Era uma vez…na Hipsterlândia.

O Verão começa agora o seu declínio, as férias convertem-se em miragem da memória, e pega-se-me à pele uma nostalgia que vou tentando desbravar. Não sei o que mais me aborrece: se pensar no tempo que leva até voltar a encontrar o bucolismo do mês de Agosto, se constatar que o mundo se transforma lentamente numa espécie de Disneylândia da comunidade hipster: a Hipsterlândia. 

Já ninguém vai ouvir concertos. Ou lê um livro com o deslumbramento de quem espera encontrar-se lá dentro. Para esta comunidade em crescimento, o importante é estar lá: naquele momento, vivido com a intensidade fugaz duma story no Instagram. É locomover-se pelos círculos que alguém (quem?) decidiu ser trendy e ter a certeza que se tem sempre algo a dizer sobre eles.

Verão é sinónimo de festivais. No nosso país já ultrapassam os 150 e há-os para todos os gostos; são tantos e no entanto são cada vez menos os festivais de música. Diria até que são inversamente proporcionais: quanto mais festivais de Verão aparecem, menos são os festivais de Música que ficam. Isto porque ir a festivais parece ser cada vez mais um roteiro turístico, que os programadores se encarregam de tornar suficientemente apelativo, aprazível. Já não chega acampar no meio de milhares de pessoas: agora quer-se glamping. Já não chegam as barracas de hambúrgueres, pizzas, sanduíches: agora querem-se opções vegan e world food. Ir a um festival para imergir num ambiente em que a Música é a força motriz que desbloqueia pulsões e descobertas é uma memória que pertence às caixinhas bonitas onde guardamos as relíquias do passado.  

Hoje o que importa é aparecer, dizer que se esteve lá (seja num festival ou noutro “evento” qualquer), e claro, ser-se visto, notado, assinalado. Nas reportagens aos concertos proliferam fotos do público; existem mesmo situações aberrantes em que parece ser mais importante ver-se quem foi assistir a tal concerto, do que quem nele tocou. Parece cada vez mais recorrente ver nas primeiras filas destes concertos não pessoas interessadas em ouvi-los, mas antes em fruir toda uma “experiência” diligentemente documentada (disponível para consulta num sem-número de plataformas virtuais) . Em vez dos groupies do passado, é ver estes  hipsters modernos neo-burgueses em frenesim pelas redes, à procura das fotos em que aparecem, ansiando o dia em que se sentem importantes, úteis, válidos. 

Esta figura revela-se na sua idiossincrasia, sempre a mesma fórmula repetida até à exaustão: pequenas tatuagens espalhadas pelo corpo (discretas, mas infalíveis), argolas com fartura, seja nas mãos, nas orelhas ou no rosto, tentando que não se perceba que aquele ar casual de quem vestiu a primeira coisa que lhe apareceu quando saiu da cama foi na verdade estudado durante 2h em frente ao espelho, o cabelo, num desalinho e sem ver banho há uma semana, em apanhados despreocupados (na verdade milimetricamente reproduzidos a partir de tutoriais do Youtube). Um mau-gosto nauseabundo com pernas e sem vontade própria, eis esta figura, o novo modelo hipster do séc. XXI.  

Para estes diletantes ditadores de tendências, o importante não é ver mundo: é que o mundo os veja. As nossas cidades mudam, na ânsia de acolher estes “nómadas digitais” – como também lhes chamam, não cientes de que são uma e a mesma coisa -, atendendo aos caprichos que apenas acrescentam selfies. Numa época em que o turismo, agora tornado low-cost, é cada vez mais apontado como um flagelo que devasta comunidades, é ver os espaços a transformarem-se: frases motivacionais penduradas pelas paredes em vez de Arte, sons a ocupar e entreter o pensamento em vez de Música que o liberte, as áreas cada vez mais circunspectamente funcionais (não vá uma pessoa perder-se). O que interessa é que tudo seja “instagramável”: em cada canto, um enquadramento perfeito para uma foto, o narcisismo fazendo-se verbo conjugado. 

É claro que tudo tem preço e tudo vem sendo tarifado. Se sentado numa esplanada a ver a vida passar se ganham os dias, então aos poucos isso passa a ser privilégio de quem o pode comprar. Consomem-se as cidades como se consome tudo resto, na ânsia canibal de preencher um vazio que vai ficando, sem que se saiba de onde veio. Destroem-se tenazmente as comunidades que outrora edificaram estas cidades, à medida que a vida real vai sendo afastada para bem longe. A autenticidade das vidas de pessoas reais ocupa demasiado espaço neste mundo cada vez mais virtual; o mundo sem filtros consegue ser assustador. O que sobra são apenas reflexos, ocos e estáticos, nas fotos que vamos acumulando, tudo tão very typical mas ao mesmo tempo tão incomportável, tão artificial, vidas em decomposição. 

O meu Verão teve um momento em específico que representa a antítese de tudo isto; foi a festa de aniversário de um amigo: na casa dele (não num espaço que alugou para o evento) reuniu umas poucas dezenas de amigos que pouco se conheciam entre si (nem sequer das sugestões de amizade do Facebook), numa sunset party em que cada um trouxe o que quis (sem carimbos à porta). Uns trouxeram comida, outros instrumentos, outros vontade de dançar e festejar, outros saudade. Nada se tarifou e nada se cobrou, e francamente não sei se a experiência terá servido para semear umas quantas stories por aí. Sei sim que saímos todos de lá mais ricos: cantamos e dançamos juntos, partilhamos comida em várias línguas diferentes, vimos avançar a madrugada à medida que fomos perdendo o tempo. E ali, perdida na madrugada e inebriada de tudo o que realmente importa, me encontrei: o mundo real, fora do parque de diversões, sem filtros e sem condições, é muito mais bonito. 

 artigo publicado na edição online da REVISTA RUA, a 13 Setembro 2019.  

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