depois do medo

Ele detestava pessoas. Não lhes suportava os cheiros, uns adocicados como melaço a escorrer pelos poros, outros um cheiro azedo a leite estragado. Irritavam-no os pequenos ruídos que inadvertidamente lhes produziam os corpos, as articulações crepitando como lenha no fogo, a respiração meia engasgada nas vias obstruídas, aqueles exasperantes tiques vocais. Até o próprio andar o incomodava, pernas a coxear ligeiramente enrijecidas, ancas desarticuladas e desprovidas de qualquer resquício de elegância, pés pesados e inchados sob o peso das obrigações; quantos andares todos diferentes. 

Havia que dizê-lo: tudo nas pessoas o irritava e fugia delas como da peste. Por isso tinha optado por uma vida de solidão. O seu apartamento diminuto era um bunker onde escondia a sua resistência à guerra que decorria lá fora. Completamente auto-suficiente, a não ser que quisesse quase não precisava de sair; era até surpreendentemente fácil reduzir o contacto social a mínimos assinaláveis. Dedicava-se à produção, de orçamentos no concreto, coisa que fazia a partir de casa recebendo via web todas as informações necessárias e cumprindo com diligência prazos e listas de tarefas. O frigorífico apontava todas as sextas-feiras a lista dos itens em falta, assim como o software de gestão doméstica que lhe tratava da lavandaria e de lhe limpar a casa; ele cruzava os dados e enviava para o seu supermercado de eleição, um dos que cedo se posicionara na vanguarda da inovação; selecionava um horário e as compras eram-lhe entregues em casa, já previamente pagas por transferência bancária. Nunca se enganavam. 

Seguia com entusiasmo o lançamento de novos filmes e novas séries, ocasionalmente um documentário ou outro, através das dezenas de newsletters que diariamente recebia na caixa de email. Era aí que selecionava os produtos destinados a alimentar os seus hobbies. Não se cansavam de promover o quão saudável é nutrir alguns hobbies; faz bem à cabeça, diziam. Aquele de que mais se orgulhava era o de colecionar uma vasta colectânea de vinis que lhe preenchia um aparador feito de madeira de bétula e pintada de branco. Não se demarcava nenhuma predominância quanto ao estilo: tanto lhe preenchiam as prateleiras os clássicos do bebop dos anos 40, como a integral dos Concertos para Piano de Mozart, os ícones do grunge dos anos 90 como as novidades mais recentes do universo indie

Quando lhe apetecia alguma extravagância, encomendava um take away; recaía com frequência no sushi ou na comida tailandesa, mas não desgostava de um ocasional frango no churrasco, uma pizza ou uma lasanha. Todos os domingos, percorria o rol dos favoritos da sua lista telefónica no telemóvel em vídeo-chamadas nunca demasiado extensas, dando conta de alguma nova descoberta durante a semana, escutando as pequenas dores do lado de lá do écran para logo as esquecer. Mais que fazer do que guardar as dores dos outros. 

Só saía para ir levar o lixo à rua. Mais ou menos de dois em dois dias, via-se obrigado a calçar umas sapatilhas ainda com pouco uso e ar de novo para enfrentar aquela contínua agressão que lhe provocavam os elementos: quando não era o frio húmido do Inverno, eram as alergias da Primavera. Era nesses momentos, sempre desagradáveis, que a via. 

Cruzavam-se normalmente no patamar, às vezes no elevador, mas havia vezes  em só se viam de fugida a entrar cada um no seu apartamento, outras em que não se cruzavam de todo. Ela andava sempre de vestido, tinha uma tendência irritante para padrões florais que pareciam iluminar aquele pequeno espaço exíguo que ocasionalmente partilhavam. Trazia o cabelo densamente encaracolado preso no topo da cabeça, na maioria das vezes, enfeitado com lenços vistosos de cores garridas e padrões variados. Mais padrões. Era raro ver-lhe os caracóis negros soltos, mas ele gostava quando isso acontecia. Trazia a pele muito branca, quase translúcida, onde ele conseguia distinguir mapas inteiros que lhe desenhavam as veias no corpo. (Mapas para onde?, mas que estúpidos devaneios aqueles que o levavam a imaginar mundos no corpo da sua vizinha). 

Ela era a única pessoa que não lhe provocava aversão. Do mundo inteiro, porventura. Tinha-se mudado para ali há pouco tempo, um par de meses apenas. Ele tinha inclusive ajudado na mudança, ainda que inadvertidamente: no regresso a casa depois de um dos raros momentos em que se via obrigado a reunir presencialmente com o seu chefe de secção, encontrara as escadas obstruídas por enormes caixotes. Detestava elevadores e querendo passar, pegara em dois deles; eram terrivelmente pesados. Ela surgira do nada, como que luz materializada na fina poeira duma tarde Verão; “desculpa, estavam a empatar o caminho, não estavam?”, e a voz dela era grave e rouca como ele nunca tinha ouvido nenhuma. “Sim. Isto é muito pesado; o que trazes aqui dentro?”; ela não lhe tinha estranhado a familiaridade incomum, fruto da sua total inaptidão social, e sorrira com simpatia, “são livros! Se me ajudares a levá-los para cima, empresto-te um que queiras!”. Ele não quis nenhum; não gostava particularmente de ler. Mas não desgostara daquela rapariga de ar tão frágil como o de uma boneca de porcelana. 

