Tem a palavra…a extrema direita em Portugal.

Os últimos tempos têm sido marcados por confrontos: lá fora é o Chile a insurgir-se contra o neoliberalismo, é o Brasil a ver reerguer a combatividade da esquerda, é a Bolívia a sofrer golpes de Estado encomendados pelos que procuram o monopólio dos mercados. Por cá os confrontos têm sido outros: enquanto em Espanha se elege a extrema-direita como a 3ª força política da actualidade, no nosso cantinho parece que querem calar os novos partidos com assento parlamentar, com deputado único na Assembleia da República. Será que é mesmo assim?

Eu, radicalmente libertária, me confesso: sou das que se opõe ao Chega com veemência desde a 1ª hora, das que não se conforma com a sua representação na AR, das que escarafuncham sem pudor a sarjeta das redes (ditas) sociais. E o que por lá tenho encontrado não permite equívocos: uma horda de pessoas sem rosto, escondidas por detrás de perfis falsos, que se exprimem convictamente nos seus insultos e preconceitos. Pessoas que fundamentam as suas convicções não em factos, mas num sistema de crenças elaborado, corroborado por carradas de vídeos falseados pela alt-right mais subversiva e saudosista, onde ecoam as teorias da conspiração mais absurdas, uma falta de sentido crítico atroz e uma convivência muito difícil com o nosso passado histórico enquanto civilização. Neste admirável mundo novo da pós-verdade, uma interpretação dos factos vale o mesmo que os factos em si, e a polarização daqueles que pensam diferente é o reduto do mais abjecto desejo de “renovação”.

Por isso mesmo, tenho acompanhado com fulgor a nossa cena política mais recente, e devo confessar que não é André Ventura que me assusta ou me causa repúdio: é o seu partido, esse compósito de racistas e fascistas que lhe serve de base na militância.

Vamos a ver: André Ventura diz que se hoje é político e não sacerdote, é porque se sente sexualmente atraído por mulheres (o que quer que isto possa significar); que se hoje está na AR, é porque tal faz parte de um plano de deus (tal qual o messias cá do burgo, será isso?); que não representa a extrema-direita, porque não é nacionalista (como em França), nem desfila ao lado de neonazis (como na Alemanha). Digam-me vocês: isto é de um tolo inconsciente, alguém que não sabe o que diz, ou é sintoma de alguma patologia?

Por muito que alarvemente propale que repudia o incentivo ao ódio e ao extremismo, por muito que procure pregar à sua comunidade, a verdade é que é o primeiro a dizer a uma deputada eleita, negra e activista de causas como o combate ao colonialismo (que tanto se impõe hoje, perante o crescimento dos instintos imperialistas que por aí proliferam), que tem mais é que ir para a terra dela; a verdade é que considera, nas suas próprias palavras, que “a democracia portuguesa dos últimos 40 anos fez muito mal à generalidade dos portugueses”. Por mui nobres intenções que possa ter, a verdade é que o seu rebanho tresmalhado em crescimento actua sob as suas palavras de forma consequentemente racista e fascista.

André Ventura pode não ser de extrema-direita, mas o partido que representa é, desde os apoiantes até aos seus militantes. Pregue ele o que pregar.

Se as bandeiras deste partido se alicerçam no discurso populista, por sua vez elencado quer em verdades óbvias mas incómodas, quer em preconceitos agrilhoados dentro do armário ao longo das últimas décadas, é à esquerda política que cabe a missão de lhe responder. Convém então esclarecer que o tanto barulho que se tem criado a propósito das alterações ao funcionamento da AR é só isso mesmo: ruído. Ninguém está a roubar a palavra democrática a ninguém (e muito me tem entristecido ver estes pequenos partidos a encostar-se ao Chega nesta temática); só a ajustar-se às novas necessidades que se impõem (não sejam umas choronas, que o crescimento do PAN ilustra bem a falácia do vosso argumento).

A ascensão da extrema-direita um pouco por todo o Mundo é evidente. É um problema real (pelo menos para qualquer pessoa que se creia democrata), e que por isso mesmo nos devia mobilizar a todos num combate cerrado. Não podemos faltar à chamada: com golpes de Estado a sucederem-se na América Latina e com o Brasil governado por fascistas, estamos decididamente em guerra, e ela não tardará a atingir-nos, aqui no Velho Continente. Não podemos recusar o confronto: o combate faz-se com debate público, escrutinado, tanto nos canais da democracia como nos esgotos escoados pelas redes, desmontando o torpe argumentário que apresentam.

André Ventura quer falar também quando há jornalistas a ouvir (que, a propósito, é o único momento da actividade parlamentar sobre o qual ainda não havia consenso)? Pois, deixem-no pregar à vontade. Mas a seguir chamem-no à barra e trucidem-no: exponham quão bem prega Frei Tomás.

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