O Natal dos capitais.

Não sei se influenciada pela breve passagem da jovem Greta por Portugal, se pelo circo montado na nossa Assembleia da República ou se pela antecipação duma futura recessão, o meu Natal está um pouco menos festivo este ano. Veste as mesmas cores e iluminam-no as mesmas luzes, mas não consigo evitar alguma consternação pelo que venho observando em meu redor.

Quantos de nós nos vemos forçados a trabalhar quase até à hora da depauperada ceia? Ou os que (felizardos!) não têm empregos tão “exigentes”, se vêem na necessidade de agradecer tamanha gentileza cumprindo deadlines irrealistas nos dias que antecedem a Véspera de Natal? Sobra pouco tempo para pensar em presentes para os que mais amamos: vai tudo corrido ou a peças de roupa todas iguais umas às outras, fabricadas em quantidades industriais com recurso a trabalho de braços em condições cada vez mais desumanas, ou corridos a bugigangas várias em que a matéria-prima é consistentemente o plástico. Somos (estamos?) tão preocupados com estado calamitoso a que chegou o nosso planeta, mas deve ser só quando a Greta aparece nas notícias mesmo, porque agora é Natal e não nos sobra tempo na conta bancária para dispensar à procura de um presente que não vá um dia acabar nos oceanos.

Quantos de nós já nem cozinhamos, as refeições ou os doces variados (aqueles que preenchem fotos bonitas com que ilustramos os nossos votos replicados até à exaustão), naquele espírito de partilha e carinho que unia as famílias nem que fosse uma vez por ano? Não, agora a época festiva celebra-se ou em hotéis e restaurantes com menus bem glamorosos, ou com as refeições encomendadas para casa, consoante a carteira de cada um.

Não, agora na nossa terrível solidão gastamos os dias que antecedem o Natal (e às vezes o dia do próprio acontecimento, ó tão funesto nascimento!) à procura de calor humano enfiados em shoppings, sem nos apercebermos do quanto nos roubam a humanidade que já pouco sobra em nós, a cada beep bem sonoro do leitor magnético do cartão.

E se levarmos mais longe este exame de consciência, quantos de nós já não sabem o que é estar em família, na mais genuína acepção da palavra? Quantas são as que já se desintegraram numa luta cada vez mais feroz pela sobrevivência, graças a disputas que outrora não apartariam ninguém? Depois de um ano inteiro passado a esgotar o tempo em tudo menos nos que amamos, o que havia de ser diferente no Natal, afinal? Transformamos a generosidade em meras checklists (mas que cumprimos com diligência e zelo!), lavamos a consciência em campanhas de suposta solidariedade (salve-nos o Banco Alimentar, senão como limparíamos esta alma tão boa, tão cristã?).

Dirão talvez, que esta minha visão do Natal é negra, demasiado pessimista, não terá razão de ser. Talvez o seja, mas talvez esta sociedade do consumo em que vivemos e que tantos males nos tem trazido não permita, de facto, leituras menos alarmistas. Digam-me quem, desse lado, vê os grandes benefícios ecológicos do “capitalismo verde”, ou vê um mundo do trabalho equitativo, justo e humanista, ou vê ainda uma real distribuição da riqueza?

Num mundo assim, talvez fosse possível olhar o Natal com candura e benevolência; naquele em que vivemos, o capital fala mais alto e o consumismo é o oxigénio que nos move a todos num mundo cada vez mais irrespirável.

Não chega, no entanto, pintar o quadro (negro ou verde, como o preferirem olhar); urge apontar caminhos, inspirar a mudança. Não me arrogo de ser mais iluminada do que tantos que já há tanto tempo empreendem esforços para o fazer; limito-me assim a reproduzir o que me parece ser de elementar humanismo. Neste Natal, porque não procurar não produzir mais lixo (desenvolvido com recursos às mesmas injustiças e atrocidades de sempre, tão antigas como o mundo)? Reutilizar artigos que se acumulam pela casa nunca usados (quem nunca, na voragem deste capitalismo desenfreado?), ou até criando os nossos próprios presentes (para aqueles entre nós mais prendados) oferecendo o tempo e a dedicação que traduzem o genuíno amor e a mais sentida generosidade, pode bem ser a receita para um Natal menos frívolo e renovador.

É meu desejo sincero que as festividades (e novo ano que agora se desenha em tantas colectâneas de momentos fúteis das redes sociais) tragam uma forma renovada de olhar o mundo: mais desperta, mais crítica, mais exigente. Eu já ando em busca da minha (mas na Primark estava esgotada).

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