Depois disso, habituou-se a ouvir-lhe os barulhos da rotina através da parede que lhes separava as habitações: o autoclismo de madrugada quando se deitava e de manhã quando acordava; os tachos e as panelas a bater ruidosamente na cozinha; a corda enferrujada pendurada fora da janela das traseiras onde estendia a roupa a secar. Deu por si a indagar-se se acordaria mal-disposta ou bem-humorada, a adivinhar-lhe a forma desorganizada de cozinhar. 

Estranha coisa aquela que o fazia aguardar ansiosamente os momentos em que a conseguia ouvir no banho; ela cantava umas melodias aflamencadas numa voz grave e rouca, que se propagavam através das canalizações. Ficavam por ali a reverberar horas, às vezes dias inteiros, pegadas a ele como suor. 

Sempre que se cruzavam, dava por si a tentar evitar o olhar, sempre capitulando ante a franca simpatia que ela lhe dirigia, mesmo em momentos tão breves, tão banais. Mas depois veio a peste.  Durante duas semanas inteiras ele ficou sem a ver, angustiado com o inusitado silêncio que reinava no apartamento ao lado. Ouvia apenas a televisão, um ruído de fundo constante que nunca lhe ouvira habitual. Às vezes, já de madrugada, ouvia um choro baixinho, abafado, e era assim que sabia que ela continuava ali, estranha prisioneira. 

Demorou algum tempo a perceber o que tinha acontecido. Estranhou o tom dos emails que lhe chegavam do trabalho: sempre exigindo mais a cada dia, tentativas de contacto estranhas, a desoras, prazos impossíveis para cumprir, uma premência inusitada impressa em cada linha das cada vez mais profusas comunicações que ia recebendo do seu chefe de secção. Nada daquilo era habitual e ele não conseguia entender o que se estaria a passar na empresa. Não percebia também porque tinham desaparecido as pessoas da rua antes agitada, nem porque estavam fechados os cafés, nem porque tinha diminuído o ruído do trânsito antes frenético. Mas gostava. A única coisa de que não gostava é que ela não parecia estar a levar o lixo à rua. 

Ele via aquela palavra – a peste – espalhada pelos caminhos que lhe construíam a rotina, mas não lhe deu grande importância. Já não existiam ameaças globais, como um dia o fora a peste; naquele mundo esterilizado e asséptico, onde as condições sanitárias eram luxo propalado como dado adquirido, não era simplesmente possível que uma doença qualquer viesse causar estrago real. Se todos falavam disso, seria certo que haveria algures gente a ficar doente, gente a morrer também; mas lá longe, nos países onde não existem torneiras de onde saia água. No mundo dele, tão finamente estilizado, a peste seria mais parangona destinada a vender jornais do que ameaça mortífera. 

Intrigado com o que andaria ela a fazer ao seu lixo – afinal, não fazer lixo é quase mais utópico que deixar de produzir – concluiu que teria de o andar a despejar à socapa. Se calhar fugindo precisamente dele. Naquele dia, vigiou-lhe as horas uma atrás da outra, à espera da que a libertaria daquela estranha cárcere. E encontrou-a, já quase meia-noite, quando ouviu a porta da rua a abrir devagarinho, passos silenciosos no patamar; era ela. Espreitou da janela da sala, a que dava para a rua, e viu-a a pousar um grande saco do lixo de aspecto pesado. Estava escuro, mas conseguia ver-lhe distintamente a máscara branca com que tapava grande parte do rosto. 

Não conseguia perceber porque estava com aquilo na cara. Mas percebeu de repente que as ruas vazias não se deviam a um exagero potenciado pelos mass media. Ainda tentou contrariar aquele estranho impulso que o impelia para a rua, mas não aguentava ver pairar aquela dúvida mais tempo por ali, a descascar das paredes como tinta velha. Foi agitado para a porta de entrada, mesmo a tempo de a apanhar a abrir a porta da sua casa, do outro lado do patamar. “Porque trazes uma máscara na cara?”, sentiu-lhe o ligeiro sobressalto e a apreensão nos olhos cansados. Eram de uma tonalidade estranhíssima; naquele momento pareceram-lhe lilases. “Como assim, porque ando de máscara?”, as sobrancelhas agitavam-se numa dúvida genuína, “tu não tens visto tudo fechado, não vês as notícias?”. E ele respondia que não, nem sequer tinha televisão em casa, perante um par de sobrancelhas a plasmarem-se-lhe espantadas no rosto. “Estamos em tempos de peste; está tudo fechado e todo o contacto social liminarmente proibido; nem sequer devíamos estar agora aqui a falar”, e olhava em volta, preocupada talvez com que algum vizinho os ouvisse.

