#2 “A Vegetariana”, Han Kang (D. Quixote, 2019)

***** (5/5)

Empreendi esta leitura com precaução: avisaram-me que seria forte, uma narrativa violenta ao ponto de mergulhar no grotesco.

Apesar de nunca ter lido literatura coreana, reconheço-lhe o tom marcadamente vívido que parece preencher grande parte da literatura oriental. Também aqui somos confrontados com um imaginário quase onírico, na forma como se nos apresentam as descrições dos sonhos convulsos que impulsionam toda a narrativa.

Mais do que uma história sobre o vegetarianismo, para mim esta é uma história que ilustra de forma soberba o quão canibais somos todos: na forma como nos alimentamos uns dos outros, na aparente insipiência do quotidiano. A violência e o grotesco que nele encontramos nada mais é que um reflexo do quanto esse modo de viver nos consome e corrói, ao ponto da completa obliteração parecer a nossa única salvação.

Embora as traduções não permitam perceber em profundidade as qualidades líricas da escrita, é inegável que são elas que dão corpo a esta história tão tensa. Só assim se explica que o leitor seja tão brilhantemente conduzido para um final tão pouco definitivo (e que talvez por isso, se revele o final perfeito), depois de acompanhar a vida desta mulher (que tanta estranheza provoca – talvez porque sermos confrontados com o quão volúvel é, na verdade, a nossa sanidade mental pode bem provocar danos irrecuperáveis na psique dos mais incautos) em permanente expectativa.

Ao longo de toda a narrativa, e desde o primeiro momento, a história vai-se desvendando numa tensão omnipresente, quase palpável, que coloca o leitor a caminhar no fio da navalha. Quase como se a loucura daquela mulher pudesse ser tão facilmente a nossa, somos conduzidos para um vórtice onde os alicerces daquilo que entendemos como uma vida boa vão ruindo à nossa volta. O abismo, a loucura, aqui tão perto: quem tem coragem de olhar?

(book review publicada aqui.)

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