a mulher que via aquários

Era uma noite de Verão, daquelas em que o ar é fresco, sem aquele calor que sufoca. Uma noite perfeita de Verão, daquelas em que quase se pode dizer que o ar transpira uma ligeira maresia. E numa noite dessas, saiu à rua uma mulher com cabelos de sereia. Eram cabelos muito compridos e ondulados. Iam soltos, dançavam-lhe à frente da cara. Dir-se-ia que seriam claros, mas o escuro da noite não permitia discernir-lhes a cor. E ondulavam suavemente, denunciando o balancear do corpo dela. Pisava o chão com pés leves, quase dançantes. Não pareciam encaminhar-se resolutos. Era mais como se não tivessem uma orientação definida. Iam não se sabe para onde, aqueles pés, andando como quem flutua, e enquanto isso dançavam-lhe os cabelos à frente do rosto.  

Ela não sabia para onde ia. É um costume que se foi perdendo, e hoje já quase não existe, esse de caminhar sem destino. Caminhar só para caminhar, como quem quer apenas entreter os pés. Assim como as mãos não foram feitas para estar quietas (e por isso encontramos tantos subterfúgios para as manter ocupadas), também os pés são membros impacientes, não foram feitos para estar muito tempo parados no mesmo sítio.

Mas agora não, não é preciso entreter os pés, eles sabem sempre para onde se dirigem, porque há sempre alguma coisa para fazer, logo há sempre um trajecto, e os pés servem para nos transportar do ponto A para o ponto B. 

Os pés dela não. A mulher dos cabelos de sereia caminhava como quem flutua, e não ia a nenhum sítio em particular. Os seus pés encaminhavam-se não a um sítio, mas a alguém.

Não sabiam onde estaria essa pessoa. Mas sentiam uma inexplicável vontade de se encaminhar na sua direção, mesmo que esta não existisse. Ou talvez porque não existisse. Em justiça não se podia dizer que ela o soubesse; aquela vontade que lhe locomovia as passadas não respondia a nenhuma decisão que ela tomasse conscientemente. Não tinha destino, não pensava onde ia nem para quê, mas os pés leves dela sabiam que iam ao encontro de alguém. 

Estavam muitas pessoas na rua. Era uma noite de Verão, daquelas agradáveis em que o ar transpira uma ligeira maresia. A mulher dos cabelos de sereia cruzava-se com elas como se estas pessoas pertencessem a uma névoa difusa, uma realidade paralela à dela. E enquanto ela passava pelas pessoas sem as ver bem, como se estivessem dentro de um aquário, cada uma dentro do seu, os seus olhares imobilizavam-se nela. Os cabelos compridos e ondulados deixavam atrás de si uma fragrância floral, subtil mas ainda assim bem diferente dos cheiros da noite na cidade. Se ele quisesse, certamente conseguiria reconhecer-lhe o cheiro, se ele quisesse, encontrava-a. E assim ela só via aquários nas pessoas que passavam, e ele não era nenhum deles. Ele, para quem os seus passos se encaminhavam sozinhos. Passos leves, sem direção, como quem flutua.  

Havia muitas luzes acesas, montras de lojas, cafés ou pequenos bares, onde pululavam ainda mais pessoas. O ar era povoado de conversas indistintas, todas em cima umas das outras, às vezes havia uma ou outra palavra que se escapava e aparecia assim, desconexa, aparecia assim e furava o ruído reconfortante que lhe acompanhava o trajecto. Eram quase agressivas, essas palavras que se escapavam, pequenos trinados como que a querer transportá-la novamente para o mundo real, pequenas ameaças a ancorar-lhe os pés leves de quem caminha como quem flutua. 

Mas ela continuava, o cabelo a ondular-lhe aquela fragrância floral que se perdia pelas ruas da cidade (tão diferente dos perfumes ostensivos com que as mulheres gostam de se borrifar), e os pés a encaminhar-se para parte nenhuma, não um sítio mas um alguém. As costas pausadas iam desaguar numa cintura pequena de ancas bem pronunciadas, que rebolavam discretamente. Não era um menear óbvio, daqueles arrogantes que procuram chamar à atenção. Não pretendia capturar olhares, mas antes esquivar-se a eles.

