Estamos em guerra com o quê? – Parte 3

Ao fim de escassas duas semanas disto, encontrei-me num estranho sítio: as tonalidades que tingiam o que via no futuro resvalavam para um certo optimismo (nada comum em mim, como será óbvio).  Afinal, dar por nós a repensar os nossos padrões de consumo absurdamente insustentáveis e irresponsáveis, a projectar algumas restrições ao turismo que vem delapidando comunidades inteiras e a reconfigurar os paradigmas que vigoram na Educação e no Trabalho, parecia-me a mim coisa francamente positiva.

Haverá quem ainda se encontre aí. Aconselho a abandonar de imediato esta crónica, que será, sem a menor dúvida, das mais impopulares que já escrevi.

Hoje, mais que um pessimismo que se gruda em mim como pez, consome-me uma revolta difícil de combater ou purgar. São outros os tons que desenham um futuro que assusta: o regresso duma agenda securitária já em expansão (em que perder liberdades individuais parece ser preço fácil de pagar perante a ameaça do medo), ou da ladainha da inevitabilidade da austeridade para recuperar índices económicos (com níveis de desemprego e perda de autonomia financeira assustadores), que por sua vez desvendam a grosseira falta de humanismo e solidariedade da União Europeia, provando-se assim esvaziada de sentido.

 Não é novo: assistimos a isto por altura da “guerra ao terrorismo”, e conhecemos as consequências. Hoje assumimos os embustes, como também assumimos os da crise financeira de 2008, mas mesmo assim permitimos que nos tratem como meros roedores enjaulados a correr na roda que gira.   

O obscurantismo é presença omnipresente que tenta equiparar um céptico a um negacionista. Ainda assim, devo afirmá-lo com clareza: tenho sérias dificuldades em comprar a narrativa vigente. Não consigo compreender como pode uma OMS sugerir medidas de actuação a nível global (ainda que pouco concertadas) apoiadas em projecções feitas por matemáticos, aos invés de epidemiologistas, e que por isso mesmo, não se concretizaram. E mesmo assim, continuam a ditar a orientação de toda a narrativa. Ousar referi-lo, dando voz ao pensamento crítico e à dúvida científica, é estar ao lado de Trump quando sugere injectar lixívia como tratamento, nos tempos assustadores que vivemos.

Não consigo ter confiança em medidas políticas que se apoiam não no que diz a Ciência, mas sim na vã tentativa de responder aos apelos da população. Há que dizê-lo: as respostas a esta crise sanitária têm sido predominantemente emocionais (visando, naturalmente, consolidar ou salvaguardar a posição política de cada um dos intervenientes) e não racionais, apoiadas na Ciência. Essa, mesmo perante todas as incógnitas, diz-nos que:

  1. as medidas preventivas mais eficazes são a higiene e o distanciamento social – não isolamento e confinamento, atentem na subtil diferença;
  2. enquanto não há vacina só poderemos contar com a imunidade de grupo para travar o avanço galopante do vírus – e isso não significa desproteger os mais vulneráveis;
  3. as estatísticas do contágio indiciam uma realidade bem menos calamitosa do que se previa (logo agora que o medo do contágio já suplanta o medo de morrer pelas mãos da miserável doença);
  4. o uso de máscara é tudo menos consensual.

E porquê? Para conquistar popularidade suficiente que permita passar incólume perante tudo o resto, será isso, certamente (com óbvios resultados positivos). E é esse resto que, mesmo sem estatísticas e sermões de publicidades institucional, grita números bem preocupantes.

Há ainda que apontar dois factores que influem decisivamente no pandemónio em que vivemos. Primeiro, o circo mediático montado pelos mass media, que surpreendentemente, ao invés de aproveitar esta janela de oportunidade para se saberem distinguir entre informação e propaganda, optaram antes por embarcar na putrefacção que gangrena das social media. E depois, o desvendar do quão impreparada é a nossa classe política actual (a nível mundial), que talvez explique o porquê da população se estar a voltar para trás, para os grandes vultos políticos do passado (como por cá foi exemplo a comoção generalizada com a entrevista ao General Ramalho Eanes, mesmo tendo em conta o absurdo pendor sacrificial das suas declarações que, não sendo tolerável numa sociedade humanista, parece ser popular, contrassenso evidente nos que depois acusam os defensores da imunidade de grupo de querer matar os nossos idosos).

Em Portugal, eu vejo taxas de ocupação de 50% nas UCI e restrições severas noutro tipo de cuidados de saúde não relacionados com a pandemia, com a comunidade científica já a expressar a sua preocupação. E no entanto, nem em estado de emergência o Governo achou que podia requerer aos hospitais privados a ajuda que seria tão necessária; achou melhor comprá-la. Vejo milhares a ser presos voluntariamente em casa, enquanto assistem passivamente aos seus despedimentos ou à diminuição dos seus salários, encerrando dentro de 4 paredes e com os que as partilham o desespero de ter que escolher entre comprar iogurtes ou guardar esse dinheiro para os juros acrescidos do empréstimo que tiveram de renegociar (com bancos que foram buscar esse dinheiro a juros negativos, tão amigos que eles são dos portugueses, não é Sr. Presidente da República?).

Enquanto isso, sobra a agressividade que se descarrega no outro, sempre no outro, à medida que permitimos que nos isolem cada vez mais uns dos outros.  

Como? Instigando o exacerbar do individualismo que vê no outro uma permanente ameaça (e há mesmo quem não tenha vergonha de o dizer com todas as letras), fomentando uma sociedade de heróis vigilantes que hoje se indignam com uma manifestação que ontem andaram a partilhar nas redes quando era lá longe, em Israel. E com tantas coisas mais! O imediatismo das redes mudou definitivamente o paradigma no que diz respeito aos nossos comportamentos sociais (e tudo o que faltava era, afinal, fechar-nos a todos em casa durante 2 meses para que tão facilmente caíssemos nesta armadilha): hoje os julgamentos são rápidos, fáceis, e volúveis também – passamos de bestiais a besta num par de dias (que o diga o Rodrigo Guedes de Carvalho!) -, as nossas energias concentradas em cumprir os desígnios disto tudo, diligentes formiguinhas.  

Quais são então esses desígnios, perguntarão? Nesta ousada tentativa de questionar a narrativa vigente em plena ditadura do medo, qual é a retorcida teoria da conspiração que aqui formulo, afinal? Nenhuma, pois na verdade, não sei as respostas a estas perguntas. Mas sei que seguir o rasto do dinheiro será sempre um bom ponto de partida.

Quando existem monopólios na indústria das vacinas e quando são esses a bancar a OMS, e analisando o seu comportamento algo errático na gestão desta crise (quando muito começa agora a vir à superfície, depois de um ataque cibernético que vazou centenas de documentos e comunicações oficiais), não será difícil perceber que há aqui muitos cordéis a manusear marionetas. Quando o universo do trabalho se vê de um mês para o outro depauperado e as grandes corporações vêem consolidado o seu gigantesco domínio económico (as únicas realmente protegidas no meio de todo este caos), o capitalismo parece sair do desconfinamento bastante beneficiado.

Todas as pestes foram, historicamente, alturas de grande oportunismo; mas uma que nos fizesse reclusos voluntários e tão subservientes transformadores sociais, essa ainda não a tinham inventado. Essa máscara eu não ponho na cara.

Algumas fontes consultadas:

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