Bitch better have my money.

Descobrir que o Chega está infestado de neonazis, que o racismo estrutural de Portugal está incrustado nas forças policiais e a aparição do #LuandaLeaks produziu na comunicação social um caleidoscópio alucinante que tem desviado a atenção da opinião pública de um facto que se me afigura como especialmente preocupante: está a ser discutido o Orçamento de Estado para 2020. Termina esta 2ª feira a discussão na especialidade exactamente da forma como começou: com a audição do Ministro das Finanças. Já se tinham dado conta?

Acredito que não seja propriamente fácil acompanhar os trabalhos parlamentares: afinal, o relevo parece recair nos confrontos politico-partidários, em que o estandarte frequentemente hasteado é uma qualquer pureza ideológica que tem empatado toda a discussão política (proveniente, claro está, duma direita desnorteada, sem propostas que ofereçam reais soluções para as pessoas). Eu tenho feito um esforço para contrariar a tendência, sobretudo porque ainda não me passou o ultraje que senti quando percebi que temos em cima da mesa o primeiro OE desde o 25 de Abril a prever um excedente orçamental.

Nada contra termos dinheiro de sobra, atentem; mas alguém sabe quanto dinheiro tem Portugal, quanto precisa para resolver os seus principais problemas, antes de saber se nos podemos dar ao luxo de o termos de sobra? Numa altura em que se fala de orçamento de estado, fala-se de dinheiro: do que estamos a investir, do que estamos a gastar, do que estamos a taxar. Mas pouco se fala do que estamos a perder. Perdemos bem mais do que dinheiro a tentar ganhá-lo, e talvez por isso esta me pareça a mim uma boa altura para dissertar acerca do que é isso do dinheiro. Principalmente num país onde ainda se vive tão mal, em que aparentemente podemos ter excedente orçamental mas ainda nos falta dinheiro para tanta coisa.

O que é o dinheiro? Surgiu como necessidade emergente das trocas comerciais, que a partir do momento que passaram a englobar também serviços e não só bens, passaram a exigir outra forma de retorno que não as trocas directas, tornando-as obsoletas. 

Muito depois disso, algures num determinado ponto da nossa evolução enquanto civilização, o dinheiro deixou de existir. Não que tenha perdido a sua dimensão material, mas à medida que se foi tornando cada vez mais virtual, o dinheiro foi-se transformando numa construção cada vez mais abstracta, capaz de determinar o preço de tudo mas sobejamente incapaz de traduzir o valor que conferimos ao que nos rodeia. O dinheiro sempre teve um carácter muito subjectivo: ele não é universal, igual em todo o lado, porque depende (e dependeu sempre) da relação emocional que com ele estabelecemos e porque hoje, à medida que instituímos a soberania dos mercados, permitimos que seja esta governança sem nome a ditar quanto é que ele vale. 

Se até há bem pouco tempo eram as reservas de ouro de cada nação a ditar o valor do dinheiro impresso, hoje sabemos que o dinheiro é cada vez menos real, menos concreto. Conformamo-nos com a aparência do dinheiro, mesmo que possa não existir nunca a sua real materialização. Só assim se explica que, resgate após resgate, continuemos a amparar a falência deste sistema financeiro comprovadamente fraudulento. Como é que aceitamos tão placidamente que 100.000€ poupados ao longo duma vida, a repousar décadas num banco “de confiança”, se revelem uma ilusão na hora de os reaver? Esses 100.000€ foram um dia reais, foram suados e até eventualmente palpáveis; para onde foram então, desapareceram como?

Desapareceram porque não passavam de números transacionáveis, essa é a verdade tão incómoda.

E da mesma maneira que vemos o nosso dinheiro a diminuir em dezenas de transacções de que só nos apercebemos através de um extracto bancário, também o dinheiro público parece só existir num qualquer plano virtual, em que a nossa governança mexe e remexe os números de maneira a investir mais aqui, refrear mais acolá, tratando milhões como quem trata trocos. Têm-se enumerado com eloquência os tantos milhões a mais que se vão investir: no SNS, na Acção Social, no combate às desigualdades e assimetrias territoriais, no estímulo à ferrovia e na implementação de um sem número de medidas ecológicas, até um observatório para o racismo, e eu fico contente. Mas não fico feliz, porque sei que são só números, que deixam de fora soluções estruturais para os problemas endémicos da sociedade de consumo a que pertencemos, porque sei que pilares como a Educação e a Cultura são exemplos especialmente idiomáticos dessa negligência.

Parece forte, talvez demais até, mas a verdade é que há muito deixamos de investir aquilo que realmente importa: não são os números retumbantes escudados em percentagens umas vezes mais favoráveis que outras, mas sim o que intendemos ser o modelo de sociedade em que queremos viver. E eu não quero viver nesta roda que gira em torno de números imaterializáveis, onde o dinheiro se esvai em em injecções para bancos já intervencionados, sobre o jugo de ministros que se dizem pouco preocupados, enquanto nessa roda vão enredando uma imprensa amorfa, ao mesmo tempo que se enaltecem excedentes orçamentais. Pior: nesta gigantesca roda cabe inclusivamente dinheiro ilícito, que se lava e se branqueia, em que se acumulam fortunas bilionárias enquanto nações inteiras sobrevivem em cuidados paliativos.

Quanto dinheiro tem Portugal então? Não sabemos, nem nós nem ninguém (ups, se calhar não era para dizer), porque ele não existe materializado em parte nenhuma. E nessa ambiguidade demarca-se uma dívida: a quem? Ao Mundo todo, parece, tanto que depois até essa dívida é transacionável. 

Agora em vias de concluir a discussão acerca do OE para 2020, lembremo-nos todos que o dinheiro não pode traduzir só o preço e o custo das coisas (muitas vezes incongruentes entre si); tem de traduzi também o valor que elas merecem na sociedade que queremos construir. E que viver uma vida digna e protegida não pode nunca ser um produto de mercado.

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