#3 “Junky”, William S. Burroughs (Editorial Notícias, 2004)

*** (3/5)

Não sou fã de relatos autobiográficos, confesso. No entanto, existências que se desenrolam em redor de um vórtice de auto-destruição têm o condão de me atrair irresistivelmente.

Foi por esta razão que embarquei nesta leitura. O relato aqui descrito é marcadamente pessoal, oferecendo leituras muito íntimas dos contornos esbatidos que desenham a toxicodependência. Num estilo muito franco, quase cândido por vezes, Burroughs descreve com impactante precisão as pulsões da adição e as interações sociais que as sustentam. O mais comovente para mim foram as suas descrições das tentativas de reabilitação; a desolação resignada que impõe o tom à escrita, espelha de forma muito vívida uma certeza porventura cruel: podem-se deixar as drogas, mas nunca se larga o vício.

Este foi, para mim, o ponto fulcral desta obra: a descrição daquilo que é uma personalidade altamente aditiva e de que forma é que esses traços dominantes de personalidade se podem sobrepôr aos mais primários instintos humanos. Expondo isso, talvez se possa compreender melhor o padrão emocional do vício, tanto quanto já se compreende o padrão bioquímico. E talvez se possa também enfrentar finalmente algumas das mais evidentes fragilidades da natureza humana, em que a ausência de algo por que almejar pode vir a despertar uma subconsciente necessidade de auto-destruição.

Foram reflexões muito interessantes engatilhadas pela narrativa, mas que, ainda assim, não conseguiram impedir algum desapontamento: habituada ao registo de Bukowski e Lucia Berlin, por exemplo, esperava mais ficção e menos relato pessoal. Ou seja, ainda que este tipo de narrativas desperte em mim um certo fascínio, em “Junky” senti necessidade de que a narrativa fosse para além da história, da mera narração dos dias, por forma a melhor concretizar estas mesmas reflexões.

Uma leitura fracturante, talvez, mas não tanto como gostaria.

(book review publicada aqui.)

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