A peste. Não lhe tinha ocorrido que talvez as ruas estivessem vazias porque estavam a prender as pessoas dentro das suas casas. “Mas que peste nova é esta?”, perguntou-lhe com brusquidão, algum cepticismo a escorrer-lhe languidamente das palavras. Ele não podia acreditar que houvesse doença alguma capaz de, no seu país pelo menos, causar estrago suficiente que levasse o Estado a declarar aquilo como situação de emergência ou de calamidade. 

Aqueles olhos grandes e lilases dela abriram-se de espanto: como poderia ele não fazer ideia de tudo o que se estava a passar no Mundo, como poderia achar que tudo aquilo não passava de um exagero? Não, simplesmente não era possível, isso faria dele talvez a única pessoa no mundo ocidentalizado (o 1º mundo que apregoavam civilizado) a desconhecer que este se abatia sob o peso duma ameaça invisível que chegava pelo contacto com os outros. Um vírus, apenas um pequeno organismo, mas tão imenso que tinha conseguido paralisar por completo estruturas muito maiores; como países, por exemplo. 

ph | Engin Akyurt for Unsplash

Ela tinha-lhe explicado ali mesmo, na sua voz grave e rouca feita apenas sussurro que não alertasse nenhum dos outros vizinhos para a terrível infração que ali se cometia, que aquele vírus, originário de um país de um 3º mundo longínquo, se tinha rapidamente disseminado através do turismo desenfreado, viajando em aviões de companhias low cost. Que os países de 1ª só se tinham dado conta tarde demais, quando ele já lhes tinha invadido as fronteiras. Que os serviços de saúde tinham colapsado perante a avalanche de infectados que todos os dias lhes engrossavam as camas de hospitais, incapazes de lhe dar resposta, tornando aquele vírus cada vez maior e impossível de conter, como noticiavam todos os jornais. E que perante tão calamitosa situação, o mundo inteiro se tinha visto forçado a interromper todas as diversas linhas de produção que lhe alimentava a economia, ordenando o confinamento obrigatório de milhões de pessoas. 

Escolas e teatros encerrados, o vírus tinha inclusive capturado o universo mais resiliente que se conhecia: o mundo empresarial. Este vira-se assim deslocado das suas fábricas, das suas sedes corporativas e escritórios para o universo virtual: agora todas as pessoas trabalhavam a partir das suas casas. Como ele. 

Ela despedira-se apressada, sempre aquele temeroso olhar em redor que ele não conseguia compreender. Já em casa, sentia-se atordoado com tudo aquilo: então agora era toda a gente igual a ele? Todos converteram as suas casas em escritórios domésticos improvisados, todos recorriam a serviços de entregas para lhes suprir as primeiras necessidades, todos fugiam das pessoas? Ele não tinha televisão, mas decidiu consultar os sites online dos principais jornais nacionais e logo o confirmou: as pessoas estavam de facto cativas nas suas casas, procurando o refúgio possível contra aquela peste tão insidiosa. 

Parecia-lhe terrível, tudo aquilo: centenas de milhar a perder os seus empregos, sem qualquer perspectiva de rendimentos, crianças enjauladas dentro de apartamentos demasiado pequenos para elas mas anestesiadas por um sucedâneo de ensino concretizado através de múltiplos écrans; o tecido empresarial a desmantelar-se à medida que fechavam todos os pequenos estabelecimentos, até só sobrarem as grandes corporações a sobreviver de injecções de fundos estatais. Andavam pessoas na rua, sim, as que iam tentando provir tanta gente desesperada, vestida em fatos estranhos com ar de astronautas, mas tão poucas perante tanta miséria instalada. 

Dir-se-ia impossível que em menos de um mês toda a economia mundial desabasse daquela forma. Mas perante o medo do tão terrível contágio, era o que tinha acontecido. O nosso corpo é uma máquina, dizem-nos; trabalha com fabulosa precisão, o cérebro comandando as ordens que se difundem através dos milhares de sinais eléctricos, tendões a manobrar as articulações, os impulsos nervosos a garantir a produção das hormonas que fazem trabalhar todos os diferentes órgãos que o compõem. Trazemos dentro uma verdadeira orquestra, cheia de silvos e ténues assobios que se escapam das pequenas frestas que trazemos escondidas: o cotovelo, a cova atrás da orelha, o estalar do pulso, os intestinos a funcionar, tudo conjugado numa escatológica sinfonia que poucos se davam ao trabalho de escutar.   

Mas nós não somos uma máquina. Não de verdade, pelo menos. Aquele vírus tinha mostrado o quão frágeis somos, capazes de colapsar perante tão ínfimos organismos.

