Ser Professor

Setembro é o mês do regresso às aulas em Portugal. Os hipermercados organizam campanhas megalómanas de venda de material escolar, as papelarias estão a abarrotar e fazem o lucro do ano inteiro, as ruas enchem-se de pessoas de mochila às costas, as cidades povoam-se de vozes, gritos e gargalhadas de crianças. É como se de uma Primavera se tratasse: os dias desabrocham com o retomar da rotina escolar. Talvez seja por isso que assuntos como a colocação de docentes ou a falta de pessoal não-docente nas escolas, passam a estar na ordem do dia: em Setembro a sociedade volta a recordar-se das crianças, e aí voltamos ruminar a displicência com que tratamos a Educação em Portugal. No meio do caos do arranque do ano letivo, é fácil perdermos a missão que escolhemos desempenhar no meio dos dossiês, dos formulários e dos relatórios. É sobre isso que hoje escrevo: sobre o que é ser Professor.

Ser Professor é enfrentar todos os dias um palco onde o improviso é uma constante, defronte de um público exigente e crítico.

Os professores não sabem tudo, nem têm sempre razão, mas não podem deixar dúvidas por tirar. É vestir uma espécie de capa de super-herói e deixar em casa os medos, as tristezas e as preocupações.

Quando abre a cortina (que é como quem diz, quando toca a campainha) recebem-se caras ensonadas e mal-humoradas com um sorriso amplo e o tempo ganha outros contornos. Mede-se em blocos de minutos, que se espremem na tentativa de estimular seres sencientes. Querem-se cérebros pensantes, que questionem e que critiquem, que não se acomodem ou conformem, cérebros coloridos de imaginação que não se percam no labirinto dos exercícios e das avaliações. Querem-se pessoas que fiquem crianças muito tempo, que não percam esse colorido nem o deslumbramento da descoberta.   

Ser Professor é pegar na adversidade e dela fazer aprendizagem. Os professores trabalham cientes de que não têm poder para mudar o mundo, mas mesmo assim tentam-no, uma criança de cada vez.

A aprendizagem não se mede em níveis e classificações, nem se encaixa em pequenas tabelas de critérios arbitrários. É antes uma mão cheia de pequenas vitórias que se sentem a dois: pode ser conseguir perceber uma fórmula ininteligível há um ano atrás, conseguir não ler mas sim ver a poesia, ou até saber que a escala de Ré Maior tem dois sustenidos. É lutar incessantemente por condições laborais dignas e justas, e mesmo assim não permitir que essa combatividade transborde para dentro da sala de aula. Aqui, quer-se calma e pousio que propiciem o diálogo e a partilha de ideias. Quer-se mais criatividade e menos condicionalismos, quer-se mais comunicação e menos transmissão. E nas confidências mais inusitadas, é saber abandonar a secretária e falar de olhos nos olhos, oferecendo colo mesmo a quem não o sabe pedir.

Ser Professor é emprestar o coração às crianças que nos entram na sala. Os professores vão assim lapidando um coração que não se esgota: é inevitável, eles partem e nós ficamos, e um pedacinho de nós parte com eles.

Seremos talvez pequenos amuletos que os guardem na viagem. É ver nos olhos daquelas pequenas pessoas em potência a alegria do reencontro, e ler sem enleios que a nossa falta foi sentida. Os professores orientam sem direcionar, não pescam mas ensinam a pescar. Nem sempre é fácil, mas também há afeto nas correções e repreensões, as verdadeiras, feitas de igual para igual e sem recriminações. É amar (sim, porque não?) crianças que nos emprestam durante um curto espaço de tempo: limpamos joelhos e queixos esfolados, ouvimos queixas e mediamos conflitos, ouvimos confissões sussurradas, desbravamos frustrações com espadas imaginárias feitas de confiança que insuflamos em pequenos rostos de lábios trémulos e olhos de água.

Eu sei, ser Professor é terrivelmente difícil na maior parte do tempo e particularmente extenuante quando exige que nos privemos duma vida pessoal normal, com direito a lar, família presente, lazer e ócio, até. Consegue ainda ser exasperante quando nos atiram para os labirintos burocráticos em que tantos e tantos de nós se perdem de si próprios. Por isso, agora que Setembro já começou de mansinho, eu gosto de (me) relembrar: ser Professor não é uma coisa que se faça. Ser Professor é algo que se é. 

​artigo publicado na edição online da REVISTA RUA, a 20 Setembro 2019.

https://www.revistarua.pt/ser-professor/

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