eles tinham medo de voltar a casa

Tinham saído há precisamente 13 dias. Tendencialmente, deixavam-se acordar ou pela luz ou pelo calor a fazerem-se ambos insuportáveis, e punham-se a caminho já as manhãs iam avançadas. Nunca tinham grande fome à hora de almoço; aliás, se formos a pensar, o que é isso da hora de almoço? Chega a ser prepotente esse péssimo hábito de imputar uma função às horas dos dias, como se aquelas em particular estivessem subjugadas apenas a esse propósito de servir a fome e não pudessem ser usadas para mais nada. Eles preferiam a beligerância de fazer só aquilo que lhes apetecesse, comer quando o corpo assim o pedisse.

Nos primeiros dias, resquícios desse péssimo hábito (como doutros) ainda se empilhavam dentro das malas que transportavam de um sítio para o outro, quase como que grudados à pele pela transferência dos tecidos; foram-se perdendo no caminho, caídos pelos cantos de cada quarto de hotel. Foram despindo os agasalhos da rotina como quem despe camisolas e casacos numa noite quente de Verão, até já só sobrarem eles.  

Aquela não fora uma viagem planeada; tinha simplesmente acontecido, num dia sem importância duma semana qualquer. Ele tinha chegado a casa do trabalho, cansado como habitual; mas naquele dia não se tinha descalçado, deixando as sapatilhas espalhadas pelo hall de entrada enquanto abria uma garrafa de branco e fumava um cigarro à varanda; nem ela, chegada também a casa derreada pela jorna rematada, se tinha apressado a trocar de roupa, substituindo as calças que se apertavam em redor da sua cintura fina pelas calças lassas e coçadas do pijama. Naquele dia ele sentou-se como estava na poltrona escura de pele; ela fez o mesmo no sofá grande da sala.

Traziam o rosto estanque num olhar desolado: à sua volta só viam destroços. De quê, não saberiam dizer ao certo. Promessas de uma vida que se queria mais propositada, talvez?, mas em vez disso erodida pela intempérie da rotina oca que os consumia a ambos, seria disso? Não importava.

Na reclusão que se impunham àquela hora do dia, sem esboçar um gesto que fosse, não eram mais que dois sobreviventes duma guerra sem nome que se disputava a céu aberto, parte duma horda de soldados que marchavam inexoravelmente pela rotina dos dias sem se reconhecerem uns aos outros. Mas eles não: eles viam-se exactamente o que eram e era precisamente esse reconhecimento mútuo o que os unia na distância que separava os dois prédios.

Ela era alta e de tez escura, a pele cor do mogno velho e os olhos duas azeitonas muito negras a refulgir na luz difusa do anoitecer. Locomovia-se com agilidade num corpo esguio e de porte altivo. Do outro lado da estrada, ele adivinhava que ela teria sido bailarina em tempos idos; denunciava-a o busto elegante, encimado por aquele pescoço alto de garça, assim como as mãos delicadas que se pareciam mover sempre extraordinariamente devagar.

 Já ele, via no reflexo que o espelho lhe devolvia todas as manhãs um estranho, alguém que deixara de reconhecer à medida que a rotina lhe fora transformando a figura: magro, agora quase esquálido, mas de costas largas, um estranho que trazia a pele tisnada e o cabelo muito ruivo despenteado em caracóis que lhe caíam sobre uns olhos mortiços e de pálpebras levemente descaídas.

Naquele dia, naquele momento em que ele se rendia à desolação daquela vida empatada, (e ela também havia de estar rendida, ele sabia, eram feitos da mesma matéria e não havia estrada que pudesse mascarar isso), buscaram-se um ao outro, como há tantos meses tinham vindo a fazer: ele na poltrona escura de pele a observá-la através das portadas abertas da varanda, para a encontrar do outro lado da estrada, no sofá grande da sala relanceando a janela. Reconhecendo no rosto dela a existência devastada que ele mesmo carregava, conseguiu ler-lhe nos lábios: “e se nos fôssemos embora”?

