Como ficou o campeonato (eleitoral)?

Na manhã que sucedeu as eleições legislativas do passado dia 06 de Outubro, a mesma pergunta impunha-se um pouco por todo o espaço mediático: quem venceu as eleições?

Terá sido o PS com a sua maioria (des)confortável, diz o consenso na opinião pública. Ou poderá ter sido o BE, que mesmo perdendo votos manteve a sua representatividade na AR e que se assumiu como a nossa 3ª força política? Ou ainda o PAN, que com uma votação mais expressiva ascendeu finalmente à política dos “crescidos” (onde vai ter que finalmente clarificar as suas posições ideológicas)?

Quem perdeu parece igualmente ambíguo: terá sido o PSD, com uma minoria confortável para Rui Rio (que conseguiu o incrível feito de não perder por tanto quanto era perspectivado), a CDU, que vê a sua posição crescentemente fragilizada, ou o CDS, que se vaporizou diante dos olhos da sua líder (e que assim finalmente aceitou a evidência da sua saída)?

Outros dirão que o real vencedor foi, na verdade, a nossa democracia, que com a entrada de 3 novos partidos ficou (ainda) mais plural. Não é essa a análise que aqui me traz; confesso que tenho tido alguma dificuldade em ver grandes vitórias nestas eleições, perante o cenário pós-eleitoral a que temos assistido.

Os golpes têm sido tantos e sucedem-se a tal ritmo, que se torna difícil acompanhar esta grande encenação que parece dirigir os reais resultados eleitorais. Por onde começar?

Talvez pelo desmantelamento da geringonça: ao contrário daquilo que foi apontado durante a campanha, o grande teatro deu-se agora, nas nossas barbas. No jogo de sombras que vem sendo transpirado para a imprensa pelos diferentes “comentadeiros”, tornou-se óbvio o que a “histórica solução política” proposta por Costa em 2015, alvo de tantos e variados louvores internacionais, não foi; não uma viragem à esquerda, não o desvincular do arco de governação, não uma mudança efectiva na forma de fazer política. Isto não é nada de novo; ainda durante a legislatura que agora findou, muitos foram os sinais e muitos souberam não os ignorar.

Com o comunicado de 10 de Outubro, depois da reunião com as principais associações do patronato, o PS assume finalmente ao lado de quem se posiciona (e não será casual Rio aguardar uma posição mais clara de Costa acerca da solução governativa, para decidir a sua continuidade à frente dos destinos do partido, tal como noticiou o PÚBLICO no passado dia 11); afinal, e depois de esquecidas as virgens ofendidas durante a campanha, PS não quer ser um partido de esquerda.

Fico pessoalmente satisfeita: BE, PCP e LIVRE estão assim libertos para se posicionarem mais firmeza e clareza ao longo da próxima legislatura. Se a revisão da legislação laboral profundamente delapidada (pronto, vá, liberalizada, ou antes, flexibilizada, não é assim?) não é uma prioridade de um partido de matriz socialista, para mim está claro ao serviço de quem este se encontra. À esquerda, quem quer ser de esquerda.

Por outro lado, torna-se a cada dia mais nítido que os pilares que sustentam a nossa democracia estão cada vez mais periclitantes. Graças a uma direita com visíveis dificuldades de posicionamento, vemos grassar uma onda populista e demagógica, e uma outra nitidamente racista, xenófoba, preconceituosa e a forçar a fronteira do fascismo.

Se por um lado, vemos o movimento neoliberal a conquistar espaço mediático (e assinalo, desde já, a torpe tentativa de tapar o Sol com a peneira – basta ler o programa eleitoral do Iniciativa Liberal para perceber que não falamos com liberais, mas sim com neoliberais), é assustador verificar que a extrema-direita vem paulatinamente conquistando adeptos no nosso Portugal.

Se mais provas queríamos de que o nosso sistema político clama por mudanças estruturais, aqui as temos: no Portugal dos dias de hoje, basta lançar meia dúzia de bitaites de café acerca de corrupção e falar ao âmago do preconceito que lateja ainda em muitas alminhas (e ser do Benfica, claro), para conseguir assento parlamentar.

O combate a estes movimentos tem de ser, necessariamente, político: à esquerda cabe a responsabilidade de não deixar resvalar a discussão para o campo da crítica ad hominem, cientes de que também não podem continuar a dar-se ao luxo de recusar o debate e o confronto.

Não queremos mártires; a História já nos ensinou o quão perigosos conseguem ser. Mas é preciso chamar os bois pelos nomes: como bem diz Bárbara Reis, extrema-direita não é fascismo, como bem diz Alexandra Lucas Coelho, racismo é crime e como bem diz Rui Tavares, o populismo esconde um supremo desprezo para com o povo.

Urge expôr as fragilidades que alicerçam as teses defendidas por estes movimentos: comecemos pela famigerada petição que visa impedir a tomada de posse da deputada eleita pelo LIVRE, subscrita pelas mesmas pessoas que invocam o processo democrático que também elegeu um deputado pelo CHEGA, por exemplo. São estas incoerências e os radicalismos que as fundamentam que temos o dever de trazer para o espaço público: não passarão.

Quem venceu então as eleições? Honestamente, não o sei dizer; se tivesse que apontar de forma inequívoca um grande vencedor, a minha resposta seria o grande capital.

O que sei dizer com firme certeza é quem foi o grande derrotado: esse, fomos nós todos (mesmo aquela expressiva maioria da população que não foi votar). 

Marta Moreira

You might also like

No Comments

Leave a Reply