Começava como uma gripe vulgar, diziam, com sintomas de pouca monta, mas que logo se multiplicavam até afogar por completo os pulmões do hospedeiro. E não era só: dizia-se que afectava também o fígado, soterrando-o em toxinas até à sua completa falência, e até o cérebro, causando curto-circuitos terríveis que faziam assim colapsar todo o sistema. Se fôssemos uma máquina, conseguiríamos reparar o dano antes que se alastrasse. E era isso que se mostrava tarefa difícil para a Ciência, enaltecida durante anos como deus omnipotente e que agora de pouco parecia servir. 

Tinha passado toda a noite agarrado aos feed de notícias dos principais jornais tanto nacionais como internacionais, a injectar-se de estudos científicos que ora diziam que as máscaras protegiam, ora afastavam liminarmente essa hipótese, que ora asseguravam que o vírus tinha consequências devastadoras para o organismo, ora asseveravam que larga maioria dos infectados eram perfeitamente assintomáticos. 

Acordara todo dorido no sofá, com o portátil a descair em periclitante equilíbrio para o chão. Acordara e sentira fugir-lhe a respiração, num medo que não se lembrava de nunca ter sentido. Inspirava, inspirava, mas não conseguia reter o ar dentro de si, fugindo em respirações cada vez mais rápidas. Lembrou-se das velhas estratégias que lhe tinha ensinado a terapeuta, quando na transição da adolescência para a idade adulta sentira pela primeira vez as agulhadas da ansiedade. Enrolou-se em posição fetal, a sala submersa na penumbra entrecortada pelo sol que se escapava pelas frinchas das persianas. “Deixa o mundo lá fora e foca-te em ouvir apenas o bater do teu coração”, as palavras dela são o mantra que lhe comanda a tão estranha meditação, “está rápido, não está?, mas agora és tu que o vais abrandar”, ele maestro do seu descompassado coração, aflito com o mundo que mudara sem que ele desse por isso.

Sentiu como lhe abrandava toda a máquina, assim devagar, aos poucos. Foi nesse momento que ouviu a voz grave e rouca da vizinha a ecoar nas canalizações; estava no banho. Hoje aquela voz era um estranho lamento, a rouquidão a tingir-lhe a melodia como se não fosse mais do que uma outra forma de chorar. Já não ouvia só o bater do seu coração; aquele canto tao visceral entrara-lhe pela casa adentro afastando o medo se por ali se imiscuíra durante a noite. 

Já novamente funcional, foi à cozinha providenciar algo que lhe quebrasse o jejum. Enquanto comia as habitais papas de pequeno-almoço, só conseguia pensar nela: sentia-lhe os passos ali tão perto, apenas à distância de um patamar, forçava o ouvido até conseguir distinguir o ténue ruído dos talheres a embater na loiça. Também ela comia o pequeno-almoço. E que será que comia? Será que seria também uma das muitas afectadas pela nova vaga de desemprego, será que ainda se conseguia alimentar bem? 

Decidiu juntar algumas das coisas que lhe sobravam – afinal, a ele nunca lhe faltavam provisões, graças à diligência da electrónica inteligente que lhe fazia companhia – e levar-lhe aquela espécie de cabaz. Reuniu pacotes de leite, açúcar, queijo já fatiado e manteiga, uma embalagem de pão de forma, alguns pacotes – de arroz, de massa, de polpa de tomate – mais uns enlatados que dão sempre jeito – feijão, ervilhas, grão e sardinhas em escabeche – e sem esquecer, claro, papel higiénico que lhe pudesse faltar. Foi resoluto bater-lhe à porta de entrada. 

Sentiu-lhe o sobressalto; escutou o leve roçagar dos seus passos hesitantes de pés descalços a vir encostar-se à porta. “Quem é?”, disse numa voz trémula, tão contrastante com a que ainda há pouco se lamentava pelos canos, “é o vizinho”. Ele sentia-se tremer com a expectativa de a voltar a ver; ela estava agora ali tão perto, apenas do lado de lá da porta, quase lhe podia ouvir a ténue respiração. “O que é que queres? Já te expliquei que toda e qualquer confraternização está terminantemente proibida”, a voz dela não enganava, não se sentia nenhuma segurança ou firmeza naquilo que dizia, limitava-se a repetir aquilo que passara os últimos dias a ouvir, “pensei que poderias estar em dificuldades; trouxe-te algumas coisas que te podem estar a fazer falta”. Ela caminhava nervosa, sem saber o que fazer daquilo, “agradeço-te muito, talvez seja melhor deixares aí, à entrada; não deves ter máscara”, aquilo desconsolou-o ligeiramente, mas fez o que ela lhe pediu. 

Repetiu aquilo nos domingos de cada um das duas semanas que se lhe seguiram. Entretanto, tratara de arranjar um provisão de máscaras descartáveis (tão estranho aquilo de ainda há meses antes ele não conseguir arranjar palhinhas descartáveis por conta do terrorismo do plástico a infestar os oceanos, quando agora o descartável parecia emergir maná providencial) e de gel desinfectante para as mãos, lavem bem as mãos, lavem bem as mãos, tão cansado que já estava que lhe apontassem o óbvio. 

