#6 “To Kill a Mockingbird”, Harper Lee

***** (5/5)

Andava há anos para ler este clássico da literatura americana. E agora que o terminei, não me desapontou. É só dos livros mais bonitos que já li. 

Caímos com frequência no erro de achar que para um bom livro basta uma boa história. Esta, pertencerá seguramente a essa categoria: Harper Lee narra a história de um preconceito e de um ódio capazes de incendiar uma comunidade inteira. Ao narrar o quotidiano da família de um advogado, branco, a defender um negro acusado de violação e a enfrentar a pena capital, tudo isto no Sul profundo dos anos 30, a autora descreve magistralmente as forças propulsoras do ódio que nos separam e nos dividem. 

Mas dizia eu que não é apenas uma boa história que faz um bom livro. O que distingue os livros que entram para a prateleira da perenidade dos que se vão na espuma da efemeridade é a forma como essa história é contada. 

Harper Lee escolhe contar-nos essa história através dos olhos da filha mais nova de Atticus Finch, o advogado branco. Calçar a voz duma criança será talvez das coisas mais difíceis de empreender, no que ao domínio literário diz respeito. A maior parte das vezes sai gorada a tentativa: resgatar a candura da infância sem falsos paternalismos e a sua acutilância perante as grandes questões da existência é conquista reservada a muito poucos. 

A autora consegue-o de forma verdadeiramente enternecedora, e foi isso o me capturou. É Scout, a narradora, através do seu quotidiano (que se diria insípido; afinal a vida dos adultos não é tão mais válida?) e das diferentes interações sociais que ele suscita ao longo de uns poucos anos, que nos navega por este ódio, tão intemporal, simultaneamente revelando como nos podemos resgatar mutuamente dele. 

E no fim, o que salva a nossa tão volátil humanidade é o nosso sentido de comunidade e a nossa capacidade de empatia: não será essa a melhor história de todas?

(book review publicada aqui.)

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