Podia ser que ela não tivesse dito nada. Ele podia ter apenas imaginado aquelas palavras nos lábios dela. Mas o atordoamento que o atingiu e o fez debruçar-se na varanda, com essa certeza firmada na boca, revelou nos olhos dela aquela vontade: ela tinha-o dito sim. Abandonar tudo aquilo era uma ideia tentadora; afinal o que os prendia ali? Absolutamente nada.

Ele preenchia os dias com um emprego aborrecido numa empresa de telecomunicações; num open space amplo e invulgarmente soalheiro, partilhava um cubículo com mais umas poucas dezenas de outros como ele, desfilando os dias intermináveis em jornadas de um pretenso trabalho que mais não era que uma sucessão aparentemente infindável de coisa nenhuma. Não fazia nada, era a verdade. A sua produção resumia-se aos muitos relatórios e tabelas e gráficos a tentar racionalizar os muitos números irracionais. Não exigia mestria, nem sequer muita atenção; uma máquina fá-lo-ia melhor. Mas nestes dias importa mais produzir do que propriamente ser produtivo; só aos indigentes lhes é dada a liberdade de se furtarem a esse dever.  

Naquele dia tão idêntico a todos os outros que o precederam, levantaram-se ambos, num gesto de mútuo reconhecimento do quão ocas eram as vidas que levavam, e começaram a recolher algumas mudas de roupa, livros que se espalhavam esquecidos pelas superfícies das mesas e das prateleiras; enfiaram toalhas e algumas provisões numa mala grande cada um, ai que ela quase se esquecia da máquina fotográfica analógica que nunca tinha chegado a usar e dos discos que lhes preenchessem a viagem, e passadas duas horas saíram de casa, ainda sem jantar.

O carro dele tinha cerca de um terço do depósito cheio. Puseram-se assim mesmo a caminho; de onde, não sabiam. Encaminhavam-se, simplesmente, afinal não era preciso existir um destino para existir um caminho. Aquele desenhava-se para cima, apontando um Norte numa bússola que se tinha rompido pela força da imobilidade.

Já fomos todos nómadas, lembram-se?, parecemos ter esquecido isso em milhares de anos de evolução, mas o corpo nunca esquece; no corpo carregamos o passado quer ele se veja ou não, a história do que fomos atravessando o tempo e as civilizações, e os deles buscavam um Norte olvidado no deserto dos dias sempre iguais.

Passado pouco tempo de viagem, embalados pela música suave de Chet Baker que ela tivera o cuidado de trazer, nem deram pela fome chegar; mas ela rugia, indisfarçável. Decidiram sair na cidade ali mais próxima, que se revelou um lugarejo aparentemente pouco habitado, onde o tempo parecia outro. Habituados que estavam ao bulício da grande cidade, viram ali o tempo materializar-se, quase poeira que se pudesse agarrar com as mãos. Os relógios marcariam como duas horas o tempo que ali passaram, mas na verdade ali o perderam no caminho sem destino nenhum ao encontro de um Norte perdido, finalmente liberto das grilhetas dos relógios.  

Os dias passavam-se assim, sem tempo encarcerado em relógios dos que impõem funções às horas, e eles em relativa euforia; longe de casa, a cada dia mais distantes daquilo que os amarrava às suas existências medíocres, os contornos da rotina que alimentaram durante tanto tempo iam-se esbatendo a ponto de a tornarem indistinguível. Queriam saber mais um sobre o outro; uma estrada pode ser fronteira muralhada entre dois mundos aparentemente semelhantes.  

Ele ficou a saber que ela não conseguia segurar um emprego mais que um ano e meio, enredada na selva dos estágios profissionais, dos recibos verdes e dos períodos experimentais. Já tinha feito de tudo: empregada de mesa em restaurantes e padarias, recepcionista em escritórios de advogados, museus e galerias, eram incontáveis os balcões que já tinha defendido. Não são mais que trincheiras, esses balcões, trincheiras daquela nova guerra que ninguém pareca reconhecer, trincheiras onde ela vinha nutrindo toda uma carreira em sobrevivência: dessas que não permitem baixas médicas ou dias de férias, das que não perspectivam salários crescentemente confortáveis, escalões ou reformas.

