#4 “Caim”, José Saramago (Caminho, 2009)

***** (5/5)

Há bastantes factores que atestariam a genialidade de Saramago. Um deles pareceu-me particularmente evidente neste romance: Saramago tem um jeito de narrar que equilibra o distanciamento do narrador clássico, também ele próprio um produto de ficção, com pequenas e subtis intrusões ao mundo real, ao universo do próprio Saramago.

Esse exercício de equilibrismo, se assim lhe podemos chamar, é uma das características que mais me atraem na escrita deste autor, e tem nesta obra uma concretização soberbamente conseguida (em que há momentos em que quase o podemos vislumbrar ali, mesmo ao nosso lado a ler o mesmo trecho). Mas também a forma como ele posiciona a narrativa, no espaço como no tempo, influi de forma determinante no ritmo de leitura. Saramago não pede voracidade, pede pousio que propicie a reflexão.

Neste romance, isso é particularmente necessário, muito por causa da temática. Saramago tem o condão de mostrar no espelho as diferentes matizes da natureza humana, colocando especial ênfase nas suas fragilidades. E haverá lá maior fragilidade que esta necessidade de crer num ente divino que confira sentido às nossas existências?

Desenhando um roteiro pelas mais emblemáticas históricas bíblicas do Velho Testamento, somos aqui confrontados com uma questão polémica: Deus é bom? Para mim, toda a narrativa se constrói em torno desta pulsão: a necessidade de caracterizar a natureza de Deus. Através da personagem principal, Caim, sempre descrito como um assassino e um proscrito, somos levados a questionar os nossos próprios dogmas morais. Poderá um fraticida ser globalmente mais generoso e benévolo do que o Deus que o castiga? Em todas as suas demonstrações de violência, quais seriam as motivações de Deus?

Esta e outras perguntas, que deviam ser tão importantes para crentes como para ateus, são-nos sugeridas à medida que a história se desenrola, e, dado também muito sui generis, sempre colocando em evidência a natureza ficcional do próprio Velho Testamento. Talvez tenha sido isso, na súmula de todas as grandes “heresias” que preenchem esta narrativa, que a tenha tornado tão incómoda para tantos crentes. Para mim, foi a cereja no topo do bolo.

(book review publicada aqui.)

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