#14 “A Transfiguração da Fome”, Sara F. Costa (Labirinto, 2018)

***** (5/5)

A Transfiguração da Fome não se lê: come-se. São setenta poemas em que se desbravam narrativas múltiplas, unidos por vários fios condutores. Se José Luís Peixoto, na sua nota introdutória, se lhes refere como um mapa, este seria porventura uma mapa de estações de metro: várias linhas que se cruzam em diferentes momentos, mas indo em direções distintas. Várias vidas que, desde logo, percebemos partilharem todas morada na mesma cabeça.

Um dos traços mais assinaláveis será porventura a fisicalidade que atravessa toda a obra e se desdobra em dois olhares: um que nos vê de cima, peões em embate permanente com a própria cidade, e um outro que nos suga para um existencialismo bem entranhado no fundo da carne. Em poemas como “Manhã citadina”, “Catedrais Contemporâneas” ou “Império ao meio”, Sara F. Costa foca-se nas idiossincrasias da cidade. Percebemos-lhe a influência oriental, e que o espaço destes poemas se poderá circunscrever a uma das grandes metrópoles futuristas da China. Mas uma leitura mais arriscada poderá argumentar que nesta poesia habita o próprio conceito de metrópole, qualquer uma, um espaço físico nunca estanque e que confere a grande parte destes poemas um enquadramento fora do tempo, fluído o bastante para capturar quem se aventurar por estas páginas.

É essa, quiçá, a principal característica que transporta a voracidade da metrópole (e não passa despercebido um certo cinismo na forma como a descreve) para dentro do próprio corpo. Porque afinal, “em hora de ponta nenhum coração está vago”. É neste registo mais íntimo que lhe percebemos outros traços profundamente cativantes: uma sexualidade pungente, um desassossego que se intui latejante, uma dose de melancolia incrustada. Esta última parece tingir a imagética aqui edificada, tal qual filtro de telemóvel, num estilo que não raras vezes evoca a poesia de Al Berto. Estes traços revelam-se logo nos primeiros poemas, como por exemplo em “Se os poetas são melancólicos”, “Quando me pedires a verdade” ou “Insónia”, duma vividez que nos atinge inesperadamente e que perdura no tempo.

De facto, esta imagética, tão múltipla e fragmentada naquilo que poderíamos descrever como um sem-número de personagens, atinge-nos por vezes com inusitada violência. Seja na candura de poemas como “Aquele filho que vai nascer”, ou até num certo hedonismo presente em poemas como “About last night”, encontramos a tentativa de pintar um colossal mosaico que retrate a profundidade da dimensão humana, de tudo o que nos torna tão deliciosamente complexos, mas também de vidas consumidas numa voracidade idiomática, quer no estilo, quer na própria época em que nos inserimos.

A paixão e o amor são leitmotiv recorrente, mas numa perspectiva que evoca aos amantes desesperados, degladiando-se num confronto permanente. “Não me obrigues a ter de te encontrar/em alguém diferente”, a ameaça de ruptura aqui sempre tão presente parece vir acentuar a fragilidade daquilo que nos une uns aos outros. Assinalável, porém, é não a temática em si ou a forma como a lírica lhe dá vida, mas antes a beleza com que a autora consegue descrever as dimensões mais sombrias da emoção humana: encontrar a beleza que lateja mesmo nos sentimentos mais antagónicos e viscerais, será certamente mérito reservado a poucos.
Começamos por dizer que se comia este livro. E assim é: desde logo lhe sentimos a pulsão frenética, tão veloz como o próprio pensamento, mas que se detém (de forma bem abrupta, por vezes) em deliciosa contemplação. Tal e qual os próprios pensamentos, Sara F. Costa consegue em “A Transfiguração da Fome” imprimir um certo sentimento de urgência que pontua todas estas linhas que se cruzam para logo de seguida se voltarem a desencontrar. Se o consegue é graças à excelente qualidade lírica e às opções ao nível da imagética. Aqui, os olhos vêem voltados para dentro, para o que trazemos de mais visceral e por isso de mais frágil.

Diz esta autora que “as estrelas rimam/se puxarmos por elas”. Será caso para dizer que assim é, quando conjugamos um olhar abrangente o bastante para pintar o vasto espectro da emoção humana (e a forma como este se desenrola num mundo por vezes demasiado violento) e uma lírica intensamente visceral.

(book review para a Revista INTRO, aqui.)

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