Agora tinha-se deixado ficar por um emprego como assistente de sala numa casa de espectáculos, um grande teatro insuflado de egos e burocracias. (sim, porque os teatros hoje também não são mais que repositórios dos muitos egos que se empilham uns por cima dos outros: dos que lá moram e fazem vida, a competir entre si pelas mais absolutas vacuidades, e dos que entram e saem conforme manda a agenda, habituados a ver o palco como se jogo de espelhos se tratasse.)

Era uma espécie de porteira, sim, mas com claros benefícios: adorava música e assim acabava por ouvir muitos concertos sem que para isso tivesse de desembolsar um cêntimo. Não percebia nada de Música, dessa com éme maiúsculo, que nunca tinha estudado ou procurado compreender, mas sabia do que não gostava e isso chegava. Devorava tudo o que lhe aparecia à frente, numa fome que lhe vinha de um sítio de origem desconhecida, cuspindo aquilo que lhe sabia mal. Ouvia como quem se alimenta, tendo como critério único saciar aquela fome pelo indizível que não saberia descrever.

Não tinham dado qualquer aviso no trabalho; as chamadas frenéticas foram sendo substituídas por emails de tom oficial que permaneciam por abrir na caixa de correio. Nenhum dos dois estava preocupado com as consequências; conheciam-nas, claro, mas eram tantos os quilómetros que as separavam deles que pareciam nem existir.

Nunca ficavam mais do que uma noite na mesma cidade; viam os rostos sempre diferentes a sucederem-se um após o outro e as pessoas pareciam-lhes cada vez mais iguais, sempre o mesmo caminhar apressado de um sítio para outro. Depois de alguns dias dedicados a ver como a vida acontecia, já conseguiam perceber com clareza quais eram os passos trilhados atrás duma meta circunspectamente definida e quais os que, como eles, não almejavam destino.  

À medida que trilhavam aquele trajecto rumo a parte nenhuma, fugindo do tempo agrilhoado dentro dos relógios, da urgência em produzir instigada pela culpa tão profundamente condicionada, e da guerrilha dos dias desperdiçados e empilhados uns em cima dos outros, parecia-lhes cada vez mais perto o que buscavam. Permanecia inominável, inclassificável, mas a cada dia mais tangível. Encontravam-no à medida que se iam descobrindo, conquistando no corpo um do outro uma nova trincheira que desconheciam possível.

A cama deles era todos os dias diferente, mas todos os dias feita da mesma matéria. Deitavam-se juntos e o corpo dela era um campo de lavanda perfumada – na luz que ali se derramava, nos cheiros subtis que ele ia buscar-lhe às diferentes arestas que a desenhavam –, onde ele adormecia vencido pela exaustão. Ele não tinha como refrear aquela compulsão – que afinal, era exactamente disso que se tratava – que o levava a ela. Existia naquilo uma espécie de veneração, e o seu templo eram as camas que iam encontrando, todos os dias diferentes, e o seu altar era ela, o seu corpo tórrido onde ele ia morrer todas as noites um bocadinho.

ph | Valeriia Kogan for Unsplash

Aquela pele escura e morena, que cheirava a lavanda sem que ele conseguisse perceber porquê, provocava nele um estado de sofreguidão que não tinha como apaziguar a não ser mergulhando no corpo dela; começava pelos vértices que não carregava, a cova atrás dos joelhos, a curvatura dos ombros largos de bailarina, os pés magoados mas sustentados pelas pernas fortes, onde a pele lisa dela reluzia à luz tímida que lhes ia entrando pelas janelas. Os quartos que iam arranjando, invariavelmente pequenos e modestos, faziam-se ali muito maiores, onde cabiam eles e o mundo todo que carregavam.

Ele recordava os momentos em que, chegado a casa, se dedicava a espiar aquela vida que o olhava do outro lado da rua. Mimetizando o fascínio exercido pelas redes sociais nos outros, ao menos o dele era real: a vida dela, ali tão perto do outro lado da estrada, desvendada em frames reais e nunca estáticos, era fascinante na sua óbvia banalidade.

