#7 “o remorso de baltazar serapião”, valter hugo mãe (Porto Editora, 2015)

**** (4/5)

Este foi o livro que deu o Prémio Saramago a Valter Hugo Mãe. E depois de o lermos ficamos a perceber porquê; impossível não concordar com as palavras do próprio Saramago quando lhe entregou este prémio, na edição da Porto Editora (2015) introduzidas como prefácio, que a posicionam num momento marcante da literatura portuguesa. 

Não sei se houve um antes e um depois de “o remorso de baltazar serapião”, mas os vincados traços de linguagem certamente marcam uma corrente na forma como se escreve hoje em português. E Valter Hugo Mãe tem um jeito de narrar que é indiscutivelmente seu, inconfundível. 

A história que aqui nos traz é pintura grotesca que a visão do amor assume numa face marcadamente misógina. Num Portugal feudalista, onde a submissão ao nobre senhor das terras permite tudo, até a territorialidade masculina e o exacerbado sentimento de posse da sua propriedade (onde cabem tanto mulheres como vacas como coisas) são cedências assumidas. A miséria tem muitas caras, e a que nos é aqui apresentada prefere desfigurar a mulher mais bonita da terra para que o seu senhor deixe de a querer, a erguer uma só mão contra o amo a quem tanto se deve. 

N’”o remorso de baltazar serapião” chocamos de frente com um retrato vívido da violência, com descrições absolutamente grotescas, daquelas que fazem virar o nosso estômago em convulsões. Não raras vezes tive de interromper esta leitura, que me atingiu repetidamente durante os dias em que se prolongou. Se considerarmos que há uma linha que traça a fronteira entre o machismo e a misoginia, este romance será então o posto de controlo fronteiriço que nos demarca com assertiva clareza onde estão esses limites. 

Narrando a história da vida incipiente duma família pobre e miserável, os “sargas”, ano após ano mais ostracizados pela própria comunidade, Valter Hugo Mãe logra a proeza de entrar bem fundo na cabeça de um homem capaz de matar a mulher, para que ao menos morra sua e para lhe limpar as fraquezas que vê reflectidas no seu próprio reflexo . Desde logo estabelecendo os paralelos que se impõem – a noção de propriedade que equipara a vaca velha da família primeiro à mãe de Baltazar, depois a Ermesinda, sua mulher; o sexo como alívio carnal (nunca como sintoma de intimidade, essa terrível enfermidade de que ninguém neste romance parece sofrer), que tem lugar desde que exista um orifício, que por sua vez é partilhado ou roubadosentre machos consoante as hierarquias sociais que se estabelecem. 

E percebemos logo que estão lá todas as dicotomias: a mulher que é tão reles e tão baixa, tão gritantemente inferior, mas que depois é transposta para o altar da santidade, objecto de veneração. A mulher que é tao pérfida nos seus intentos, objectivo último conspurcar o homem que lhe concede a própria vida, mas ao mesmo tempo tão pura e virginal, posse a ser protegida a todo e qualquer custo. Os tais remorsos, que lhe toldam a visão da própria mulher mutilada e desfigurada até ser irreconhecível, que ao menor impulso cedem lugar à violência como correctivo de um comportamento que o preconceito e a ignorância consideram indigno.

Não há beleza capaz de converter a misoginia, seja ela em sentido figurado ou não; talvez seja essa, em última análise, a mensagem a reter deste romance. 

(book review publicada aqui.)

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