todos os gatos são enigmas

Era uma manhã fria de Inverno, estávamos em Janeiro. Àquela hora ela estaria certamente a espreitar pela janela, o frio orvalhado a filtrar-se através do vidro, esperando encontrá-lo a ele, o seu já rotineiro visitante, o seu hóspede por inadvertidas circunstâncias. Era sempre àquela hora que ele costumava aparecer, os seus olhos amarelos a iluminar as manhãs dela já há 6 meses. Estaria, não havia dúvidas, a perscrutar intensamente a vegetação que lhe rodeava as traseiras da casa; mas ele não estava lá. Estranhar-lhe-ia o atraso, garantidamente, mas não havia porque lhe conferir especial importância: ele estaria certamente para aparecer em breve. 

Da primeira vez em que se encontraram, ele tinha-a assustado. Via de longe o seu corpo arredondado, maciço como um carvalho centenário dos que se vêem nas alamedas mais antigas, junto dos canteiros que ela cuidava nas traseiras da casa: estava a cortar umas gardénias. O Verão estava a começar e elas, que tinham despontado há um par de semanas atrás, estavam bonitas e perfumadas, ele sentia-lhes intensamente a fragância. Já tinha observado o quanto lhe parecia animar os humores acordar de manhã para o cheiro doce e intenso daquelas flores espalhadas pela casa, como poucas coisas pareciam lograr fazê-lo. 

Em dado momento, ela pôde sentir uma presença atrás de si, ajoelhada que estava à beira dos canteiros. Ele tinha-lhe percebido o sobressalto meio segundo antes, voltando a esconder-se nos canteiros para a deixar confusa, olhando em redor, apenas para não encontrar ninguém. Deixou-a continuar cortando as gardénias para levar, mas logo foi acometido pelo mesmo atrevimento e voltou a passar bem perto dela, que desta vez se levantou, fixando com minúcia aquele espaço tão estival em seu redor e ele já não foi a tempo: ela tinha-o descoberto, um par de olhos amarelos a fixá-la muito intensamente, bem do meio de um dos canteiros mais afastados. Tentou chegar perto, mas ele fugiu num salto rápido, os músculos envelhecidos a retesar-se ante aquele esforço inusitado. Ela nem sequer lhe conseguiu perceber bem a fisionomia; só que era um gato. 

Nos dias que se seguiram foi-se deixando revelar mais vezes, ela a descobrir-lhe aqueles olhos amarelos um pouco por toda a parte: de manhã bem no meio dos canteiros das gardénias, no pino do calor deitado no parapeito do alpendre, ao final do dia trepando uma das janelas da sala, de noite bem no centro do jardim. E sempre o mesmo olhar vagamente inquisidor, como quem espera por algo. Ou alguém. 

Perante tal insistência, ela começou a deixar-lhe uma taça com água fresca e outra com parcelas da sua própria comida no alpendre. Ele nunca se deixava ver servindo-se delas, há pudores que até a um gato afligem, embora ela o apanhasse a espiar-lhe essas gentilezas não raras vezes. Como tanto a água como a comida desapareciam com cadenciada periocidade, ela insistia, reabastecendo as provisões nos trâmites necessários. 

Agora ela estaria já vestida e arranjada, saindo de casa para tomar o seu matinal café e comprar o seu matutino jornal. Não é que aquela velha míope – ele surpreendia-se regularmente com a forma como sobrevivia aos seus tropeções constantes, ao evidente desajeito que manifestava na sua própria locomoção -, que tantas cortesias lhe dedicava, ligasse muito às notícias; na verdade, ele nem sabe bem porque continuava ela a manter aquele hábito que lhe veio da convivência com o marido, entretanto falecido. Sabe que ela gostava de alguns cronistas, sabia os dias da semana em que escreviam, e gostava de fazer as palavras cruzadas. Contara-lhe, à medida que se arrastavam aquelas tardes longas e acaloradas: quando o marido ainda era vivo, era ele quem comprava o jornal, ela limitava-se a surripiá-lo depois de já abandonado pela casa. Depois de morto, durante umas semanas ninguém tinha comprado o jornal, ausência que sem que ela o tivesse antecipado a incomodou. Desde então, comprava o jornal todas as manhãs excepto ao Domingo. 

Por esta altura já deve estar de regresso, de café tomado e de jornal debaixo do braço, para se pôr no cadeirão de verga do alpendre. Investindo nas palavras cruzadas, consegue imaginá-la com nitidez levantando os olhos em seu redor, à espera dele, o seu estranho companheiro dos últimos meses que tanto tarda em chegar. Pobre velha desmiolada, que passava dias inteiros a conversar com um gato quando não dedicava mais que meia dúzia de palavras às pessoas que lhe compunham a rotina. 

