o velho que descascado era uma criança

Havia um velho. Daqueles mirrados pelo peso de milhares de dias, com a pele encarquilhada em rugas profundamente sulcadas no rosto. Mas eram rugas diferentes do habitual: não as criaram preocupações ou angústias, mas sim milhares de sorrisos. Era um velho que sorria muito, sorria às coisas como às pessoas. Sorria às cadeiras vazias dos terraços, às portas fechadas das casas da cidade, às bancadas dos vendedores de fruta e de legumes. Sorria às estantes de livros das bibliotecas e das livrarias, às filas de cadernos por estrear nas prateleiras. Sorria aos bancos de jardim e aos baloiços nos parques para crianças. Era um velho que sorria muito.

O velho caminhava muito devagar, com esforço, um pé arrastado a seguir ao outro. As mãos iam cruzadas atrás das costas, amparavam-lhe a verticalidade do seu corpo mirrado, mas soltavam-se frequentemente naquilo que poderia ser descrito como interjeições, ainda que não faladas. No rosto enrugado espraiava-se um sorriso permanente, de quem sorri tanto às coisas como às pessoas. E as pessoas que se cruzavam com aquele velho não conseguiam evitar um sentimento de estranheza, um desconforto causado por aquela afabilidade quase translúcida do velho. 

O velho deixou-se ficar parado num pequeno parque, onde brincavam muitas crianças. Os olhos muito azuis do velho corriam o parque, pousando delicadamente em cada uma daquelas crianças. O velho pousava os olhos nos gestos que as crianças faziam ao falar umas com as outras, na destreza com que trepavam aos baloiços e escorregas, na velocidade que imprimiam às suas corridas de passadas curtas. Sempre sorrindo, os olhos muito azuis do velho iam pousando devagar em cada criança que povoava o parque. Os adultos que as acompanhavam olhavam o velho com uma certa desconfiança. Já as crianças, essas não pareciam dar pela presença do velho. 

Houve uma delas que se abeirou dele. Não parecia estar acompanhada: não olhava para lado nenhum a não ser para os olhos muito azuis do velho e para o sorriso que trazia espraiado no rosto enrugado. O velho abriu ainda mais o seu sorriso desconcertante, enquanto aquela menina de caracóis negros e tez pálida se acercava dele.

“Quase não te reconhecia”, disse ela com ar sério. “Estás cheio de camadas, todas umas por cima das outras, quase que não te conseguia ver.”

Os olhos muito azuis do velho reluziram, mas ele não disse nada. Soltaram-se as mãos por detrás das costas e acenou à menina dos caracóis negros, encolhendo os ombros num gesto resignado. 

“Como sabias que eu estava aqui?”, perguntou-lhe a menina com ar desconfiado. O velho sorriu ainda mais, enquanto as mãos respondiam que ia àquele parque todos os dias, que passava sempre pelo menos umas duas horas a pousar os olhos muito azuis em todas as crianças, à espera que ela aparecesse. “Eu já aqui estive mais vezes”, disse ela meio amuada, “mas nunca te vi. Ou se calhar vi mas não te reconheci, debaixo dessas camadas todas.” Ela sentou-se confortavelmente num banco ali perto, instigando-o a fazer o mesmo com os seus olhos grandes e cinzentos. “Nunca ninguém me disse que os anos nos cobriam de camadas, umas por cima das outras, até mal já se reconhecer quem somos.”

Dizia aquelas coisas num tom despreocupado, como quem relata as mais absolutas banalidades, mas os olhos grandes e cinzentos da menina não permitiam equívocos. Aqueles olhos estavam zangados, muito zangados, “sabes quanto tempo já passou, há quanto tempo estou à tua espera?”, perguntou-lhe a menina, o lábio tremendo muito ligeiramente. As mãos do velho responderam-lhe que não tinha a certeza, porque naquele momento era como se não tivesse passado tempo nenhum, como se tivessem despedido ontem, mas depois as dores nas costas mirradas diziam-lhe que não podia ser, depois via as mãos enrugadas e quebradas pelas artroses nos dedos e percebia que já havia de ter passado muito tempo, muito tempo desde a última vez em que tinham estado juntos. 