Cresciam os relatos de bancos alimentares em ruptura e supermercados com falhas de stock, “não açambarque, seja responsável” repetia a publicidade institucional contratualizada pelo Estado. Quem lá queria ser responsável quando a ameaça morava no outro e quando nos desengatilhavam o instinto de sobrevivência, inculcado na nossa mais proficiente biologia. 

Repetiu aquilo mais duas vezes; à terceira conseguiu que ela finalmente viesse cá fora agradecer-lhe olhos nos olhos. Trazia a máscara, a que lhe fazia os olhos maiores e mais lilases. “Porque continuas a fazer isto? E se depois não tiveres para ti?”, aquelas sobrancelhas tão expressivas erguiam-se em genuína preocupação, “a mim não me aconteceu nada, nem é provável que aconteça; eu já trabalhava a partir de casa e sou o único funcionário a desempenhar estas funções, não me podem despedir; as minhas encomendas de provisões mensais não sofreram abalos, tenho que sobre”, assegurava ele. Ela trazia as mãos junto ao peito; eram assinalavelmente pequenas e tinham um ar muito frágil, como se pudessem partir a qualquer momento. Ele sentia muita vontade de lhe tocar, de agarrar pelo menos uma daquelas mãos tão pequenas e tão brancas para a tranquilizar. 

Sem que o comandasse, as suas mãos pareceram mover-se sozinhas, indisciplinadas. “Não, desculpa, não nos podemos tocar, não é seguro”, ela retraíra-se de imediato. Até isso tinham roubado às pessoas? Revoltou-o aquilo: levar um emprego é uma coisa, mas levar o conforto do toque humano parecia-lhe tortuoso. Viviam numa distopia gigantesca e ele mal tinha dado conta; só agora, incapaz de traduzir à vizinha o quão absurdo era aquele medo, incapaz de lhe dizer que só as mãos seguram, os abraços amparam e só um beijo cura, (que só os outros nos salvam, no fundo), é que ele percebia o quanto o mundo tinha mudado durante aquele mês que entretanto decorrera. 

“Agradeço-te muito. Tens de me dizer algo de que precises, para eu te poder retribuir”. E despediu-se assim, sem mais. 

Ele ainda ficou no mesmo lugar uns minutos, como que atordoado. Não precisava de nada; tinha o seu apartamento bem provido de tudo o que lhe era necessário: uma dispensa cheia, uma casa sempre arrumada, uma ocupação que lhe garantia a subsistência, uma saudável dose de pequenos passatempos frívolos…não saberia dizer algo de que precisasse e que não tivesse. 

Aquela tão inusitada exigência perseguira-o durante todo o dia. Por mais que tentasse, não conseguia desviar o fluxo dos pensamentos; tanto mais que ela hoje parecia mais inspirada, cantando pelo dia fora aqueles lamentos que lhe entravam pelo seu apartamento adentro sem que ele o conseguisse evitar. Ela queria retribuir-lhe; isso era bom, seria pelo menos um pretexto para a voltar a ver. Agora só teria de encontrar algo que ela lhe pudesse dar. A premência de voltar a estar com ela tornava até estúpido pensar na coisa da forma intendida: quer ele precisasse de alguma coisa, quer não, o que importava era conseguir descobrir que poderia ela ter para lhe oferecer, garantindo mais um encontro naqueles dias em que estes estavam proibidos. 

Passara o dia naquilo, preso naquela tão estranha interrogação. Sentira, talvez até pela primeira vez, que não conseguia concentrar-se no seu trabalho. As folhas de cálculo pareciam-lhe agora todas iguais, quando antes estavam recheadas de subtilezas. O correio electrónico acumulava-se na caixa de entrada, quando até agora sempre fora pródigo em responder no exacto momento em que lhe caía um novo email no correio. Houve inclusive um momento em que pela primeira vez prevaricou as normas da empresa: sem efectuar o logout, saiu do seu posto à secretária e foi-se pôr à janela. Sem fazer nada, durante uns bons vinte minutos, pelo menos. Só dera conta porque logo começara a soar aquele sinal de chamada estridente que precede todas as vídeo-chamadas: era o seu chefe de secção, a perguntar-lhe porque tinha abandonado o seu posto. Tinha-se esquecido que durante o horário de trabalho a empresa activava as câmaras de todos os dispositivos conectados ao seu software, e que de quando em quando funcionários diligentes iam-lhes passando a ronda, superintendendo a produção. A famigerada luzinha verde que o atormentava naqueles breves momentos que lhe precediam o sono, materializando-se ali advertência. Uma reprimenda, uma nota de infração de que já não se livrava, mas que estranhamente não pareceu preocupá-lo. 

Quando finalmente deu aquela jorna por encerrada, continuava sem resposta àquela pergunta não formulada. Foi ela que, aliás, lhe fez companhia durante aquela semana inteira, à medida que via intensificarem-se em seu redor os sinais do histerismo colectivo em que passara a co-habitar. 