À medida que se foram passando essas semanas iniciais, sentiu-se deixando ficar, compelido não sabe por que instintos; já não fugia quando a via chegar de taça na mão, antes a ficava esperando pacientemente, ele atrevido sentado no cadeirão que agora era indubitavelmente seu também e a pousar nela devagar o seu par de olhos amarelos. 

Ele era todo negro, o pêlo ainda muito brilhante de azeviche, ainda que se tingisse suavemente dumas pinceladas de cinza em redor da mandíbula e na orla das orelhas, e era um gato bastante corpulento, entroncado. Era espantoso que as suas passadas possantes, tão silenciosas ainda assim, conseguissem a proeza de se transformar tão eficazmente na iminência da ameaça, quando largava a correr em passadas breves, muito curtas e seguidas, que os anos entranhados nos músculos já não lhe permitiam saltos ágeis e velozes. 

O Verão quente foi avançando assim, ela a vê-lo chegar a cada manhã através da janela, ele a acompanhar-lhe as tardes passadas a ler no cadeirão, bem refastelado no parapeito do alpendre. Com o tempo, foram-se habituando àquela presença mútua: ele deitava-se na mesinha de apoio ao seu lado no cadeirão, ela cedia-lhe um afago desinteressado na cabeça larga. Ele semicerrava os olhos de satisfação, a vida mais doce é não pensar em nada já dizia Niestzche e tinha razão, que melhor que aquele suave contentamento não haveria, e ela prosseguia em carícias gentis espraiadas pelas horas dos dias. Eram tranquilos, os dias, não havia grandes ocupações a perturbá-los: ela sempre saía de manhã, nos diligentes afazeres que lhe suportavam a existência, mas passava as tardes ali, com ele: a ler, a bebericar um chá a cada dia diferente, a pensar, a recordar, o cheiro das gardénias espalhadas pela casa a colorir-lhe aquelas recordações que pareciam ter estado à espera muito tempo por quem as quisesse ouvir. 

Por aquela hora ela já decerto terá terminado as palavras cruzadas, e ele ainda sem ir ao seu encontro. Quase que podia ver a sua testa a enrugar-se de preocupação, o dia quase a meio, mais que horas dele ter chegado, o que será que o estaria a reter?, não era nada normal que ele não andasse por ali. Pode até sentir-lhe a apreensão a começar a despontar no peito, depois de passar os olhos pelos canteiros, apenas para não o encontrar. Quase consegue imaginar o desfilar de cenários hipotéticos que lhe irá na cabeça: poderia ter-lhe acontecido alguma coisa?, gatos atropelados é coisa que não falta, mas se não havia quaisquer sinais disso; poderia antes ter-se rendido numa qualquer luta territorial, vendo-se forçado a abandonar aquelas paragens?, não, ele nunca se iria embora sem se despedir. 

Quando o Verão chegou ao fim, ele já não lhe fugia; à medida que vinha crescendo a cumplicidade entre eles, ele concedia retirada aos seus instintos de gato vadio, já nem sentia rumorejar aqueles ares que antes o impulsionavam em busca de novos territórios. Talvez fosse a idade, talvez todos encontremos algures um tempo em que, dispensados da obrigação de ser, nos é concedido apenas estar. Ela também a sentia, àquela cumplicidade, estreitando-se cada vez mais nas longas conversas que ia mantendo com ele. 

Era verdadeiramente inacreditável que aquela velha tão desajeitada, de modos tão sisudos, tão metida para consigo, fosse capaz de tão singelas delicadezas: deixava-lhe a janela da sala entreaberta, para que ele se pudesse abrigar quando sentisse frio, e ele vinha juntar-se a ela muitas vezes na poltrona de tecido estampado, deitando-se na otomana onde ela tinha os pés a repousar. Apaziguava-lhe com brandura os miados desagradados, quando porventura se descuidava nos afagos que lhe dedicava. E ela, mergulhada nos olhos dele muito amarelos, continuava contando aquela história sabe lá ele há quantos anos silenciada.

Contou-lhe como tinha conhecido o marido nos tempos em que trabalhava na biblioteca municipal. Que levava na altura uma vida quase espartana, pouco dada a grandes dispêndios; gostava de trabalhar no silêncio das estantes cobertas de livros, onde podia passar tanto tempo quanto quisesse a ler. Catalogar, anotar, ordenar, tudo ocupações frívolas a que – continuava narrando ela à medida que as tardes se distendiam em horas soltas e no cheiro docemente perfumado das gardénias – se dedicava com zelo, mas que não tanto que a impedisse de desbravar as prateleiras. 

