribas, por exemplo, esses são certinhos. Eu, preenchida pelo lirismo que as férias à beira-mar sempre me imprimem, prefiro não falar desses temas, mas antes usá-los como recursos estilísticos. Já vos explico.

Não vai muito tempo, o ministro-adjunto da economia, Pedro Siza Vieira, deu uma entrevista ao Expresso cujo sumarento soundbite era: “o problema número um das empresas são os recursos humanos”. No artigo redigido por Joana Nunes Mateus, expõe-se a sua tese: aparentemente, a economia portuguesa só não cresce mais porque, por um lado, é necessário aumentar os índices de produtividade e por outro, é também necessário aumentar o número de trabalhadores qualificados.

Em primeiro lugar, não deixa de ser assinalável que se insista na tese do crescimento económico perpétuo, esse constructo em decadência; como se as economias fossem (ou tivessem de ser) gráfico ascendente em permanência, ao invés dos fluxos oscilantes que realmente são e sempre foram.

Eu, ingénua como me impõe a minha tenra juventude, estava em crer que as propostas para colmatar estas duas lacunas seriam coisas como reduzir os horários de trabalho (há partidos a propor nos seus programas eleitorais a redução para 30 horas semanais, convém realçar), aumentar o valor do salário mínimo nacional para valores minimamente adequados à realidade de Portugal na Europa, ou até reverter os avanços da chamada “flexibilidade laboral” na nossa legislação. Eu sei, ingénua era eufemismo; parva será mais adequado. As propostas de Siza Vieira passam antes por investir fundos europeus em programas de “formação técnica e especializada” e por conseguir “condições mais atractivas” para a contratação de trabalhadores estrangeiros, como seja facilitando prazos e procedimentos para conseguir vistos e autorizações de residência. Diz ainda que se se conseguir diminuir a carga fiscal para as empresas, se conseguirão melhores salários.

Já me sinto menos parva um bocadinho; portanto, bem entendido, o que ministro-adjunto propõe é continuar a recorrer ao dinheiro da Europa para formar pessoas que, segundo os defensores destas ideias, ou não querem trabalhar, ou não o sabem fazer (esquecendo, em segundo lugar, num mundo cada vez mais automatizado graças ao desenvolvimento tecnológico, o problema do pleno emprego), ao mesmo tempo que se procura incentivar a contratação externa (quiçá para promover a competitividade? Já se sabe que essa é uma excelente motivação: trabalha lá 14 horas por dia e é se queres, porque senão aquele engenheiro suíço faz o mesmo que tu em 6h!). Por um lado, formar melhor as pessoas, para pelo outro, ir contratar fora. Genial; todos os estudos que classificam os portugueses como profissionais altamente especializados e bem-formados devem estar enviesados, assim como aqueles que associam falta de produtividade a horários de trabalho demasiado carregados e a salários pouco compensatórios.

O problema das organizações não são os “recursos humanos”; é ter-se permitido, negligentemente, que as pessoas passassem a ser recursos, que os trabalhadores passassem a ser colaboradores e que o investimento em boas condições de trabalho (das quais faz parte, naturalmente, o salário) passasse a ser um custo. Não é apenas semântica, não sejam vocês ingénuos: é controlo do pensamento através da linguagem.

Assim, de mansinho e começando nas palavras que utilizamos para descrever o que nos rodeia, temos vindo a erodir as relações laborais a ponto de as ver desintegrar-se diante dos nossos narizes. Como aqueles turistas incautos que se põem debaixo das arribas em risco, arrastamos as jornadas de trabalho, uma após a outra, preenchidas por prepotência e, não raras vezes, de incompetência, à espera que acabem por nos cair em cima com a violência de uma derrocada. Meritocracia, respeito mútuo, bom-senso? Tudo areia que escorre velozmente das nossas estruturas em rápida erosão.

Assistimos, impávidos, enquanto lavra o imenso fogo que incendeia a nossa já tão frágil legislação laboral: concertação social, protecção na saúde e na parentalidade, conciliação entre a vida profissional e a pessoal, contratos sérios e horários de trabalho dignos, tudo direitos que uns poucos se dedicaram a inflamar a ponto de os tornar combustíveis num gigantesco incêndio que ninguém parece querer combater, mas que mata. O nosso universo laboral é uma selva em chamas, e só quem não depende do fruto do seu trabalho é que se recusa a olhá-la.

Não sr. ministro-adjunto, não são os impostos que impedem o salário justo: é este capitalismo desenfreado que busca o lucro absoluto, custe o que e a quem custar. Basta olhar para o outsourcing, para os lucros distribuídos pelos grandes accionistas de empresas com milhares de trabalhadores precários, para os números dos Tribunais do Trabalho. Não, não são os “recursos humanos”: o problema é perpetuarmos este ciclo auto-destrutivo de desumanização que grassa (também) no universo laboral, sem que vocês, os supostos eleitos para nos governar, mostrem vontade de mudar o curso desta embarcação a afundar. Já basta de fazer de nós parvos, ainda que estejamos na silly season.  

artigo publicado na edição online da REVISTA RUA, a 29 Julho 2019.

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