Primeiro, começaram a surgir na rua rondas regulares de alguns agentes da polícia, enxotando os insubservientes que se recusavam a permanecer nas suas casas. Velhos, na sua maioria, que pareciam ter alguma dificuldade em aceitar aquele novo normal onde encontravam fechados os sítios por onde arrastavam as suas rotineiras existências: os cafés, os parques, as pequenas mercearias, as pastelarias. Às rondas policiais seguiram-se rapidamente aqueles carros a transmitir em voz premente aquelas horrorosas mensagens: “O PAÍS PRECISA DE SI, FIQUE EM CASA!” ou “NÃO SE ESQUEÇA DE LAVAR AS MÃOS”, como se todos não fossem mais que peixinhos doirados a navegar sempre o mesmo aquário, a memória daquela peste a esvair-se de 8 em 8 segundos. 

ph | Adam Niescior for Unsplash

Depois, interditaram os lares. Proibiram todas as visitas, e até as tentativas de contacto mais rudimentares se revelaram difíceis – um simples telefonema passou a ser anseio impossível de satisfazer, ante o fluxo dantesco que afligia aqueles estabelecimentos. Eram frequentes os relatos de funcionários a desertar daquela guerra sem nome, aterrorizados com a ameaça de contrair o vírus através daquelas vidas em decadência. Os velhos, sempre os velhos os primeiros a ser abandonados à sua própria lassidão. Aqueles já passavam os dias à espera da morte, que diferença fazia? Os relatos eram terríveis, as imagens perfeitamente repulsivas: fraldas por mudar, lábios secos a emoldurar rostos vazios e estanques, cobertos de camadas de pele sudorosa, gente que já pouco se assemelhava a pessoas de carne e osso.

Tudo aquilo no espaço duma semana, urdindo lentamente debaixo de um calor que torrava as pessoas dentro das suas casas, aparentemente pouco cientes do quão rápidas eram as mudanças que se instalavam em seu redor. 

Chamaram-lhe quarentena, essa mentira tão insidiosa. Em quarentena ficavam os doentes! Estes que agora se dedicavam a substituir o velho léxico por uma novilíngua, mudavam o sentido às palavras como quem trocava de luvas. É sempre assim que se operam as mais eficazes transformações sociais: muda-se a percepção das pessoas, antes de mais nada. E isso hoje era tão mais fácil, agora que as redes sociais conseguiam, pela força da repetição, convencer nações inteiras de realidades completamente falsas. Sim, todos de quarentena, gente saudável e sem problema nenhum a encerrar-se em casa durante 15 dias seguidos (porquê 15 dias, se nem sequer chegavam a consenso quanto ao tempo de incubação daquele vírus?) de cada vez que, por qualquer razão, tinha de entrar em contacto com alguém. Contacto presencial, frisava-se agora, como se fosse contacto o que o viera substituir. 

Ele, toda a vida fugindo de contacto com as pessoas, desde sempre não lhes suportando o toque e recluso voluntário no seu próprio apartamento, ao menos ainda sabia a diferença. Sabia ao que fugia e não ousava chamar a mensagens instantâneas, emails e vídeo-chamadas “contacto social”, como promoviam os arautos daquele novo normal (caramba, que o novo léxico era vasto demais para acompanhar). 

O domingo chegou, e ele preparava com esmero o seu carinhoso cabaz para lhe dar. Desta vez tinha-se dado ao cuidado de encomendar uma entrega de frutas frescas: chegado o calor, começavam a aparecer as primeiras cerejas. Ele gostava muito de cerejas; talvez ela gostasse também. Apressou-se a cruzar o patamar, nunca o trinado da campainha antiga, ao estilo dos anos 50, lhe parecera tão bonito. Ela veio à porta, parecia-lhe que sorria por debaixo da máscara. (Como saber?, só lhe via os olhos, mas os olhos também sorriem, também se estristecem, dois pequenos lagos que trazemos no rosto e que nos pintam as emoções com mais subtilezas que os traços que agora se viam obrigados a esconder.)

“Oh, cerejas!”, ela sorria sim, indubitavelmente, numa alegria pueril que ele ainda não lhe conhecia. “Gostas? Eu gosto muito, particularmente aquelas maiorzinhas, bem inchadas e encarnadas”, que peculiar aquele vizinho que dizia encarnadas em vez de vermelhas e que lhe oferecia cerejas. Ela sentiu-se enrubescer ligeiramente quando lhe fugiu o pensamento, sem que fosse a tempo de o deter, para o que acharia ele dos seus pequenos seios, redondos e firmes. Como cerejas. Tão deliciosa que ela estava hoje, especialmente hoje, também ele sorria por debaixo da máscara. “Não queres entrar, só hoje, só por um bocadinho? Ninguém está a ver, eu não vou a lado nenhum nunca…é só um cafezinho, que mal poderá haver num simples cafezinho?”, ele não queria que aquele convite soasse a súplica, mas fugia-lhe o tom perante a premência da transgressão que aquilo representava.

