Meninas de bem

Haverá alguma razão de causalidade entre aquilo que é a mentalidade colectiva portuguesa e a convulsão social que provocam certos movimentos activistas? Sabemos que tal sucede no movimento anti-racismo, mas se olharmos algumas características que alicerçam essa mentalidade colectiva, conseguimos desde logo identificar alguns traços comuns que parecem também explicar o que acontece com a luta feminista.

São demasiadas as pessoas que ainda pensam o feminismo como antítese do machismo, como uma luta para suplantar as mulheres face aos homens. E nem todas são homens.

Nunca é demais dizê-lo: ser feminista é tão somente lutar por igualdade de direitos. Isto não significa lutar para que homens e mulheres sejam iguais onde evidentemente são diferentes. É fácil cair nesse raciocínio armadilhado estendido por uma facção altamente conservadora da sociedade a quem não interessam (e até ofendem!) as mais recentes conquistas da luta pelos direitos da mulher. Mas a verdade é que igualdade de género quer apenas dizer igualdade de direitos, deveres, oportunidades.

Podemos entender o machismo como estrutural (institucionalizado, como quando falamos por exemplo da problemática da desigualdade salarial entre homens e mulheres), mas também cultural (como o que define o exercício da parentalidade em moldes hoje completamente obsoletos), um dos tais traços endémicos da nossa mentalidade colectiva. Ambos existem e ambos carregam consigo consequências nefastas.

Descobri que estas afirmações são polémicas, e não é por causa do politicamente correcto: como em muitos outros assuntos da vida em sociedade em Portugal, dizer que o rei vai nu gera anticorpos. E se for uma mulher a dizer, ainda pior.

Enfrentar a dura realidade de que existe em contexto laboral uma praxis que dificilmente paga igual salário a uma mulher por idênticas funções assumidas por um homem (isto obviamente nos casos em que não existem tabelas salariais pré-estabelecidas), parece ser gatilho para violentas manifestações de uma cultura (ainda) machista e patriarcal. Em países como a Finlândia, que ainda recentemente legislou para igualdade salarial entre homens e mulheres, parece ser menos acintoso: porquê?

Talvez porque o machismo estrutural, enquanto prática hierarquizada, tem raízes mais profundas, já amplamente estudadas pelas Ciências Sociais, em mecanismos culturais que se manifestam de formas nem sempre óbvias; será talvez por isso que é tacitamente aceite. Não raras vezes, reveste-se duma atitude condescendente e paternalista, quer em contexto familiar, quer profissional, aquilo a que hoje se chama mansplaining. Se eu tivesse 5€ de cada vez que isto me acontece, estava rica, e estou certa de será experiência semanal recorrente na vida de muitas jovens mulheres.

Para demasiadas pessoas, parece ser ofensivo ver uma mulher a falar com propriedade seja de que assunto for. Logo se ergue uma incontrolável vontade de a “pôr no sítio”. Que é qual, ao certo? Debaixo da pata que teima em pisá-la?

Se estes comportamentos alicerçam uma cultura intrinsecamente machista, esta edifica, em última instância, a cultura de violência sexual que temos visto crescer.  Aliás, de todas as realidades “polémicas” aqui descritas, nenhuma o é tanto como a da violência de género (cuja própria nomenclatura parece causar fortes anticorpos).

Olhem em redor. Conduzam uma breve sondagem pelas mulheres da vossa vida. Perguntem-lhes se já sentiram alguma forma de violência de género: desconhecidos a fazer propostas sexuais não desejadas, contacto físico abusivo em transportes públicos, pressão e intimidação nas relações de intimidade, comportamentos abusivos em contexto de ambientes festivos serão as respostas mais comuns, garanto-vos. E é verdadeiramente assustador aferir a dimensão do problema: são cada vez mais raras as mulheres que nunca sentiram nenhuma forma de violência de género. O próprio conceito de assédio sexual permanece dúbio: não é receber um piropo, não é um olhar de relance para umas pernas ou um decote. É quando se entende por piropo uma proposta sexual explícita por parte de estranhos, não desejada ou consentida. É quando a forma de vestir de alguém é entendida como um convite para avanços sexuais.

Provocar, querer ou gostar de atenção masculina, facto que na cabeça de muitos parece ser salvo-conduto ou último reduto da consciência, não é desejar ou sequer consentir com ser assediada sexualmente. Ponto.

Mas mais deprimente do que termos uma população masculina não ciente de tudo isto, não ciente também das responsabilidades que podem ou não carregar, é termos uma população feminina que não sabe reconhecer estes comportamentos pelo que são, e que não lhes sabe responder. Não somos educadas para isso, somos educadas para sentir vergonha: devemos ter feito algo de errado que o provocasse, como se o homem não fosse mais que um simples animal incapaz de controlar os seus impulsos.

Nada mais errado, nada mais pernicioso. A mudança começa em nós e não é preciso assumir-se feminista para o ser. Recusar desculpas primárias apostadas na biologia descontextualizada e resistir com tenacidade aos constructos que alicerçam toda esta retórica, nomeadamente quando falamos em matéria de formação das novas gerações, é sempre um bom começo.

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