a menina dos olhos cheios de estrelas

Ela gostava muito de ir ver o mar. Metia-lhe medo, é certo, aquele barulho todo das ondas a rebentar no areal; o mar tinha voz cava e tonitruante, uma voz que em dias daqueles era perfeitamente assustadora. Mas ao mesmo tempo, havia naquele espectáculo um quê de bonito, ou pelo menos de fascinante: o mar vinha embater na areia, recolhia-se a seguir, mas voltava sempre. Não era como as pessoas, que depois de embaterem umas nas outras fugiam, desapareciam. Ela não saberia dizer se o mar estava zangado, se aquela voz que fazia tanto barulho, o faria por fúria; afinal as fúrias são coisas passageiras, fogo-fátuo na poeira dos dias, ela já o sabia. O mar parecia-lhe hoje assustador, é certo, mas aquele barulho todo era demasiado cadenciado para ser uma fúria, dessas que embatem, magoam, mas passam.

O mar voltava sempre, nunca desistia. Embatia na areia com audível violência, mas fazia-o naquele jeito meneado, quase como se não estivessem ambos, mar e areia, a discutir. Agora que pensava nisso, era quase que uma dança; o mar e a areia embatiam um no outro como se dançassem juntos, quase que podia ver a areia a desvanecer-se na água salgada em pequenos pontos de luz, como se na realidade fosse composta de estrelas. Sorriu perante tão estranho pensamento: como podiam aquelas discussões ser dança tão bonita, o movimento a fazer-se som tão compassado no meio daquele ruído atroador, se todas as discussões não eram mais que batalhas duma guerra de que ela não conhecia o nome?

Ela gostava de dar de comer ao mar. Atirava-lhe pequenos punhados de areia que segurava nas suas mãos pequeninas, sempre à espera que esta se desfizesse em estrelas na água fria que lhe vinha molhar os pés. Era o que estava a fazer naquele momento, era o que fazia sempre que queria mitigar a tristeza. Aquele mar de voz cava vinha lavar-lhe as tristezas, o vento a assobiar-lhe nos ouvidos e a prender-lhe na pele a maresia ao mesmo tempo que lhe levava para longe a melancolia.

Naquele momento ela já não era só uma menina triste; frente a frente com a vastidão do oceano que se estendia pela linha costeira (precisamente a partir daquele ponto, poder-se-ia dizer), ela era o mundo todo preso na contraluz que o Sol espelhava no mar frio.  

Ouviu a mãe chamar-lhe o nome; as vogais abertas ligeiramente em demasia denunciavam-lhe a premência da preocupação. “Estás demasiado perto! Olha que a corrente é muito forte!”, escorria-lhe devagarinho o medo pela voz, ela ouvia-o tão distintamente como conseguia ouvir os gritos das gaivotas à espera do entardecer. Pensou em como era estúpida aquela mania dos adultos de esconder o medo às crianças; eles não se apercebem, afinal fazem por o tentar mascarar, mas as palavras que não dizem falam tão alto como as que ensaiam tão esmeradamente. A mãe bem podia dizer-lhe “Não te abeires tanto do mar porque tu não o consegues ver e isso é perigoso” em vez daquelas advertências polidas e ensaiadas; ela sabia que era esse o grande medo.

O grande medo, que era da mãe e era do pai mas não era dela, era que ela não pudesse ver o perigo a chegar. Era isso que sempre lhes escorria pelas palavras ensaiadas com amor; era isso que lhes denunciava a absurdez do exercício a que se dedicavam. Como se ela pudesse algum dia esquecer! Ela só gostava de lhes poder explicar que o mundo dela não era como eles o acreditavam; seguramente imaginavam dias sem luz, o escuro e o vazio permanentes, só isso explicava o porquê de viverem com tanto medo. O escuro que rouba as formas e os contornos das coisas sempre foi o grande inimigo, acaso não terá sido por isso que os homens inventaram o fogo?

Mas os dias dela não eram escuros e vazios, eram claros, eram luminosos; aqueles olhos que não viam captavam todas as subtis flutuações da luz, viam-lhe as cores até, viam-lhe cheiros e sabores. E claro, as formas que os olhos dela não viam desenhavam-nas os sons: aí tudo se conjugava de forma loquaz e proporcional, não havia que enganar.

Ali, por exemplo: não tinha como conseguir provar à mãe que escutando atentamente a voz cava do mar a rebentar na areia, conseguia aferir com espantosa precisão o quão perto se encontrava, ou com que intensidade lhe viria lavar as tristezas dos pés. Já há muito tempo tinha desistido de tentar provar à mãe e ao pai aquilo que conseguia ver sem olhar; agora dedicava-se apenas a provar-lhes que não tinha medo.   

