Racistas somos todos?

Nós não somos racistas, mas talvez Portugal o seja. Quero com isto dizer que os tempos recentes – com um destaque evidente para o caso de brutalidade policial contra Cláudia Simões e o facto de termos tido um deputado a sugerir “devolver” uma outra deputada para “a sua terra” – têm reforçado a noção de que vivemos num país estruturalmente racista. Há quem se revolte com isso, sugerindo que não será muito plausível admitir o crescimento das manifestações racistas, nem a institucionalização que as torna estruturais.

 Outros, mais inteligentes ou pelo menos mais sérios, sabem que o racismo não é um movimento novo na sociedade portuguesa, sempre existiu no foro privado e o único fenómeno tem sido a tenaz conquista de muito mais espaço mediático.

Hoje parece cada vez mais importante circunscrever o racismo, delimitando os seus contornos por exclusão. Racismo não é, por exemplo, não gostar de alguém por causa das suas características raciais e/ou étnicas. Compreender o racismo como um conjunto de más razões para não gostar de alguém, específico ou colectivo, é desde logo falhar o alvo: porque o racismo é, antes de tudo o mais, uma manifestação de poder desigual, na medida em que organiza a sociedade num modelo em que alguns, por causa dessas mesmas características, não têm nem devem ter os meus direitos e as mesmas garantias.  Racismo não é a simples manifestação de um preconceito: são práticas hierarquizadas e institucionalizadas que excluem pessoas com determinadas características.

Uma sociedade estruturalmente racista é aquela em que nunca uma mãe branca cuja filha se esqueceu do passe GRATUITO se veria insultada e agredida por um motorista de autocarro, ou sujeita à violência policial abjecta de que foi alvo Cláudia Simões, apenas e só por ser negra.

Racismo também não é uma opinião. Há muito quem, à falta de argumentos que lhes sustentem as ideias, goste de desculpar as suas próprias manifestações racistas com erros de interpretação, ideias que se formam e que pela força da repetição julgam conquistar uma admissibilidade que, reitero, não têm. Só assim se explica que pela primeira vez desde que sou viva (pelo menos) um deputado eleito se arrogue no direito de proferir um dos maiores chavões do racismo como argumento ironizado contra uma proposta de uma outra deputada (negra, claro). Aparentemente, as nossas instituições não estão preparadas para classificar uma assinalável e evidente ignomínia como uma manifestação racista passível de ser sancionada com severidade, desde que estas, por sua vez, se institucionalizem. Ou seja, desde que se veicule a ideia de que as mesmas correspondem não a um juízo sobre a pessoa, mas sobre as ideias: uma opinião, portanto.  

Só que racismo não conta como opinião, porque é um crime consagrado no nosso Código Penal. Foi isso que a AR em peso lamentavelmente pareceu esquecer na sua decisão de “não alimentar ainda mais a polémica”. Talvez porque o timing político não se compadece destas questões, talvez porque o clima de intimidação instigado na AR pelo autor de tal ignomínia conseguiu vencer aquela batalha; nunca saberemos.

Um dos esforços mais urgentes a empreender (mas também dos mais extenuantes) é desmontar a argumentação mais comummente usada por quem se dedica a disseminar a sua mensagem de ódio. Que é como quem diz, sujar as mãos na lama.

Em primeiro lugar, racismo invertido não existe. É um conceito inventado, não tem sustentação científica ou académica nem quem, num plano intelectualmente mais elevado, o defenda. É proveniente de onde, então? Eu respondo: dos cafés. A tese do anti-branco, revanchismo de um processo de descolonização traumático e ainda a gangrenar na nossa sociedade, sempre existiu e sempre foi ridicularizada. Só deixou de o ser a partir do momento que os nossos agentes políticos se apropriaram da mesma para conquistar eleitorado.

Pior ainda é assistir à vitimização que se escuda atrás da suposta “ditadura do politicamente correcto”. Este é aquele argumento utilizado para antagonizar os protagonistas da luta anti-racista, numa de duas maneiras: ou procurando veicular um ataque à pessoa como uma crítica às ideias (como temos assistido com frequência no caso da deputada Joacine Katar Moreira), ou tentando propagandear que essas ideias são elas mesmas a origem do racismo, por serem “radicais”.

Estas são aquelas pessoas que dizem que hoje tudo é racismo, inclusivamente críticas supostamente legítimas. Portanto ou são pessoas que não têm capacidade cognitiva/intelectual suficiente para distinguir uma crítica à conduta e/ou às ideias de um ataque à pessoa com cariz racista, ou então com desfaçatez e desonestidade suficientes para o fingir.

Como combater o racismo que se instalou nos próprios alicerces da nossa democracia, então (se nem as forças de segurança lhe são imunes)? Parece-me que um ponto fulcral seria começar a olhar o nosso passado com mais frontalidade. A forma como ensinamos nas escolas o foram os Descobrimentos e o que foi a nossa colonização é um exemplo disso mesmo. Ensinamos às criancinhas que fomos dos primeiros a abolir a escravatura, mas omitimo-la ao longo dos dois séculos inteiros em que a fonte do nosso poderio económico foi precisamente o comércio de escravos. Ensinamos esta e outras incongruências, um resquício da romantização da nossa História que nos ficou do Estado Novo, como há quem explique bem melhor que eu. Talvez esse fosse um bom ponto de partida.

Outro seria encarar esta vaga de ódio contra a imigração, que tem alicerces que não podemos ignorar. Estivessem as pessoas numa situação socioeconómica bem melhor, e a tal pandemia nunca se alastraria tão rápido que nem coronavírus. Mas convém lembrar, como alguém me dizia ainda esta semana, que na Europa os pretos somos nós. Somos nós, imigrantes em França, no Luxemburgo, na Bélgica, no Reino Unido, que somos insultados, pisados, ignorados e mandados de volta “para a nossa a terra”. Talvez isto ajude aquelas pessoas com este risível défice de empatia a perceber que o outro que insultam somos nós.

Por último, lamento se ofendo os mais tranquilos e os mais moderados, os que acreditam que não sendo racistas já estão a tornar o seu mundo, filtrado pelos vídeos de gatinhos fofos no FaceBook, um mundo melhor. No mundo real, cada vez mais polarizado, já não chega não ser racista; o anti-racismo enquanto foco de resistência radical pelos mais elementares valores de convivência em sociedade, assume-se como um imperativo ético para os que recusam ver o ódio grassar no terreno fértil da desinformação, da propaganda e do revisionismo histórico.

Quem tem raça são os cães, queridos racistas empedernidos, a quem tantos anos dentro do armário vos fez mais raivosos. Podemos ter características físicas que nos distinguem uns dos outros, consoante o nosso local ancestral de origem, mas distinguir não é, nem pode ser, separar. Suck it up.

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