uma criança, uma ilha

Ela espreitou pela entrada solarenga; aquele sítio tinha um ar acolhedor, tinha duas cadeiras de verga de aspecto confortável, com uma mesinha no meio a separá-las, mesmo à entrada. Parecia uma entrada muito estranha para um hotel; do sítio onde estava só via um corredor que levava ao que aparentava ser um pequeno pátio cheio de luz e de plantas dispostas em vasos. Havia muitas pessoas a passar pelo corredor estreito, falavam alto umas com as outras, mas ela não conseguia perceber o que diziam.

Agarrada ao Bolacha, o grande panda de pelúcia que andava com ela para todo o lado, começava a sentir a mochila pesar-lhe nas costas, e decidiu-se a entrar; aproveitou que tinha parado ali um pequeno grupo de raparigas barulhentas, e avançou, lesta. Não olhou para cima, por isso não viu como olhavam para ela com estranheza, mas uma estranheza desinteressada, ainda assim. Ela não gostava muito de raparigas, sempre em bando como gralhas estridentes; tinha decidido há muito tempo que nunca se iria transformar naquilo, mais ou menos na mesma altura em que tinha decidido que não precisava de ninguém que tomasse conta dela.

Cruzou apressadamente o corredor estreito, alcançando o pátio que era, afinal, pequeno. Ali dentro, ouvia-se uma música barulhenta, que misturava ainda mais as palavras estranhas perdidas pelos corredores dispostos verticalmente acima dela. Olhou para cima e distinguiu 4 andares cheios de portas, que desenhavam um grande paralelepípedo.

Aquele pátio era distintamente um lugar de passagem, como também o era a recepção do centro de acolhimento de onde tinha fugido há duas semanas atrás: apesar do ar confortável, as pessoas pareciam não estar confortáveis o suficiente para ficar. Dir-se-ia que o próprio ar era transitório, como se não fosse realmente um sítio mas antes um momento, sempre antes ou depois de outra coisa qualquer. Teriam de existir algures umas escadas, e decidiu procurá-las com o Bolacha.

Foi fácil encontrá-las, estavam mesmo à entrada (como é que nem sequer as tinha visto?); eram de metal e faziam muito barulho quando se andava em cima delas. O único problema é que afinal aquele hotel esquisito tinha uma recepção: dentro de um cubículo mesmo voltado para as escadas, estava um balcão minúsculo, com duas raparigas de unhas muito coloridas a conversar atrás dele. Para chegar às escadas, tinha de passar obrigatoriamente por ali, e sabia que não podia contar com a discrição do Bolacha.

Num relance rápido, percebeu que a geometria do lugar ajudaria a recortar a visão das gralhas na recepção, e arriscou. Avançou, incentivando o Bolacha a fazer o mesmo (que ele tinha o péssimo hábito de se deixar ficar, se não tivesse cuidado e o vigiasse, facilmente ele acabaria perdido e sozinho), muito perto da parede; não conseguia, dali, ver as raparigas na recepção, por isso certamente que elas também não a veriam a ela. Quando alcançou as escadas de metal, deteve-se para ganhar balanço; respirou fundo e em seis passadas ligeiras conseguiu passar à frente da porta e alcançar as escadas.

Talvez por ser ainda muito leve, mesmo que carregada com a mochila e o Bolacha, não lhe pareceu que fizesse barulho algum. Cruzou-se com algumas pessoas, mas já sabia como proceder perante a estranheza que invariavelmente provocava: não olhava para ninguém, cara inexpressiva e olhos em frente.

Vinha descobrindo que quanto mais pessoas partilhassem um mesmo espaço, menos pareciam reparar umas nas outras. A presença de uma criança desacompanhada, pequena como ela era, provocava um certo desconforto imediato nas pessoas com quem se cruzava, quase como se ela carregasse para todo o lado também a falta de alguém. Ainda assim, mesmo perante tão óbvia lacuna, vinha descobrindo que rapidamente as pessoas ultrapassavam esse desconforto, distraídas como traças pela luz pelos constantes estímulos que as rodeavam.