O pai e a mãe tinham discutido mais uma vez, era por isso que buscava aquele conforto nos punhados de areia que atirava ao mar. Ela gostava de se lembrar melhor de como as coisas se tinham desenrolado daquela forma, mas era tudo tão confuso na cabeça dela de criança, não conseguia. As discussões da mãe e do pai começavam sempre de forma muito silenciosa, normalmente com algo que um deles calava em resposta ao outro. Ela conseguia ver com nitidez o silêncio que se adensava ali mesmo, na sala de estar da casa onde moravam, ia-se avolumando até embater nas paredes e começar a escorrer, líquido, entrava-lhe pelos ossos dentro como um frio que a contaminava de um mal sem nome.

Ali, no meio dos gritos cada vez mais estridentes das gaivotas que se iam juntando à espera ela não sabe do quê em concreto, só se lembra dos gritos sibilados da mãe, a cortar o silêncio da casa como facas. O pai e a mãe procuravam não discutir à frente dela; normalmente, esperavam que ela estivesse a dormir até decidirem dissipar o silêncio escorrido pelas paredes com aqueles gritos sussurrados. No aconchego da cama, ela não conseguia ouvir com nitidez o que diziam, e não conseguia por isso perceber porque discutiam. Mas não precisava: o motivo era sempre ela.

Não deixava de ser curioso que ambos a pudessem olhar e no entanto nenhum deles a conseguisse ver: tomavam-na certamente por parva, se acreditavam que ela não percebia no silêncio ostensivo que dirigiam um ao outro durante o dia, a aversão que iam acumulando, o ressentimento que lhes pesava no peito.

Nesses momentos ela ficava muito triste; era impossível travar aquela ideia feia que lhe invadia o pensamento. Ela tentava com todas as suas forças, mas nunca conseguia resistir muito tempo. Ela era o motivo daquele ressentimento que pesava no peito da mãe e do pai; sabia que não lhe era dirigido, nunca poderia ser, sabia que eles gostavam mais dela do que de qualquer outra pessoa no mundo. Como poderiam alguma vez ressentir a menina dos olhos deles, a luz que lhes iluminava os dias curtidos por tragédias aborrecidas? Em vez disso, ressentiam-se um com o outro, esgrimindo críticas subliminares e recriminações rotineiras à medida que navegavam os dias. Quando o pai e a mãe a julgavam adormecida, ela ficava ali no aconchego da cama a fechar os olhos com muita, muita força, tanta que a transportasse de novo para os pequenos pontos de luz da areia a desvanecer-se na água salgada do mar. Ela não os podia ver, é claro, mas certo dia tinha desejado com tanta, tanta força consegui-lo que tinha mergulhado de cabeça, durante tanto tempo quanto foi preciso até conseguir ver o relampejar de centenas de estrelas na claridade que os olhos dela viam debaixo da água do mar.

Foi nesse dia que o grande medo entrou dentro do corpo da mãe e do pai, infiltrou-se muito rápido a deslizar-lhes pelas veias todas. O pai correu a tirá-la da água, a mãe gritava mais que as gaivotas todas juntas; ela ali de olhos abertos sem ver nada, o rosto inerte na respiração que não vinha. A mãe gritava desalmada, o pai apertava e sacudia o pequeno corpo dela, a respiração que nunca mais vinha. Até que veio o escuro; fechou os olhos e saiu-lhe água salgada pela boca e a respiração finalmente veio sacudir-lhe o corpo de golfada.

O pai e a mãe agarrados a ela a chorar, “pensei que te perdia”, prenderam-na num abraço tão desesperado que ela acha que nunca mais vai conseguir de lá sair.

Mas hoje a mesma água salgada devolvia-lhe a serenidade daquele momento em que descobriu que as estrelas são afinal grãos de areia a desvanecer-se muito rápido na água do mar. Ouviu novamente a voz da mãe, e pensou no quanto gostaria de lhe entrar para dentro do corpo, para saber o que era deslizar rápida numa veia dessas das que lhe transportava o medo pelo corpo todo de forma ininterrupta. Ela não tinha medo; o mundo dela era cheio de luz e ela via tudo quanto havia para ver. Conduziu o olhar para cima, para o céu, onde viu as nuvens que se aglomeravam através da forma como se agrupavam as tonalidades diferentes da luz, ou através da humidade impregnada no ar e do vento que lhe arrepiava a pele. Será que as nuvens eram as estações dos aviões? Só podia ser, para que raio serviriam mais aquelas grandes estruturas flutuantes e que às vezes produziam tanto barulho, senão para abastecer os aviões que cruzavam o mundo todos os dias?  

“Pareces-me um campo de flores, mamã”, ouviu-se dizer, já com a mãe a escorrer medo em todas as veias ali ao lado dela. Sem ser capaz de os olhar, viu na forma como subtilmente se alterou a respiração dela, os olhos da mãe alagarem-se em lágrimas. Ela sorria quando lhe segurou o rosto entre as mãos frias e lhe agradeceu, “que coisa tão bonita de se dizer a alguém, meu amor”. A mãe só não conseguia ver que aquele campo de flores que ela via era um campo de flores mortas, secas e mirradas pela violência do medo.

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