A biblioteca não seria um sítio propriamente muito frequentado: quando um rapaz de ar adoentado, muito alto e com o cabelo negro como azeviche a cair-lhe sobre os olhos, começou a revelar-se presença assídua, foi impossível que ela não reparasse. Ele não passava muito tempo sentado; parecia estar sempre à procura de qualquer coisa que teimava em esconder-se nas estantes. Dedicava-se àquela tarefa, passando escrupulosamente duma prateleira para outra apenas depois de passar em revista todos os nomes que a povoavam. 

Ele lembra-se de como sempre se lhe iluminavam as feições ressequidas de quem já não tem mais por que chorar, como os lábios murcham pareciam florir quando recordava o dia em que finalmente percebeu que o que aquele rapaz taciturno procurava não era um livro. Empilhando 5 tomos bem pesados de um autor que ela já não recordava, colocou-se finalmente à sua frente e ergueu os olhos para entrar nos dela: eram avelã, tão claros que não pareciam deste mundo. “Quando é que os tenho de devolver?”, a voz dele ressoava grave, ficou a ecoar-lhe no peito nos 5 dias que lhe deu de prazo para a devolução. Depois, quando ele finalmente regressou, ela não pôde evitar que se lhe escapasse um sorriso ante o ar trémulo com que ele se apresentava. “Quando é que te vais decidir a convidar-me para um café?”, recorda bem o nervoso que lhe entrou na barriga, pasmada com o seu próprio atrevimento.

Àquela hora seria já tempo dela estar na cozinha a ultimar os preparos do almoço, a janela aberta para que se escapem os odores da carne picada ligeiramente caramelizada no refogado de cebola, mais o intenso aroma do molho de tomate a reduzir enquanto termina de a cozer, que ela conhece-lhe bem as fraquezas da carne. Noutros dias, isso teria bastado para o alertar de que ela lhe sentia a ausência e o chamava, bastaria isso para o ver assomar ao parapeito da janela. Mas hoje ele não aparece em parte nenhuma. Custa-lhe, não antecipou que lhe custasse tanto imaginá-la a comer tristemente o seu penne alla bolognese na mesa da cozinha, buscando em todas as janelas aqueles olhos amarelos que tardam a chegar. Tardam tanto. 

Com a chegada do Outono, ele notou-lhe a preocupação para consigo, aquele evasivo hóspede trazido pela anterior estação: os dias esfriavam muito rápido, seria terrivelmente negligente da sua parte deixá-lo ao frio. À medida que acobreavam as cores do seu pequeno jardim, ele, que antes não estava muito certo de querer dedicar-lhe a sua confiança – luxos a que um gato de rua, com demasiada vida dentro dos ossos velhos, não se podia permitir – ia-se assumindo mais doméstico. Não houve dia nenhum que tivesse firmado novo acordo, mas ele começou a passar dias e noites em casa, fazendo daquele espaço território que reivindicava como seu.

Sentava-se em cima das pilhas de roupa lavada e engomada, espalhando negros pêlos luzidios por toda a parte. Assaltava-lhe o lixo com obstinada frequência, mesmo perante a chuva de impropérios e recriminações que ela invariavelmente lhe dirigia. Arranhava-lhe os cortinados de linho, a poltrona estampada, os tapetes e até as almofadas. Derrubava-lhe as finas porcelanas enquanto brincava com os seus napperons. Era um estupor, aquele gato, sabia-o bem, a fazer daquela casa escrupulosamente arranjada uma selva onde só ele era senhor. A fazê-la sua também. 

Ela perdoava-lhe tudo. Ele, gato experimentado de humores imperscrutáveis, ouvia-a como já ninguém o fazia há vários anos,  acompanhando-lhe os dias com a sua presença fugidia, mas em simultâneo dedicando-lhe uma atenção e um cuidado inusitados. O mesmo que ela dedicava aos seus canteiros de gardénias, poderia dizer-se.

“A ti, só te falta falar”, dizia ela muitas vezes, à medida que murchavam as suas bonitas flores, caídas em pequenos montes debaixo dos canteiros, à medida que encurtavam e enfriavam os dias, e que ela ia desvelando aquela história. 

