Estamos em guerra com o quê? – Parte 2

Circunscrevendo os problemas que já vivenciamos apenas aos três vectores que melhor conheço, assistimos a cenários muito preocupantes. Na Cultura, assistimos à comovente solidariedade para com os artistas, esses tesos que mesmo ficando sem fonte de rendimento logo se apressaram a disponibilizar a sua Arte em live streamings completamente gratuitos (e bastante rudimentares nalguns casos, diga-se). Só que “ajudar” com apoios à criação é assim um bocadinho hipócrita: então para conseguir ter um magro meio de subsistência, quando só não a têm porque a sua actividade foi interrompida por decreto, os artistas têm de impreterivelmente continuar a criar, fechados em casa e sem as normais condições para isso, sujeitos ainda a concurso? A mim parece-me talvez um pouco sádico.

A tónica que imperou para muitos destes profissionais foi salvar a indústria. Os artistas não parecem ter ainda percebido que são pessoas como as outras e que como tal, têm o mesmo direito à subsistência, interrompida por força da suspensão massiva do sector. Não somos rodas dentadas numa engrenagem; só se o aceitarmos. Fomos os primeiros a demonstrar uma atitude activa e interventiva, só que optamos por fazê-lo de forma suicida, incentivando a imperatividade da promoção cultural e não a expectável reivindicação do direito à subsistência. Em tempos de pandemia, não devíamos estar preocupados em continuar a produzir para poder sobreviver. Não é coisa que se peça a ninguém.

A grande revolta que atingiu os profissionais do sector, que culminou com a suspensão do TV Fest, é mais do que justificada, mas é grosseiramente mal direcionada. A tutela limitou-se a seguir o rumo que vinha sendo trilhado pelos principais agentes culturais: primeiro com um concurso extraordinário da DGArtes, depois com a plataforma Entra Em Cena, que ninguém parece saber como funciona nem consta que esteja a operar e por fim canalizando a verba do fundo europeu de emergência para a cultura para um festival televisivo. Mimetizou exactamente o que viu os artistas a fazer neste primeiro mês, que pasme-se, não vieram concertados exigir apoios sociais dignos, proporcionais e justos. Isso fizeram-no certamente alguns deles, fora dos holofotes do live streaming e quejandos, escondidos atrás da cortina. Talvez por isso o Bloco de Esquerda tenha ousado apresentar um projecto de lei do qual resultou aprovado um artigo a obrigar as entidades públicas (directa ou indirectamente) a remunerar espectáculos suspensos e cancelados, ou a estabelecer prazos concretos para que esse dinheiro chegue efectivamente aos artistas. Assim, sem concursos e seriações.

Porque não, não é hora de escolher entre salvar a indústria ou salvar a Arte, como dizia alguém. É preciso escolher salvar as pessoas, resgatá-las do abismo da miséria que as empurre para as varandas, não para cantar mas para saltar.

Na Educação, logo nos apressamos todos em garantir que a população estudantil pudesse continuar o trabalho com diligência, asseverando a eficácia do ensino à distância. Não sei se será realmente assim; são já muitas as vozes que relembram os arautos deste falso modernismo que a desigualdade social não pode sair acentuada deste processo (e ela torna-se aqui bastante evidente); serão menos as que reforçam que pouco sentido haverá em procurar manter-se o mesmo paradigma de ensino com tão volúveis e imprevisíveis metodologias, mas existem.

Não deixa de ser assinalável que mesmo perante o abrandamento da economia nos recusemos terminantemente em abrandar a gigantesca cadeia de produção em que se tornou o ensino. As preocupações não parecem incidir na real aprendizagem dos alunos, mas sim nas metas: se fazem ou não exames nacionais, como se cumprem os conteúdos programáticos, como se concluem os diferentes ciclos de estudos, como se avalia. Na minha área, o ensino artístico, tem sido uma anedota: ver as instituições, perante a ausência de indicações claras por parte do ME (que certamente ainda não as terá pensado), a procurar mimetizar o ensino regular ao invés de, talvez pela primeira vez em muito tempo, ousar apontar o caminho de forma proporcionada e mais eficaz, é exasperante.

Porque não usar esta oportunidade para fugir ao que vem sendo o cânone? Porque não ousar fazer aquilo que sempre quisemos fazer mas que nunca houve tempo para explorar? A mim afigura-se-me mais óbvio, e também mais útil.

ph | Rafa Lomba Photography

Num último vector, assistindo ao que se passa no domínio laboral, transversal a (quase) todos os sectores de actividade, é impossível negar a crescente instabilidade social que se vem sentindo. Nos EUA, há números que apontam o surgimento de 18 milhões (!!!) de desempregados em três semanas; por aqui a situação não tem essas proporções, mas tem sido igualmente preocupante. De facto, mais do que servir para garantir que sectores importantes no combate a esta pandemia se mobilizem de forma conjunta e concertada (como por exemplo, através duma requisição civil aos hospitais privados, em vez de estar a negociar rendas que se afiguram um tanto ou quanto disparatadas), o estado de emergência parece estar a ser mais útil para controlar os trabalhadores enquanto se delapidam ainda mais as suas condições de vida.

Com o direito à greve e resistência suprimido, aos massivos despedimentos a que temos assistido (por parte de grandes empresas que se queriam melhor gestoras) agora acresce a exclusão das forças sindicais das negociações laborais. Atrasavam muito o processo, diz o nosso Presidente da República, o mesmo que tem a ousadia de dizer que os bancos também estão a fazer a sua parte pelos portugueses.

De facto estão: a receber dinheiro do BCE com juros negativos, andam a negociar moratórias aos créditos com juros acrescidos mais tarde (sim, a mesma renegociação do crédito que SEMPRE existiu, com consequente renegociação dos valores de juros). Obrigadinha.

É legítimo preocuparmo-nos com isto, a par com a situação na saúde pública. É legítimo questionarmo-nos se esta forma de lidar com a pandemia que enfrentamos será a mais eficaz. É legítimo sermos críticos e vigilantes na construção não só dessa resposta, como mais ainda do futuro que pretendemos para o depois. E se calhar, há que saber resistir a partir do conforto do lar.

(continua)

Todos os registos fotográficos são da autoria de Rafa Lomba Photography – podem espreitar aqui!)

You might also like

No Comments

Leave a Reply