A real PANDEMIA dos nossos tempos.

O que têm em comum esta anunciada pandemia em potência do Coronavírus, a proposta do Chega para a castração química de pedófilos e os episódios racistas que se passaram no futebol com Marega? Talvez pareça que nada, mas une-as um fio condutor: todas viralizaram na Web. Em todas o papel dos social media contribuiu para que as suas proporções aumentassem exponencialmente, propagando-as tal qual um vírus se tratasse (e aqui, como em tudo o resto, a semântica é importante).

Na era da modernidade líquida e da pós-verdade, cada vez mais os meios de comunicação vêm utilizando as redes sociais como veículo transmissor (ou será antes propulsor?) de um jornalismo deturpado, o que se tem revelado uma estranha forma de implodir a importância do próprio jornalismo na sociedade, substituindo-o pelo clickbait  fácil e instantâneo. Auto-sabotagem inadvertida, suicídio auto-imposto? Fica a dúvida.

É essa a real pandemia que enfrentamos neste século: uma crise em que a tecnologia, ao invés de nos permitir ser mais humanos, acaba roubando o que restava do nosso humanismo.

Não é nada de novo, nem sou eu que o digo: uma das vozes que mais alto tem clamado neste alerta é Roger McNamee, em tempos um dos maiores investidores do FaceBook, que recentemente retirou a sua substancial participação e lidera um movimento que, de dentro da própria Silicon Valley, reivindica por uma utilização das redes sociais mais “humanizante”. 

São muitos os que se têm dedicado a expor o quão perniciosa consegue ser esta ferramenta: Shoshana Zuboff denuncia o capitalismo de vigilância em que vivemos, em que umas poucas empresas tecnológicas (como o FaceBook ou a Google, por exemplo), através da acumulação de dados pessoais (que voluntariamente lhes cedemos, nunca é demais lembrar), vigia e por conseguinte controla biliões de pessoas. Moramos num mundo onde se manipulam fenómenos políticos e sociais graças a estas ferramentas (o caso da Cambridge Analytica – com processos criminais ainda pendentes – em que a sua influência na eleição de Trump ou no Brexit é hoje consensual, colocou em evidência isso mesmo), poder nas mãos de uns poucos bilionários a quem, inadvertidamente, o cedemos.  

No apogeu da era da informação, surge assim todo um modelo económico parasitário (Evgeni Morozov), que monetiza os nossos dados pessoais, tratados não como direitos mas como activos financeiros, e em que todas as nossas comunicações são ilegalmente controladas, permitindo assim manipular activamente o contexto sociopolítico em que nos movemos. 

Mais assustador ainda é verificar que as redes criam adição, e que por conseguinte vêm criando alterações profundas no comportamento humano (Gabe Zickermann): actuando sobre a forte tendência aditiva da condição humana, fomentam uma exacerbada necessidade por validação social (que vai desaguar no crescimento acentuado de diversas patologias), ao mesmo tempo que o afunilamento da informação promovido pela acção do tão afamado algoritmo, diminui tanto a nossa capacidade de concentração como o nosso sentido crítico. 

Nomes como Paul Romer (um dos Nobel da Economia em 2018) e Tristan Harris (um ex-contratado da Google que criou o Center for Humane Technology, promotor duma utilização mais humanizante das social media) apontam o caminho em matéria de propostas para reverter este trajecto. Com 3 simples medidas, defendem, é possível encarar estas ferramentas duma forma mais positiva: 

– declarar os dados pessoais de cada um como um direito humano intransmissível (conceito a que chamam data dignity), em que as empresas só podem recolher os dados estritamente necessários para o desenvolvimento das suas plataformas e ficam formalmente impedidas de os comercializar com terceiros; 

– proibir os algoritmos, voltando ao modelo em que a informação nos aparecia por ordem cronológica; 

– e finalmente, aprovar leis anti-monopólio, com limites de actuação restritos e que promovam a divisão das múltiplas funcionalidades em negócios mais pequenos. 

Parece tão simples, não parece? 

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