Atingiu o primeiro patamar, olhou para cima e vislumbrou o que lhe pareceu ser um terraço, também ele cheio de plantas dispostas em vasos, e que ocupava todo o correr daquela estranha estrutura, e continuou a subir. Alcançou o terraço finalmente, cansada pelo esforço de ser tão invisível quanto inaudível. Estava praticamente vazio, com um balcão sem ninguém que o ocupasse, apenas duas mesas ocupadas: uma por um homem que olhava fixo um ecrã de um telemóvel e outra por uma mulher muito jovem que lia um livro. Ela escolheu o ponto mais distante, resguardado atrás duma daquelas grandes plantas em vasos que preenchiam o espaço, e aninhou-se finalmente numa poltrona confortável. Estava cansada e com alguma fome, já não dormia nem comia desde que se tinha posto a caminho de manhã cedo (sempre antes de começar o circuito de limpezas). Tirou uma manta que trazia na mochila e um dos muitos pacotes de bolachas que lá trazia, que se entreteu a comer bem escondida debaixo daquela manta já meio surrada. 

Desde que tinha fugido do centro que dormia sempre em sobressalto e isso cansava muito; nunca sabia quando a iam surpreender a meio do sono, como também nunca sabia quando ia conseguir fazer a próxima refeição, e isso cansava muito. Ainda assim, não cansava tanto como estar no centro, onde os gritos das outras crianças a reclamar por mais espaço que não havia ou por atenção que não tinham a ensurdecia. Até o pobre Bolacha se vira em apuros: certa vez ela tinha-se distraído e ele, como sempre, deixara-se ficar pasmado a ver aquelas crianças todas; quando finalmente dera pela falta dele e correra a recuperá-lo, o pobre Bolacha quase tinha acabado desmembrado, enquanto outras 3 crianças o disputavam sem fazer caso do pânico que lhe emudecia os gritos e que só ela parecia ouvir.  

O Bolacha não era idiota, só não se sabia desenvencilhar muito bem sozinho; desde pequeno que sempre a tivera a ela para tomar conta dele, alguém que se preocupasse em alimentá-lo e em assegurar-se de que dormia quentinho, alguém que lhe ouvia os queixumes sem se zangar e que nunca o deixava sozinho. Ali, bem agarrados debaixo da manta que os protegia da noite que ameaçava cair, ela recordava de como ele a tinha protegido a ela também, tanto no dia da grande fatalidade como nos dias que se seguiram no centro (tão cheio de crianças, de barulho, de choro e de gritos). Sentiu o sono a chegar e concedeu finalmente vitória à exaustão.

A noite aninhou-se ali com ela, a embalar-lhe o abandono como que num casulo, em que só o Bolacha lhe quebrava a solidão, enquanto a enlaçava num abraço tão sentido que ela conseguia até sentir a sua respiração.

Despertou-a o silêncio, bastante tempo depois. Quando finalmente fizeram calar aquela música barulhenta, o ar como que finalmente imobilizado, foi aí, quando o próprio tempo pareceu ter pousado, que o pequeno corpo dela se agitou à medida que acordava. Fora isso e a fome. Sentia uma fome insuportável, daquelas que pedem algo quente e desafogado. Não se ouvia barulho nenhum, já devia ser bem noite e as pessoas estariam todas a dormir, e ela ali cheia de tão irascível fome. Olhando em volta pelo terraço, não viu nada que pudesse satisfazer a sua fome; enfiou a manta na mochila e pegou no Bolacha, descendo as escadas resoluta, determinada em encontrar a cozinha.

Encontrou-a, no piso da recepção, mas estava fechada e de luzes apagadas. A chave para a abrir deveria estar no balcão da recepção; temerária, não fazendo caso dos avisos do Bolacha, dispôs-se a surripiar a chave do balcão assim mesmo, à descarada. O Bolacha bem lhe tentava dizer que era muito perigoso, puxava-lhe tenuemente pelo braço, mas ele era um medroso; quando fugiram ambos do centro por pouco não tinham sido apanhados graças àquele medo teimoso dele.  