Depois daquele atrevimento súbito que lhe dera na biblioteca, começaram a encontrar-se com regularidade. Ela florescia à medida que a convivência entre ambos se tornava mais assídua. Davam por si a enlaçar as mãos quando caminhavam, a trocar os beijos na face por outros mais veementes. Aquele ar frágil dele escondia um homem com um magnífico sentido de humor, que lhe iluminava os dias tornados acinzentados pela rotina desinteressante. Não mais: à medida que despontava um amor cauteloso e quase pueril entre eles, a vida dela coloriu-se de tons que ela não concebia fora dos livros, matizes de cor que ele mesmo sendo gato, mesmo que dissesse a Ciência que tal não era possível porque os gatos são daltónicos, as via distintamente escutando aquele relato feito de candura.  

Casaram uns meses depois; aquela casa seguira-se, um depósito de uns poucos milhares esmifrados sobretudo às poupanças ela, para firmar um empréstimo que lhes havia de durar praticamente toda a sua vida em comum. Ela continuara na biblioteca, ele a escrever artigos de opinião para um jornal local e para uma revista de relevo distrital. Vencida aquela timidez inicial que o tornava tão peculiar, ela descobrira nele o companheiro de todas as horas e amou-lhe com fulgor todas as pequenas particularidades de que era feito. 

Coisas simples, pequeninas, das que não se viam no grande esquema das coisas mas que ela não tinha qualquer dificuldade em recordar: como ele espirrava sempre duas vezes seguidas, entoando duas vogais diferentes em cada uma delas. O gato, talvez em busca de mais calor que o confortasse naqueles dias que esfriavam, já não tinha pejo em aninhar-se bem no seu colo, e enquanto permitia que ela o afagasse com carinho, enlevada pelas reminiscências daquele marido com quem partilhara muitos mais dias felizes do que tristes. 

Tão agradáveis aquelas tardes despendidas de olhos pousados no fogo que os finais de dia já mais frios vieram acender. Ele resfolegava, lânguido no colo dela, durante estas reminiscências, às vezes pousando-lhe os seus olhos amarelos de forma muito caricata: abria-os muito redondos, a cabeçorra levemente inclinada para o lado direito como se estivesse mesmo a ouvir o que ela lhe dizia. A fragância das gardénias que ainda restavam ondulava suavemente pela casa toda, encerrando-as a ambos numa redoma, um mundo só deles. Um mundo de que ele gostava. 

As árvores já se viam todas despidas de folhagem e os canteiros de gardénias como que mirravam para combater o frio que os tolhia, e ela prosseguia enumerando uma a uma as muitas peculiaridades do seu marido àquele seu amigo inesperado: como ele lia o jornal sempre de trás para a frente, deixando-os depois abandonados pela casa sem poiso certo, como preparava meticulosamente sempre o mesmo pequeno-almoço ano após ano – uma taça de cereais com leite frio -, ou como espalhava meias desirmanadas pela casa, que ela tentava em vão reunir umas com as outras. 

Agora ela estaria desconsolada no cadeirão estampado com o fogo a crepitar, que os dias cada vez mais curtos e a humidade que lhe entrava pelas paredes não lhe poupavam o reumatismo. Decerto com um livro no colo, mas sem conseguir ler, uma profunda consternação a embaciar-lhe os olhos.

Vai passar, aquela tristeza, que ele era só um velho gato vadio e mais cedo que tarde logo outro apareceria para lhe tomar o lugar. Mas ainda assim, cada vez mais longe dela, pesa-lhe no peito de gato a sua própria tristeza, a de a saber assim. Não precisa de a ver para saber, porque conheceu-lhe as mágoas já saradas da ausência do marido.   

Tinha sido uma morte preparada, bem reflectida durante meses. Numa das muitas consultas de rotina a que os velhos se vêem submetidos, tinham-lhe descoberto um tumor, uma massa que não seria assim tão grande, mas escavada bem no fundo das suas entranhas, inacessível, uma massa que como buraco negro o ia corroendo por dentro. Tinham conversado exaustivamente sobre o assunto: ele recusava-se terminantemente a assistir àquele lento mas tenaz definhar, não podia consentir em deixar os médicos enchê-lo de drogas que lhe roubassem a consciência ou que lhe queimassem a energia que ainda lhe restava, nem tão-pouco em esperar a morte de forma obediente, lento fogo a lavrar-lhe o corpo até dele só sobrarem cinzas. 

