Campanhas, tricas, partidarites e outras maleitas. ​

Anda por aí mais alguém tão irritado como eu com esta campanha para as eleições legislativas? Haja esperança: felizmente entramos na última semana, só mais uns míseros 5 dias (porque não há qualquer vislumbre ou sussurro de política no dia da reflexão, todos sabemos, ainda para mais este coincide com o feriado da implantação da República,  estou seguríssima que política vai ser nem vê-la) e finalmente iremos votar o próximo quadro político que nos irá reger durante os próximos 4 anos. Repararam que não falei em eleger o próximo Governo, não repararam? Já me conhecem e à importância que dou à semântica.

Quando olhamos para aquilo em que se têm convertido as campanhas eleitorais torna-se difícil morder a língua. Já estávamos habituados a comícios exultantes (ver num deles Assunção Cristas a dizer que quer “esta ciganada toda a votar CDS” é delicioso, confesso, assim como são bastante divertidos os já reconhecidos saltinhos do actual Primeiro-Ministro), a debates onde discutir política parece extraordinariamente difícil, e ao óbvio manietar da comunicação social em perseguição das falsas polémicas destinadas a obliterar o trabalho desenvolvido ao longo de 4 anos (o bom e o mau). Agora, a acrescentar a tudo isto, temos os dirigentes dos principais partidos em programas de humor, com fotos de caldeiras, festinhas a cães e piadolas mal conseguidas?

Talvez visando aproximar as pessoas da política, de repente a esta converte-se numa feira das vaidades (perdoem-me lá a veia vitoriana), quase um circo em que poucos são os que se recusam a ser palhaços. Eu serei talvez bota-de-elástico, mas recuso-me a aceitar que o poder político se demita da sua responsabilidade em informar e sobretudo formar as populações. Se as pessoas não compreendem o discurso político, há que lhes explicar; o que não é o mesmo que reduzir esse discurso à boçalidade para que o entendam! Urge exigir do poder político que deixe de fazer de nós burros e que encare esta responsabilidade máxima – a de criar uma sociedade mais inteligente, mais crítica, mais interventiva, melhor! – como fulcral que é na construção duma democracia que se aguente sob o peso de tantas ameaças (externas e internas).

Tenho andando tão distraída das tricas políticas (uma expressão que está muito em voga nesta transição para a coleção Outono/Inverno) que dou por mim a pensar nas coisas mais absurdas. Dei-me conta, por exemplo, de um grande contra-senso que rodeia o nosso sistema político: se nas eleições autárquicas votamos para eleger a constituição das assembleias municipais e simultaneamente o executivo camarário, nas eleições legislativas já não acontece o mesmo. Nestas, elegemos os deputados que irão integrar a Assembleia da República e é tudo. Não conhecemos nunca, durante a campanha para estas eleições, o hipotético Governo que formaria cada partido político caso se sagre “vencedor” das eleições. Retorcido, não vos parece?

É que no fundo, ao contrário do que acontece nas outras eleições e como já pudemos comprovar aquando da formação da “geringonça”, estamos a votar em abstracto; não estamos a votar para eleger directamente (e esta é a palavra central, para os mais distraídos) aqueles que comandarão os nossos destinos durante 4 anos, nem tão pouco os conhecemos sequer. Não conhecemos quem propõem os partidos para Ministro das Finanças ou que mudanças estruturais proporão ao desenho administrativo do próprio Governo (veja-se por exemplo o caso do Ministério da Cultura, obliterado pelo Governo PSD/CDS e recuperado por este último Governo PS).

A mim, isto parece-me um alicerce muito periclitante para uma democracia (que se queria) robusta. Mais ainda se tivermos em consideração como são formadas as listas dos partidos: organizam-se por diferentes círculos eleitorais, distritais, e compõem as suas listas grosso modo por nomeação directa. O que significa que os candidatos a deputados são apontados pelos quadros partidários; umas vezes por mérito, certamente, outras nem tanto. Se a isto acrescermos o crivo que advém do poder central de cada partido (e as polémicas no seio do PSD foram bem conhecidas, originando uma campanha algo errática ao longo do território), percebemos que este tipo de sistema político está claramente em falência. (Honra seja feita ao LIVRE, o único partido político que realizou eleições primárias no seio do partido para compor a sua lista de candidatos.)

Esta não é a única incoerência que encontramos no nosso sistema político: a abstenção, enquanto atitude demissionária de responsabilidade cívica, tem atingido dimensões verdadeiramente preocupantes, e não será fruto do acaso. Poderemos efectivamente dizer que este ou aquele partido ganhou com maioria absoluta se a abstenção rondar os 60%? Eu acho que não deveríamos poder. Assim como também os votos em branco são votos: expressam uma vontade, uma revolta que chegou a hora de começar a ser ouvida. Não me interpretem mal, não estou a sugerir como alguém se lembrou bem recentemente, que façam equivaler a percentagem de votos em branco a uma percentagem de cadeiras vazias no Parlamento. Mas talvez seja relevante pensar-se no que estes exprimem: uma falta de confiança no próprio sistema político, expressa por pessoas que ainda não se demitiram desta tal responsabilidade cívica tão alardeada. Essa falta de confiança, que a certo ponto inviabilizará a actuação política do futuro Governo (de formas que não serão óbvias, mas que já se vêm sentido de forma agonizante ao longo da última década), merece ser escutada. Mesmo que ainda não inviabilize eleições.  

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