A dúvida perpassou-lhe aos olhos lilases, mas apenas por brevíssimos instantes, “sim, vamos agora que não está ninguém a ver”, e avançou lesta, mesmo descalça, fechando a porta da sua casa muito suavemente. Ele abriu-lhe a porta, num gesto de inconsciente cavalheirismo e ela entrou. 

Olhava em seu redor com indisfarçável curiosidade, demorando-se nas poucas peças de mobiliário que ocupavam o espaço. Ele esperava, não sabia bem o quê, mas esperava. “Há quanto tempo moras aqui sozinho”? Ele quis responder, mas não podia; “para te ser franco, já não me lembro, há muito, certamente.”, foi a única coisa que conseguiu responder. “Vou buscar-te o café” e refugiou-se assim na cozinha. Ele morava ali sozinho há 20 anos, sabia perfeitamente porque a mãe lho recordava todos os domingos na rotineira ronda de vídeo-chamadas. Começara a isolar-se aos primeiros sinais da ansiedade, até desistir por completo de manter aqueles momentos sempre constrangedores com a família, sempre inevitavelmente seguidos de violentos ataques de pânico, já sozinho. Não conseguia, por mais fortes que fossem os elos afectivos que o ligavam àquelas pessoas, permanecer suas vidas muito tempo. Estar, de facto. O mundo fora da bolha onde ele morava era absolutamente aterrador e elas faziam parte dele, como lhe recordava cada frase que diziam. Não tinham culpa, mas ele também não: isolar-se tinha sido destino desde logo incontornável. 

Quando regressou, ela estava defronte do aparador, “tens aqui uma colecção invejável!”, estava tão entusiasmada com aquilo que até tinha tirado a máscara.  Ele deu-se conta que já não recordava bem os contornos do seu rosto, aquele sorriso irradiante emoldurado por uns lábios perfeitos. “Também gostas de música?”, foi a escusa que encontrou para tentar camuflar o quão desconcertado ficara com aquele gesto ainda mais transgressor. “Adoro! Antes de tudo isto, costumava ir ouvir concertos todas as semanas…é disso que mais sinto falta.”

Ir ouvir um concerto. Ela não ia ver, ia ouvir concertos. Quantas seriam as pessoas a fazer o mesmo? Quanto mais tempo decorria, mais ele se sentia incomensuravelmente atraído para aquela vizinha de beleza prodigiosa a transpirar-lhe em cada poro, a pontuar-lhe cada palavra. 

Ficaram naquilo a tarde inteira. Era domingo, nenhum deles tinha nada que fazer, nenhuma obrigação a que atender. Ela selecionara alguns dos vinis, ele pusera-os no gira-discos vintage, um pequeno orgulho que nunca tinha mostrado a ninguém. A música que tocava fizera-o lembrar outros discos, foi buscá-los e escutara os deliciosos relatos que ela lhe fazia dos concertos que esses, por sua vez, lhe faziam lembrar, referências a misturarem-se com novos artistas, novas bandas de que nunca ouvira falar. 

“Eu nunca fui a um concerto”. Saíra-lhe aquela revelação em tom despreocupado, sem sequer pensar. “Como assim, nunca foste a um concerto?”, a incredulidade tingia-lhe o olhar com tons doirados. “Não é possível! Toda a gente já foi pelo menos uma vez a um concerto!”, eram tão redondos aqueles olhos, tão brancas as mãos pequenas que se agitavam no ar. “Eu não. Desde muito novo que tenho medo de pessoas; sempre fugi de grandes ajuntamentos. Por isso não, nunca fui a um concerto”. 

Ele não pudera antever a recção absolutamente radical que aquelas palavras iriam provocar nela. Ficou muda de espanto, e depois segurou-lhe timidamente as mãos entre as suas. “Já sei de que forma te vou retribuir; dá-me alguns dias e logo voltarei, está bem”?

Ele arrastou esses dias um atrás do outro naquela espera entusiasmante e simultaneamente tão dolorosa. Não conseguia concentrar-se: não fosse a própria espera distração suficiente (custa tanto esperar!, custa tanto mais quando não sabemos o que se espera), ela agora passava horas inteiras a cantar, aquela voz grave e rouca, quente, a ocupar-lhe cada divisão do diminuto apartamento. Os emails do chefe de secção sucediam-se cada vez mais exasperados com tantos e tão incomuns incumprimentos. Ele já nem os abria quando lhe caíam na caixa de correio; deixava-os acumular-se para os ler ao fim do dia de enfiada e sempre a correr. 

