Os combustíveis estão em greve, ou percebi tudo mal?

Não se ouve falar noutra coisa que não na “greve dos combustíveis”. A própria nomenclatura, já de si ridícula (façam-me a indulgência de imaginar os combustíveis em greve e já verão), parece vir enunciar o absurdo que tem presidido à opinião pública sobre o assunto.

Vejamos: esta greve tem um pendor político mais acentuado que outras? Tem. Esta greve é impactante, porque afecta muitos sectores da vida em sociedade (dos quais, a economia, o aparente Santo Graal da nossa actualidade)? É. Esta greve, tão ambivalente nas motivações e tão incómoda no timming e na forma, parece às vezes despropositada e a roçar o absurdo? Um bocado. De todas as perguntas, estas e as outras, só há uma que importa: e então?! Acaso o direito à greve passou a ter um barómetro?! Ou um juiz que decida se ela é válida o suficiente, escorreita e inócua o bastante?!

É este o país que queremos, neste mundo que temos? Eu não. Um país em que as greves servem apenas para manter a ilusão de que vivemos num Estado de Direito e em plena democracia, em que o governo e a comunicação social que se queria isenta se aliam para tentar instilar o ódio de classes, virando trabalhadores uns contra os outros, não é um país que me sirva.

Somos gado nas mãos de uns quantos pastorinhos, eis o que somos.

Todos encarneirados em filas nas bombas de combustível, afinal foi um senhor de fato e gravata que no-lo recomendou, com medo não de que o país paralise, não sejamos hipócritas; medo sim de não conseguir chegar a Albufeira para os nossos 15 dias esparramados num quinhão de areia de 4 m2 e banhos de mar feito de descargas. Bem-haja os nossos 15 dias num hotel sobrelotado, cheio de música aos gritos que nos impeça de pensar, comendo comida requentada sei lá quantas vezes em restaurantes cheios, de filas, de barulho e de gente; enquanto isso, o livro que compramos no Continente e que nem sequer sabemos quem escreveu permanece por abrir, ainda que o arrastemos para todo o lado, mais não seja para tirar uma foto que nos mantenha a ilusão de ainda sermos seres sencientes.

Enfurecemo-nos então contra os camionistas, esses escroques gananciosos que põem em risco as nossas belas férias, perdão, o país. Já conseguiram um aumentozito, que querem mais? Recebem muito mais do que aquilo que aparece nos impostos que descontam, toda a gente sabe! Mesmo que haja vários sindicatos, bem diferentes quer nas motivações quer no estilo de negociação, o que eu sei – que é o que passa nas notícias a toda a hora – é que só um importa: nesse abandonaram as negociações e quem os representa é um passarito a querer ser passarão; estão-se a manifestar porquê, se eu estou bem pior?!

Neste egocentrismo institucionalizado o Capital vem derrubando uma por uma todas as muralhas que nos vêm guardando desde a 2ª metade do séc. XX; enquanto isso, vamos esfacelando todo o sentido de comunidade e de humanidade per se, esquecendo que apenas somos Humanos enquanto formos gregários.

Assim, parece-me claro que o sindicalismo e o direito à greve têm vindo a ser tenazmente corrompidos; talvez porque esta se revelou a forma mais eficaz de os comprometer, pela ameaça que representam num mundo povoado por este capitalismo sem lei. Já o vimos antes, os tempos têm sido prolíficos em greves injustificadas: a greve da AutoEuropa e a dos estivadores (que quase nos arruinaram o investimento estrangeiro, especialmente o da mui nobre e venerada Alemanha), a dos enfermeiros (que com a Saúde não se brinca) e a dos professores (que em tempo de avaliações quiseram deixar de ser escravos)… em todas fomos assistindo, permitindo e instigando a destruição deste direito que se queria inalienável. Com esta, o poder político mostrou claramente ao serviço de quem está quando decretou os “serviços mínimos”.

Como disse Bukowsky, “a diferença entre uma Democracia e uma Ditadura é que numa Democracia votamos primeiro e recebemos as ordens depois; numa Ditadura, não precisamos de perder tempo a votar”. Boas férias. 

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