Devia ser mesmo de madrugada, até o recepcionista de serviço dormitava a sono solto. Silenciosa como um gato, deixou o Bolacha à porta para que não lhe atrapalhasse a operação com o seu medo. Viu um quadro de cortiça com muitas chaves penduradas: tinha de estar ali. Chegando-se cada vez mais perto, conseguia ler as pequenas faixas sobre as chaves: RECEPÇÃO, BALNEÁRIOS e ali estava, CAFETARIA. Estavam muito alto e muito perto do rapaz adormecido.

Destemida, ela trepou para cima do balcão, e contornando hábil os pequenos objectos de escritório, foi avançando pausadamente em direção ao rapaz. Já com a mão a alcançar as chaves, equilibrista no arame tentando nem respirar para não acordar o rapaz mesmo à sua frente, ia agarrar a chave da cantina quando viu reluzir um cartão magnético pousado à beira do monitor do computador; ela sabia que aquilo era a chave que abria as portas de todos os quartos.

Num segundo de distração, desequilibrou-se um bocadinho e a chave da cantina tilintou contra outra qualquer, aquele som tão ténue a cortar o silêncio de forma tão ostensiva. Fria e veloz como um gato, ela baixou-se ao mesmo tempo que com a outra mão recolhia o cartão e não esperou para ver abrir os olhos do recepcionista. Ele remexeu-se na cadeira, olhando em volta sem perceber o que o acordara, mas ela já ia longe: tinha de alcançar a cozinha antes que o recepcionista desse por falta da chave. Abriu a porta e avançou devagar: estava muito escuro, se não tivesse cuidado iria chocar contra alguma coisa e o ruído alertaria o rapaz.

Ela não tinha medo do escuro, como tantas crianças no centro. Tinha era medo do barulho, ao contrário dos adultos, que têm todos medo do silêncio. Ainda se lembra bem do terror que a mãe tinha do silêncio que se punha sempre que o pai entrava em casa. É estranho, como coisas tão simples como o escuro, o barulho ou o silêncio parecem provocar medos tão irracionais nas pessoas, até nos adultos (que se queriam bem mais racionais).

Ela tinha medo do barulho porque é nele onde moram os objectos atirados contra a parede, os gritos da mãe, o baque surdo dos golpes do pai, os silvos cortantes da faca no dia da grande fatalidade. O escuro fora o seu único refúgio, escondida dentro do armário até se ouvirem as sirenes e todas aquelas pessoas de uniforme lhe invadirem a casa.

ph | Caleb Woods for Unsplash

Encontrou a entrada para a cozinha, e vasculhou os armários e o frigorífico. Enfiou rapidamente na mochila dois pacotes de bolachas, um saco de pão de forma, fiambre e queijo em pacotes já abertos, uma embalagem de sumo de laranja e um saco com uns bolinhos meio redondos com bom ar, e saiu novamente, procurando as escadas. Alcançou um dos quartos do 1º andar e encostou a chave magnética à fechadura, que se acendeu verde para a deixar entrar. Estava finalmente segura, podia comer e descansar tranquilamente durante umas horas.

Atirou-se para cima da cama grande encostada à janela, enquanto comia com vontade aquelas fatias de pão mole, recheadas de queijo e fiambre. Era muito confortável, aquela cama tão grande cheia de almofadas, agora que sentia os músculos do seu pequeno corpo a relaxar da tensão que lhes havia imposto a fome. Saboreou também aquele agradável calor que se estendia a partir do estômago; poucos saberiam que uma sandes mista poderia ser tamanha conquista.  

Foi só no momento em que ia oferecer um bocado ao Bolacha, que se apercebeu que ele não a tinha seguido. Pobre Bolacha!, devia estar ainda transido de medo na recepção, que estúpida fora, como se podia ter esquecido dele ali?! Saiu apressadamente do quarto abandonando a sandes: tinha de o resgatar antes que alguém desse por ele.

Desceu novamente as escadas, o coração martelava-lhe agora no peito descontrolado; não podia sair dali sem o Bolacha, não o podia abandonar. Fora o Bolacha que lhe dissera para se esconder no dia da grande fatalidade, fora ele quem a amparara naqueles dias insuportáveis no centro; era o seu melhor amigo, a única pessoa no mundo inteiro que se preocupava genuinamente com ela. E não era só isso: o Bolacha não tinha mais ninguém, era um panda órfão que não tinha para onde regressar. Fora a mãe que lho dera, ainda tão bebé, e desde então ela era responsável por ele. Mesmo que já ninguém tomasse conta dela, ela não podia abandonar o Bolacha, tinha de o resgatar, e era essa certeza o que lhe martelava o peito com tanta força. 