Via o que comia – refeições que ela própria cozinhava, mas sempre rápidas -, sentada em frente ao televisor, via a estante povoada de livros que àquela distância não conseguia diferenciar e que ela tão raras vezes visitava, via como adormecia frequentemente de cansaço já a noite ia longa, ainda em frente ao televisor, e como se arrastava titubeantemente até à cama para finalmente se render.

Agora não havia mais que espiar; ela adormecia todas as noites ao seu lado, o suave aroma da lavanda a impregnar os lençóis que deixavam para trás na manhã seguinte.

Tinham saído precisamente há 13 dias, e nestes últimos, vinham sentindo ambos a agudizar duma urgência que não sabiam racionalizar. Como se o tempo, por força de correr solto da prisão dos relógios, estivesse na iminência de se esgotar. E eles ainda sem achar o destino, a meta para aquela viagem insuspeita, o Norte finalmente!, onde encontrariam o que lhes faltava quando há quase 2 semanas tinham saído cada um de sua casa sem jantar.

O regresso parecia inescapável: os depósitos do carro sucediam-se ao mesmo ritmo que se ia esgotando o dinheiro que lhes suportava aquele devaneio; as malas a guardar mais roupa suja do que limpa; os CDs que já não suportavam ouvir pela vigésima vez. Tudo lhes gritava que tinham de voltar; ao mesmo tempo, um medo quase catártico impelia-lhes aquela busca estranha por um destino que custava em chegar. Talvez o mais difícil seja isso: não a viagem, não o trajecto, mas achar o destino. É relativamente fácil encontrar as pequenas metas do quotidiano: a casa-de-banho ao acordar, a porta do frigorífico, o metro ou o autocarro para o emprego, a porta de entrada do trabalho, a fila da caixa do supermercado, e de novo a porta do prédio.

Quando não sabemos o que nos falta, torna-se bem mais difícil encontrar a meta nesse caminho. Pode até dar-se o caso de a encontrarmos e o deixarmos passar; poderia ter sido isso, será que haviam passado o destino final daquela viagem e não tinham dado conta?

Na noite do 13º dia daquela estranha viagem, já depois terem molhado juntos, com o suor daqueles corpos amando-se em desespero desenfreado, os lençóis invulgarmente frescos daquele novo quarto de hotel, ele percebeu que teriam de voltar. Não fazia sentido continuar à procura de algo que nenhum deles sabia o que era, não tinham mais forma de continuar. Os empregos certamente já não estariam à espera deles (embora ele acalentasse a vã esperança de conseguir retornar, desde que estivesse disposto a encenar actos de contrição suficientes perante o chefe de secção), mas tudo o resto sim: a caixa de correio entupida de contas por pagar, a comida a ganhar bolor dentro do frigorífico, as plantas a secar debaixo do sol tórrido que se fazia sentir.

“Amanhã temos de descer; temos de regressar”, ouviu-se dizer, enquanto desenhava pequenos círculos na barriga lisa e escura dela, a luz do luar a desenhar-lhe sombras no corpo que faziam lembrar um expressionismo já ultrapassado, quase que transfigurando aquela tão bonita figura dela. Ela já o sabia antes dele o dizer, por isso não o tentou refutar. Aceitou aquelas palavras como se fossem sentença do destino que não tinham encontrado, e adormeceram abraçados enquanto o luar lhes atravessava o quarto.

Podiam ter feito a viagem de regresso de forma mais estendida no tempo, com a calma de quem procura não deixar fugir uma recordação de que se gosta muito. Mas ambos sabiam que não valia a pena: o tempo, uma vez aprisionado dentro das funções que lhe impõem os relógios, encarrega-se de obliterar qualquer indício de dissidência.

Chegaram ao bulício da cidade sem quaisquer preâmbulos, e sem nostalgia. A viagem rumo ao Norte ficara para trás sem lágrimas, sem divergências, ambos conformados com o que sabiam ser inescapável. Ele estacionou e ela saiu, entrando no prédio sem lhe querer dar sequer um adeus; para trás ficou um casaco esquecido, a cheirar a lavanda, que ele levou consigo para a poltrona escura de pele. Abriu uma garrafa de vinho branco e fumou um cigarro enquanto mirava a varanda: ela já lá estava com as calças lassas e coçadas do pijama, sentada no sofá branco da sala.

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