Conversaram, vasculharam os seus repositórios mentais à procura de quantas formas de morrer haviam sido descritas pela literatura. Buscavam uma que, se não indolor, ao menos fosse rápida, que fosse limpa e fácil de explicar às autoridades. Ele receava que se abatessem sobre ela consequências legais inesperadas, como a anulação do seguro de vida, por exemplo. Por fim, encontraram-na: uma embolia que lhe parasse os pulmões e o coração em minutos. Era até rídiculo o quão fácil se prometia: bastavam 500ml de ar preso numa seringa, injectados numa das veias principais, talvez a carótida logo ali à disposição a pulsar no seu pescoço emaciado, que logo o proficiente sistema circulatório se encarregaria de transportar aquele coágulo de gás para lhe interromper o que houvesse nele de sopro vital. 

 Uma paragem súbita do seu coração, ou uma aguda falha respiratória, o que quer que resultasse daquela empreitada, não seria coisa de estranhar perante o avançar galopante do cancro que o consumia por dentro. A solução mais eficaz, portanto. Também não os apoquentava que a lei enquadrasse aquilo como uma fraude: que havia de fraudulento em querer morrer nos seus termos, assegurando que a mulher poderia viver depois dele com tranquilidade? Não houve discussões acesas, ela não levantou quaisquer notas dissonantes. Doía-lhe a iminência da perda daquele companheiro de todas as horas, chorou muitas lágrimas naqueles dias, mas compreendia o que o movia. Fosse a situação reversa, e dele não esperaria menos que isso também.

Ele, o gato também velho e carcomido por dentro por uma qualquer maleita indefinida, tinha achado tudo aquilo bonito. Não haveriam muitos casais assim por aí, perfeitamente sincronizados nas pulsões que os movem, em concordância nas coisas que importam: normalmente, é bem mais fácil encontrar concordância no quotidiano povoado com as suas milhentas insignificâncias. Era bonito, sim, que ela quisesse ajudá-lo a suportar a morte com bravura, tomando-a nas mãos ao invés de esperar por ela, mas principalmente que tivessem ambos a mesma lucidez de querer fruir o tempo que lhes restava, sem se contentarem com apenas suportá-lo.

Recorda com ternura a chegada do Inverno, a lareira que ela acendia cada vez mais cedo e que lhes aquecia as tardes passadas em delicioso bucolismo, perdidos ambos naquelas reminiscências duma vida que se lhes tinha antecedido. Havia beleza naquilo, que ele mesmo sendo gato conseguia apreciar: ela ia narrando aqueles últimos dias a dois não com mágoa, como tantas vezes acontece quando sentimos a morte a bafejar bem perto, mas com uma placidez só conquistada quando se experimenta uma genuína felicidade. 

Foram felizes, aquelas últimas semanas que ela e o marido partilharam, antes do dia em que ele sentiu que não havia mais caminho para andar. Ele continuava a ler o jornal, ela fazia as palavras cruzadas a seguir; liam muito, partilhando trechos de obras diferentes mas que confluíam para uma narrativa comum que ali traçavam os dois. Um dia, ela acordou para o corpo frio dele ao seu lado, inviolado, e soube que tinham sido genuinamente felizes.

Foram também felizes eles os dois, ela e o gato, naqueles 6 meses de descoberta um do outro e de como a amabilidade pode construir pontes e caminhos capazes de estreitar dois velhos eremitas. A noite aproximava-se, ele imaginava que ela estaria agora chorando, já certa de que não iria assistir ao seu regresso. Aninhando-se nas raízes volumosas de uma tília ali disposta à beira-rio, ele confortou-se com a certeza de que essa tristeza seria breve.   

Ele não ia sujeitá-la a assistir ao que a decadência dos corpos provoca naqueles que amamos, não quando ela própria tinha escolhido com o marido essa mesma renúncia. Não lhe merecia esse descuido, esse egoísmo. É uma crítica injusta, essa: os gatos não são nada egoístas. Talvez um pouco territoriais, talvez nunca se desvaneça por completo aquele instinto de reclamar para si tudo o que lhes viesse mitigar as dores duma existência solitária, mas nutrem com polido respeito e educado distanciamento relações de grande densidade emocional.

O amor não é incondicional, há que o merecer. E os melhores guardiões dessa verdade controversa são os gatos.  

Não, ele não permitiria que ela concedesse um dia que fosse a cuidar-lhe os estertores finais, e sabia que ela iria, eventualmente, compreender-lhe as acções. Toda a gente sabe que os gatos morrem sozinhos: fogem para longe para defender da morte os que amam. 

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1 Comment

  • Julio Carlos dos Santos Moreira 4 meses ago Reply

    Eu confesso que, apesar de não gostavava de dar a conhecer muito da minha intimidade aos gatos, fiquei muito enternecido, com aquilo que eles nos podem dar…

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