Estamos em guerra com o quê? – Parte 1

Há mais de um mês que me mandaram ficar em casa, anunciando que estamos em guerra. Ao longo deste tempo, tenho assistido com consternação ao desenrolar dos acontecimentos: a 18 de Março foi decretado Estado de Emergência e a 02 de Abril foi prolongado por mais 15 dias. Mais do que embarcar naquela onda de criticar os nossos responsáveis ou, como antítese, fazer deles grandes estadistas, a mim interessa-me compreender este fenómeno que é já classificado como o 3º grande momento disruptivo do séc. XXI (a juntar-se ao 11 de Setembro – em 2001 – e ao Big Crash da Bolsa – em 2008).

Principalmente porque ainda não estou muito certa de qual será, realmente esse fenómeno: se a pandemia, se as consequências do combate que lhe vem sendo feito.

Aproximando-se uma grande festividade religiosa, e com a intensificação do estado de emergência, a narrativa popular começa a mudar, irascível. Talvez não seja tanto a celebração em si, mas mais a pulsão para reunir as famílias, o que parece arregimentar as pessoas em torno duma revolta crescente (que peca por mal direcionada). Sim, ficamos em casa e tudo o mais, mas afinal os limites da obediência estilhaçam sob o peso da tradição.

Entre o temor a deus (que pode, irado, vir piorar ainda mais os números pela retumbante falta de respeito!) e a subserviência de quem vive acostumado a cadeias de comando, há uma pergunta que desponta, irascível: mas afinal quando é que isto vai acabar? A apreensão generalizada ruge, indisfarçável: tudo indica que no dia em que retomarmos as nossas vidas (seja lá o que isso for), seremos confrontados com um novo pico da pandemia, porque até a maioria ter sido infectada com o vírus e o fenómeno da imunidade de grupo nos tornar mais resistentes ao desenvolvimento da doença, ou até surgir uma vacina, continuaremos a enfrentar a ameaça do colapso dos nossos serviços de saúde ante a força dos números de doentes a necessitar de cuidados intensivos.  

(Isto porque, aparentemente, esperar que a UE se comporte como tal, garantindo um maior número de testes distribuídos equitativamente para assegurar que cada nação possa testar massivamente a população, ou garantindo ainda a injecção directa de capital nas suas economias – aliviando assim o peso que medidas tão apertadas de contenção geram nos países mais frágeis -, parece estar fora de hipótese. Shocking.)

Fui veementemente contra o decretar do estado de emergência, porque antevi as consequências que agora estamos a viver: são as restrições dele decorrentes que hoje permitem os virulentos atropelos laborais e sociais a que temos vindo a assistir. No entanto, não critico muitos dos mecanismos adoptados para a contenção do contágio: havia que fechar as escolas (afinal, temos um corpo docente dos mais envelhecidos da Europa!), que cancelar eventos de grande magnitude, que refrear os serviços de atendimento ao público (que afinal, se conseguem fazer com razoável eficácia à distância, existindo sempre a possibilidade de atendimento presencial por marcação, em condições que assim impreterivelmente o justifiquem), assim como a indústria e o comércio (de que é exemplo a rotatividade dos trabalhadores em funções).

Cancelar tudo, promover o lay off simplificado, que beneficia principalmente as grandes corporações (ao mesmo tempo que se proíbem as greves e agora se exclui as organizações sindicais de todas as negociações laborais) e oferecer apoios que excluem grande parte da população, isso já não consigo aceitar com tanta leviandade.   

ph | Rafa Lomba

Preocupa-me a injustiça social que, se já antes era evidente, se tem vindo a acentuar com o pandemónio que atravessamos. Como podemos aceitar que clubes de futebol que desembolsam valores milionários na compra de um único jogador, sejam elegíveis nas regras de lay off simplificado? Como podem, estas e outras grandes empresas, alegar que não têm liquidez para pagar salários de um, dois meses, quando apresentam lucros na ordem dos milhões, exigindo depois ao Estado que lhes pague 70% do salários dos seus trabalhadores? Como pode o Estado aceitar fazê-lo, o mesmo estado que tarda em fazer chegar esses apoios às PME e às micro-empresas, essas sim com um nó bem apertado ao pescoço?

Como podemos assistir aos massivos despedimentos nas grandes corporações, sabendo que no fim disto tudo irão voltar a contratar (porventura fazendo novos contratos com os mesmos trabalhadores que despediram apenas e só para assim lhes diminuir os salários?), sem impedir que repartam entre os seus grandes accionistas os lucros gerados precisamente pela força de trabalho que agora tão ignobilmente desprezam?

Como podemos assistir impávidos ao desespero dos milhares de trabalhadores independentes e outros precários, em diferentes sectores (mas cuja incidência parece ser maior naqueles que hoje tanto valorizamos e tanto gostamos de aplaudir nas varandas), cujas regras dos apoios alardeados aos sete ventos na imprensa, tão finamente estilizadas para servir apenas uma pequena parcela desses, votam à indigência todos os outros?

Preocupa-me também a retórica que vejo renascer das cinzas: o despertar de um instinto vigilante com laivos pidescos, exponenciado pelo efeito do imediatismo das redes e o falso heroísmo, revestido com uma leve patine de nacionalismo, que nos quer fazer acreditar que somos todos heróis por ficar em casa, por denunciar o vizinho que sai sem sequer lhe conhecermos as razões, por enaltecer profissionais que apenas há parcos meses atrás, tão prontamente criticamos quando reivindicavam melhores condições  de trabalho. Dir-se-ia que dentro de cada um de nós mora um polícia hibernado, agora desperto pelos sermões diários no final do telejornal da noite.

Pois eu recuso-me terminantemente a policiar o meu vizinho, a entrar em julgamentos fáceis e linchamentos públicos sem sequer conhecer o contexto. Proteger a democracia também é isto.

(continua)

Todos os registos fotográficos são da autoria de Rafa Lomba Photographypodem espreitar aqui!)

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