Já à beira da recepção, viu o Bolacha precisamente no sítio onde o tinha deixado, choramingando sozinho. Tal era a aflição que lhe comprimia o peito, não reparou na ausência do recepcionista; avançou para o Bolacha, mas mal teve tempo de o agarrar quando sentiu uma mão no seu ombro esquerdo. “O que é que tu estás a fazer aqui?”, ouviu uma voz masculina dizer. Olhou aterrorizada para cima, e encontrou o olhar surpreendido e simultaneamente preocupado do rapaz antes adormecido; não conseguia falar, estava transida de medo. “Como é que uma menina tão pequena anda por aqui sozinha a estas horas? Onde estão os teus pais?” Ela não conseguia dizer nada, a voz tinha-se-lhe emudecido muitos dias antes, à força de tanto ter gritado que queria voltar para casa.

O rapaz olhava em volta, desnorteado, não sabia como proceder, não o tinham preparado para aquilo na formação que lhe deram quando tinha sido contratado. Tentou pegar-lhe na mão, mas a menina agarrava firmemente o panda de pelúcia, sem o olhar. Tentou que ela o acompanhasse para dentro da recepção, mas ela recusava-se a mover dali. “Olha, vamos entrar aqui e tu dizes-me em que quarto está a tua mãe, que eu vou-te lá levar, sim?”, mas ela continuava sem o olhar, sem manifestar qualquer tipo de reacção; será que estava ali sozinha, estaria perdida? Já exasperado, pegou na menina, que de tão pequena era bastante leve.

Ela começou aos gritos, um medo que estourava tão agudo por toda a parte. “Não grites, por favor, vamos só procurar os teus pais, olha que eles devem estar preocupados”, a aflição na voz do rapaz era evidente, mas ela não parava de gritar. Acendiam-se as luzes dos quartos, os seus ocupantes a assomar à porta intrigados com tão violento despertar.

O recepcionista ligou para a gerente do hotel, não sabia o que fazer com aquela miúda que lhe estilhaçava o silêncio com tão desesperada gritaria, e que se recusava a falar com ele.

“Desculpe acordá-la a esta hora, mas temos aqui uma situação”, e a gerente logo despertou da calidez do sono, alarmada com os gritos que se ouviam do outro lado da linha. A menina gritava e chorava, agarrada ao Bolacha: depois de 15 dias em fuga tinham sido apanhados, e agora?, iriam certamente mandá-los de volta para o centro mal descobrissem que não tinha nem pai nem mãe à procura dela. Era raiva o que lhe escorria pela cara abaixo, porque é que todos se recusavam a acreditar que ela sabia tomar conta de si mesma? Porque a queriam forçar a morar naquele sítio assustador cheio de crianças de ninguém?

Começaram a chegar mais pessoas, sem perceber de onde vinha tal tumulto; o rapaz tentava consolá-la como podia, “não te preocupes, vamos encontrar os teus pais, deves estar muito assustada, mas não tenhas medo que vamos levar-te de novo a casa”, o estúpido do recepcionista sabia lá que ela não tinha casa para onde voltar, que já não havia no mundo quem se importasse com ela nem sítio para ela morar. E ela chorava e gritava, o Bolacha a tentar consolá-la como podia, o medroso do Bolacha, a culpa tinha sido toda dele, que se tinha deixado apanhar, e era raiva o que lhe escorria pela cara abaixo.

Reuniam-se as pessoas ali pressionando a recepção, “mas a miúda é estúpida ou quê? Pára lá de gritar!”, já não era indiferença o que vertiam nos olhares que lhe deitavam, agora já se importavam com ela e já nem se lembravam de como antes tão diligentemente a ignoraram quando se cruzaram com ela nas escadas. E era raiva o que lhe escorria pela cara abaixo.

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