Os olhos grandes e cinzentos da menina encheram-se de lágrimas salgadas, o queixo a tremer suavemente no seu rosto pálido. “Senti muito a tua falta, sabes?”, as palavras escaparam-se-lhe, quase uma confidência, mas a voz chispando-lhe num tom acusatório que, ainda assim, não era capaz de desarmar o sorriso espraiado no rosto enrugado do velho. “Não é lá muito bonito, esqueceres-te assim das pessoas, deixar-me a brincar sozinha tanto tempo.”, e a menina abanava os caracóis negros ao mesmo tempo que abanava a cabeça. As mãos do velho explicavam-lhe que não tinha sido assim, que ela é que tinha ficado presa no tempo e no espaço quando tinha morrido há tantas décadas atrás. “Então eu morri, dizes tu.”, retorquiu ela num tom levemente sarcástico, sim porque as crianças também sabem o que é o sarcasmo, aliás, são do mais cáustico e sardónico que há, depois a vida é que se encarrega de lhes vergar a mola, mas à menina ainda lhe escorria devagar algum cepticismo pelas palavras. 

“Se é assim, porque é que estamos os dois a conversar? Se é assim, porque é que dizes que vens aqui todos os dias à minha procura?” E o velho encolheu os ombros, o sorriso que nunca esmorecia a dançar-lhe nos lábios.

“Costumam dizer-me que as saudades levam as pessoas a fazer coisas muito curiosas. Se calhar é mesmo verdade.”, dizia ela, os olhos grandes e cinzentos a olhar em redor, sem se demorar em parte nenhuma. As mãos do velho explicaram-lhe que sim, que isso era verdade, que as camadas que o cobriam eram na verdade mantos tecidos a saudades, debruados com a mais fina mestria de que ele era capaz. Metros e metros de um tecido fabricado com todas as coisas inexplicáveis que foi fazendo ao longo dos anos à procura dela. 

As mãos do velho explicavam à menina de caracóis negros ele fora tecendo aquelas camadas que o cobriam ano após ano, entrelaçando com minúcia fragmentos duma existência aparentemente normal: fora um funcionário leal e eficiente (tinha sido bibliotecário numa das bibliotecas da cidade durante toda a sua vida), muito metódico na forma como geria as rotinas de todos os livros que guardava, como era metódico a tecer as mantas que lhe cobriam as horas dos dias, camada por camada. 

Os olhos muito azuis do velho reluziam enquanto explicava à menina de tez pálida e olhos muito grandes e cinzentos que no dia em que ela tinha morrido, ele decidira parar de crescer. Não fazia sentido: ela, para sempre cristalizada numa menina de caracóis negros a emoldurar um rosto naturalmente curioso, e ele tinha que deixar de ser um menino? Não havia justiça nisso, não, nem sequer fazia qualquer espécie de sentido. Então decidiu ali, no preciso momento em que a viu adormecida num caixão (o caixão era tão grande para ela tão pequena adormecida lá dentro, não se deviam fazer caixões para crianças, fazem-nas muito mais pequenas do que elas são, roubam-lhes o tamanho, e se lhes roubam o tamanho então roubam-lhes a vida, são os caixões que as matam) que deixaria de crescer.

Aprisionou-se a si mesmo dentro daquele corpo familiar, como quem arma as muralhas contra um inimigo, um invasor. Viu o tempo a montar-lhe cerco, construindo trincheiras à sua volta, mas nem por isso se rendeu. 

O corpo foi-se alterando, esticou e alargou, nasceram-lhe pêlos em sítios estranhos, na cara a furar-lhe a pele onde antes era suave, e a voz ficou mais cava. Não conseguiu acabar muito bem a escola, os professores tomavam o seu total alheamento como falta de empenho e até de inteligência e acabavam por o ignorar. Quase como se à medida que o seu corpo crescia, ele se fosse tornando a pouco e pouco mais transparente, translúcido ao ponto de mal se dar pela sua presença. Refugiava-se nos livros, que devorava durante tardes inteiras passadas nas bibliotecas da cidade. Os livros eram os seus únicos companheiros, os únicos com quem falava. Chegou um dia em que já não sabia falar: a sua boca emudeceu e nunca mais recuperou. 

