O grito que não vai calar.

O que têm em comum as manifestações na Catalunha, a chacina no Curdistão Sírio e a insurreição no Chile? À primeira vista, talvez possa parecer que nada além da violência, transversal aos 3 acontecimentos. Afinal, apenas um delas acontece no mundo que gostamos de acreditar civilizado; continuamos sem perceber que na América Central e do Sul correm ventos de mudança capazes de inspirar o mundo inteiro, sem perceber que o Médio Oriente reflecte apenas aquilo que dele temos feito, sem perceber que o Velho Continente há muito que deixou de ser bastião moral.  

O que une então estas realidades? Comecemos pela raiz que lhes é comum: as pessoas sentem-se roubadas. Não no sentido de posse, mas no verem-se privadas daquilo que realmente importa; são-no, de facto. Na Catalunha, são roubadas por um Governo Central que se recusa a aceitar a evidência de que depende do enorme volume de receitas dali provindas, e de que não há justiça alguma em ver esse dinheiro ser depois repartido de forma tão desproporcional. No Chile, são roubadas das mais elementares condições para uma vida digna, que a população depauperada do paraíso neoliberal não consegue suportar.

E onde já nada mais há para roubar, o que sobra? Na comuna de Rojava roubam-se vidas, umas atrás das outras como se não fossem nada. 

É um roubo, sim, perpetrado pelos que tanto se esforçam por desmantelar a comunidade enquanto conceito ideológico, pelos que tanto querem a soberania dos mercados, pelos que vão atrás do lucro custe o que custar, a quem custar. E às vezes, o custo são as vidas de milhares de pessoas, como vimos assistindo no extermínio curdo. Dirão que neste caso não é o dinheiro o móbil: os conflitos são antigos, o ódio de cariz étnico é um dos principais factores que motivam a violência da Turquia, por exemplo. Chamem-me radical, mas o que a mim me salta à vista é uma nação sem território, porque o seu território se vem tornando crescentemente apelativo para as grandes potências mundiais, que ansiando esmifrar ainda um pouco mais os lucros fáceis dos recursos já estoirados, vão regando a gasolina o preconceito e ódio ancestral dos territórios vizinhos.

Exterminando-se a nação, fica livre e disponível o território, uma equação bastante simples e eficaz. 

Se o ódio a Rojava, um dos projectos políticos alternativos mais corajosos do mundo moderno, não tem matriz capitalista, eu vou ali e já venho. Tal como o Chile, numa América do Sul onde a voz da população que se insurge tem clamado por soluções políticas que sirvam as pessoas e não os mercados, onde um “simples” aumento do passe do metro dá origem a manifestações de dimensões inacreditáveis.

Claro que não é o passe: é a luz, é a água, é a comida do supermercado, é a saúde, é a educação, é vida toda que cabe num bilhete para um metro atolado de gente já morta e que anseia ser viva.

E como a Catalunha, afinal aqui tão perto, onde a quebra de fé neste sistema capitalista é tão grande como a vontade de gritar que já chega: mesmo que a tentem silenciar, mesmo que a sentenciem a uma vida na prisão.

As consequências, essas são uma espiral que se vem repetindo ad eternum: estes Governos com tiques de autoritarismo fazem desencadear comportamentos altamente repressivos, a que as pessoas, finalmente despertas perante as grandes injustiças, se libertam da inércia com uma fúria que não cabe nos jornais, nas reportagens, nas fotografias. Os conflitos escalam numa velocidade que não se antevia; arde tudo, enquanto os lucros esperam a acalmia. Mas ela não vem, que quanto mais aumenta a repressão, mais alto clamam as vozes. Não importa que nos prendam, que nos cuspam e nos agridam, que nos crucifiquem e até que nos matem de paulada, assaltar é que nunca mais. 

Em simultâneo, a 23 de Outubro foram encontrados 39 mortos, migrantes chineses a fugir da morte apenas para a encontrar na mesma noutro sítio, e três dias depois chumbou-se no Parlamento Europeu, por 2 votos apenas, a criação de mecanismos de proteção para as vítimas do Mediterrâneo; por 2 votos apenas, se escolhe navegar no mar tingido de ódio e de medo, a bordo de cruzeiros em que se celebram as conquistas do capitalismo, um mundo onde ainda se morre por tentar encontrar sítio onde fazer vida. Por estas ainda não há manifestações, continuamos todos inaptos mas ordeiros a assistir ao roubo dos outros sem saber que é o nosso; mas a cada alvorada vem mais perto esse dia, em que a Catalunha, o Curdistão e até o Chile serão aqui, no território a que chamamos nação. 

O que une estas realidades dramáticas é tão mais que a violência. Está na origem e está na consequência: é a liberdade a querer sair da clausura das últimas duas décadas, é abolir a escravidão outra vez (e desta vez  os esclavagistas não têm rosto, são tantos e tão amorfos, vestem o fato dos mercados e a gravata do lucro rápido e inesgotável), é a voz que grita mesmo debaixo de porrada, e que não voltará a calar.

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1 Comment

  • Julio Moreira 9 meses ago Reply

    Tenho seguido com atenção as mais variadas crónicas. E gosto muito do que leio não só pela sua perspicácia como também pela sua crítica mordaz, mas acima de tudo pela sua coragem ao abordar assuntos de alguma complexidade. E se tivermos em linha de conta que vivemos um momento em que uma grande parte da sociedade até concorda com aquilo que li, mas depois acomodam-se. Dá a impressão que falta esperança para que as pessoas acreditem que ainda é possível mudar isto.
    Precisamos de mais pessoas assim.
    Parabéns.

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