Dançava-lhe a cintura pequena um pé atrás do outro, o ar transpirado de maresia a beijar-lhe a pele enquanto lhe roubava o cheiro. 

Já não se viam há muito tempo. Da última vez os lábios dela roubaram um beijo aos dele debaixo da chuva que caía. Desde então, a vida dela acontecia longe dele; os pés dela detinham-se em casa e não cruzavam a noite nas ruas da cidade. Mas depois havia dias, como este que fez nascer uma noite agradável de Verão, em que os pés leves dela ganhavam vontade própria e saíam para as ruas da cidade, encaminhando-se na direção dele. A mulher dos cabelos de sereia não sabe como é que os pés dela sabem quando ele está aqui, mas sabem, sabem sempre. Havia um som, um cheiro, até o céu nocturno denunciava uma tonalidade diferente. Os pés dela sabiam, e encaminhavam-se ao seu encontro. Ela cruzava as ruas da cidade à noite, e sabiam que se encontravam algures. Não sabia onde, nem quando. Mas encontravam-se, inevitavelmente. 

Não se viam, não cruzavam olhares nem dirigiam sorrisos, não conseguiam trocar palavras. Que palavras havia para trocar, afinal? A dado momento do percurso alucinado dos seus pés que caminhavam como quem flutua, ela encontrava-o. Sabia que o tinha encontrado finalmente. Deixava-se estar parada por uns instantes, para que ele também soubesse reconhecer-lhe a presença. Não se viam, não trocavam um som, mas chegava-lhes saber que se tinham encontrado. E era como se estivessem novamente debaixo da chuva que caía, a trocar beijos roubados. Havia muitas pessoas nas ruas, todas de pés pesados que sempre se encaminham para algum lugar. Os pés deles eram facilmente distinguíveis pois eram os únicos que não iam a parte nenhuma, procuravam apenas o quando, nunca o onde. Passos desses produzem um som diferente, inconfundível, que ambos mutuamente reconheciam em noites em que o ar como que transpira maresia. 

Depois do cheiro floral dos cabelos compridos e ondulados dela lhe denunciar a presença, encontravam-se por fim. Ela deixava-se estar por uns instantes, a sentir o olhar dele a queimar-lhe as costas, virava-se mas logo ele fugia, e ela voltava a deixar-se estar, feliz por lhe sentir a presença. Mas logo os seus pés se encaminhavam novamente para casa. A mulher dos cabelos de sereia calcorreava as ruas na mesma passada, com a mesma cintura que dançava na calçada, os mesmos pés leves que não se apoiam no chão mas em memórias, os cabelos novamente fugindo-lhe para a frente da cara. E via-lhe o rosto em todos os aquários com quem se cruzava, todos eram ele, ou podiam ser. As conversas misturadas umas nas outras escondiam o som da voz dele. Mas ele não estava em parte nenhuma, e no entanto ela distinguia-lhe os contornos do rosto no meio da névoa difusa de aquários com quem se cruzava. 

Fugiam assim, ambos, de onde momentos antes tinham estado juntos, trocando beijos roubados à chuva. Da mesma forma que não conseguem aplacar as pulsões que lhes põem os pés a caminho, tão-pouco conseguem travar o fluxo que os aparta um do outro. Os pés leves que a conduziam para casa vão mais devagar, ainda assim. Querem que hoje só hoje, ele apareça e a trave, que hoje só hoje, não se contente com senti-la e que lhe queira tocar, que hoje só hoje, a queira beijar de verdade e não na memória. 

Finalmente, a mulher dos cabelos de sereia chega a casa. À medida que se encaminha para a porta do prédio, quase que o vê sentado nos degraus à espera dela. É ele, desta vez é mesmo ele, sente-lhe a fragrância almiscarada da nuca, reconhece-lhe o sorriso de lábios cheios.

Agora já se levantou e estende-lhe as mãos, e ela está mesmo a chegar, quase que já lhe consegue tocar, desta vez ele está mesmo ali nos degraus do prédio dela, e vão subir os dois juntos e não vão precisar de roubar beijos à memória. Porque desta vez ele está mesmo ali. Mas os pés dela sobem o primeiro degrau já pesados, o cabelo escorre-se-lhe pelos ombros desolado, e agora está também ela dentro do seu próprio aquário outra vez, porque ele já se foi outra vez. Ele está morto há cinco anos. 

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