“Mas tu agora estás a falar comigo.”, e a menina era tão encantadora quando não acreditava no que lhe dizia o velho, uma das sobrancelhas escuras ligeiramente mais arqueada que a outra, os lábios contraídos num esforço de compreensão teimoso. As mãos do velho agitaram-se no ar, o sorriso a tornar-se meio irónico. Para a maior parte das pessoas, o discurso das mãos do velho não era mais que um gesticular neurótico de um velho um tanto ou quanto peculiar. Ele sabia disso, e não era coisa que o incomodasse. Não sabia precisar o dia no tempo, mas a um dado momento da sua vida a voz esgotou-se-lhe. As palavras deixaram de fazer sentido impressas no som da sua própria voz; só conservavam o seu significado desenhadas no papel. 

As mãos do velho agitavam-se diante dos olhos grandes e cinzentos da menina, à medida que lhe tentava explicar que muito poucas pessoas conseguem compreender as palavras que a boca não diz. “Mas e então porque não tentas voltar a falar?”, perguntou-lhe a menina, levantando-se energicamente, “eu posso ajudar-te a lembrar como se fala!”. O velho explicou-lhe que não era tanto uma questão de não se lembrar, mas antes um não ter nada para dizer. Porque as pessoas só têm coisas para dizer se tiverem quem as ouça, e uma das muitas camadas que o cobria era a solidão. Pessoas sós vão falando cada vez menos e menos, afinal, as palavras só têm sentido se dirigidas a alguém. Quando ela morrera, o velho ficou sem mais ninguém que o quisesse ouvir. 

Foi falando cada vez menos e sorrindo cada vez mais, tanto às coisas mudas e paradas como às pessoas, as pessoas que o tomavam por tolo quando o ouviam a desejar os bons dias aos bancos de jardim e as boas noites às portas fechadas dos prédios, até que esgotou as palavras que trazia dentro dele para dizer. “A um banco de jardim não faz falta falar”, retorquia a menina, teimosa, “mas tu és um menino! Mesmo sem quem te queira ouvir, podes sempre falar para ti próprio. Ou tens medo de te aborrecer?” As perguntas da menina eram afiadas como agulhas, mas não faziam doer. 

O velho não desviava o olhar da menina, nem lhe abandonava o rosto o sorriso amplo, mas agora já eram os olhos azuis que sorriam também. Talvez houvesse de facto coisas ainda por dizer, mais que não fosse para ele mesmo ouvir. Já nem sequer recordava o som da sua própria voz, e se ele tentasse e não saísse nada, e se as suas cordas vocais se tivessem convertido em pedra calcinada pela falta de uso? As mãos gesticulavam frenéticas, mas a menina, de pé à frente dele, agarrou-lhas com as suas mãos pequeninas, meio gorduchas e muito brancas.

“As palavras não moram só na nossa cabeça. Se assim fosse não existiriam tantas línguas diferentes para dizer a mesma coisa, não achas?”,

e agora a menina já sorria, era um quadro tão bonito aquele rosto perfeitamente cinzelado com um sorriso a emoldurar-lhe os olhos grande e cinzentos. 

As mãos dela apertaram-se nas do velho,

“eu sei que as tens aí, porque senão não se soltavam as tuas mãos e eu não te conseguia entender”,

e agora as mãozinhas pequeninas dela agarravam-lhe o rosto, segurando-o muito perto do seu,

“a solidão é como o pó que cobre os móveis velhos duma casa, basta limpares que desaparece”.

Os olhos azuis do velho transbordaram ligeiramente, e ele levou as mãos ao rosto para secar as rugas sulcadas no rosto, bem fundo nos olhos azuis. Quando voltou a abrir os olhos, a menina já lá não estava. 

Permaneciam os mesmos adultos preocupados, as mesmas crianças ágeis, o parque era exactamente igual. Mas as mãos do velho voltaram-se a cruzar atrás das costas, e as rugas sulcadas no rosto estavam secas. O velho levantou-se do banco, as costas talvez um pouco menos mirradas, os pés a arrastar-se talvez um pouco menos.

Obrigada, Isabel. Volto amanhã.

A voz do velho era cava e quase inaudível. Ele sorriu ao banco, deu-lhe as boas noites e foi-se embora.   

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