#5 “Travessuras da Menina Má”, Mário Vargas Llosa

**** (4/5)

Esta podia ser a história duma mulher. Ou de um amor inconstante e inquieto, que atravessa uma vida.
(O que a mim se afigura desde logo como um clichê. Mas até os clichês podem desvelar boas histórias, quando trabalhados com a mestria de Vargas Llosa.)

Será essa a primeira abordagem a este romance e o autor consegue-o de forma convincente. Ao longo da narrativa vamos navegando o desenrolar deste amor tão ingrato de Ricardo Somocurcio por uma bela malandra, num interessante paralelismo com um longo catálogo literário que nos apresenta a imagem do anti-herói contido numa personagem feminina, uma femme fatale capaz de destruir um homem e cuja altivez e egoísmo não lhe merecem o amor.

Mas também é muito mais que isso: como Ricardo, somos teimosamente atraídos para esta mulher tão singular (personificando talvez características mais commumente atribuídas à aura masculina? talvez seja esse o desconforto que nos assalta?), que se vai transfigurando em tão diferentes personagens ao longo da vida, de forma a conseguir os seus intentos. E é aqui que a narrativa conquista uma outra dimensão: Vargas Llosa pinta nesta “menina má” não alguém que cause repúdio, mas antes um espelho, poderoso reflexo das fraquezas da condição humana (que, afinal, serão o que nos torna precisamente mais humanos): a necessidade de validação do outro, o medo, a ambição, a inconstância, a insubserviência, o anseio pela felicidade e claro, o poder dos afectos.

E é precisamente posicionando a natureza humana bem no centro das grandes mudanças que atravessam o final do século XX, que somos conduzidos pelos meandros da luta pela liberdade (imperativo moral tão caro na literatura sul-americana). Introduzindo com placidez um interessante leque de personagens, vamos conhecendo a Paris revolucionária dos anos 60, a descoberta das drogas e do amor livre da Londres dos anos 70, o submundo erótico da Tóquio dos anos 80 e por fim, o ponto viragem dos anos 90 em Madrid. Todas estas cidades, descritas com mestria sobretudo no contexto histórico que preconizam, são o pano de fundo onde se desenrola a narrativa, onde o autoritarismo não é apenas um contexto político (tão bem descrito nas subtis alusões ao período conturbado atravessado pelo Peru natal de Vargas Llosa), mas antes uma constante no comportamento humano de que os nossos heróis passam uma vida a tentar escapar.

Este romance não conta uma história, conta várias: tecendo um emaranhado de narrativas que nos captura desde o primeiro instante, demonstra com subtileza e mestria como a liberdade de ser pode bem ser a mais difícil de conquistar.

(book review publicada aqui.)

You might also like

No Comments

Leave a Reply