Entretanto, o mundo lá fora encerrava-se cada vez mais em si mesmo, curioso paradoxo, tendo em conta que os números tinham finalmente levantado aquela clausura forçada e permitido assim pôr em marcha o desconfinamento. O calor instalava-se, opressivo, enquanto as Forças Armadas policiavam as praias e os rios para expulsar os que ousavam buscar algum lazer no meio duma rotina agora pautada por uma espécie de nova escravatura: a escravatura digital. Sem que as leis tivessem sofrido alterações, já ninguém parecia querer saber de limites diários para os horários de trabalho, da ameaça dos plásticos à sustentabilidade ambiental e dos malefícios dos écrans para o saudável desenvolvimento das crianças. 

As escolas continuavam encerradas, os teatros fechados, mas crescia uma revolta que, potenciada pelo medo do outro, degenerava em acessos de violência cada vez mais disseminados. Eram frequentes os relatos acusatórios a invadir as redes sociais: vizinhos a acusar vizinhos, colegas a incriminar colegas, familiares que iam aos poucos deixando de se falar. 

Dentro daquela semana, sete dias apenas, coube toda uma mudança de paradigma social; uma revolução silenciosa, de que ninguém parecera dar conta. Nem sequer ele, absorto naquela ansiosa espera pela incógnita que ela lhe deixara. 

Chegou o domingo e perto da hora do almoço soou-lhe a campainha. Ela vinha já sem máscara, vestia um vestido rodado, curto, com flores pequeninas espalhadas por todo o corpo, e trazia soltos os caracóis muito negros. “Olá! Eu disse-te que voltava!”, e entrou sem sequer esperar qualquer palavra dele. (Tanto melhor, que atónito como se encontrava com tamanha beleza, parecera emudecer para toda a vida.) “Não está certo que nunca tenhas ido a um concerto. Não está certo que não nos seja permitido procurar um. As injustiças combatem-se; então decidi dar-te eu um concerto a ti, aqui mesmo na tua sala”. De facto, ela trazia consigo um instrumento, parecia uma guitarra pequenina. “Isto é um ukelele, não sei tocar muito bem, mas espero que me desculpes”. 

Ele continuou mudo e quedo a olhar para ela, sem saber o que dizer. As palavras estavam cativas na sua boca, quiçá no olhar que sentia alargar-se em delicada comoção. “Obrigado”, foi a única palavra que se escapou. 

Sentou-se no estreito divã; ela foi-se pôr ao centro da sala, puxando para si um das duas únicas cadeiras que ali havia. E começou a cantar. Sentiu a mão dela percorrendo ágil o braço do ukelele como se aquele fosse dele. Os dedos pequenos mas precisos dedilhando as cordas eram carícias no seu pescoço. E aquela voz…que diferente era ouvi-la assim de perto, ressoando grave e rouca no seu peito como ele próprio não fosse mais que caixa de ressonância. Ela cantava cerrando os olhos e erguendo a cabeça, as mãos movendo-se delicadamente com o próprio fluxo da melodia; toda ela vibrava e nele ressoava tudo aquilo. Era a experiência mais indescritível da sua vida. 

Cantou durante meia hora seguida, sempre acompanhando aquelas melodias que ele já conhecia das canalizações presas nas paredes com um suave dedilhar do ukelele. Eram lamentos sim, mas que não provocavam tristeza: eram antes catarse duma alma aprisionada num corpo feito pequeno demais para ela. Somos vento enjaulado dentro de máquinas feitas de carne. E ela era uma tempestade inteira que ali se soltava na sua sala, naquele cantar tão imperfeito mas tão intensamente bonito. 

“Já não tenho mais músicas” e o sorriso dela era cândido, quase envergonhado até. Agora era só ela outra vez, tão frágil quando ainda momentos antes se tinha feito tão grande. “E então, gostaste?”, quão escusada era aquela pergunta, a resposta espelhada no rosto dele, em todo o seu corpo que ainda ressoava. Levantou-se de impulso, tomou-lhe o rosto nas mãos e beijou-a como nunca tinha beijado ninguém. Se calhar como nunca ninguém alguma vez tivera beijado. Um beijo feito de tempestade, de vento toda a vida enjaulado que finalmente ali se soltara. 

ph | Davids Kokainis for Unsplash

Passaram a noite juntos; naquele dia foram foco de resistência à guerra que se disputava lá fora, sem que o soubessem. Longe dali, ministros de todo o Mundo reuniam para implementar novas medidas de prevenção (ou pelo menos, assim as apelidaram nos anúncios que se seguiram): todos os cidadãos deveriam ser chipados, a sua localização permanentemente rastreada por satélites sempre ligados. Era medida necessária e imprescindível para controlar o fluxo de infectados, disseram. As grandes corporações começaram a aglutinar o espaço vazio deixado por todas as pequenas empresas que tinham sucumbido à peste: só meses mais tarde as pessoas se dariam conta de que o mundo era agora uma gigantesca cadeia de franchises. Começavam a produzir-se vacinas, pirateadas pelos Estados mais imperialistas que as viriam depois vender desavergonhadamente aos restantes, pelo menos aos que as pudessem comprar. 

Mas naquela noite, eles não sabiam de nada, ainda. Eram trincheira sim, montada ali no diminuto apartamento dele, naquela noite tão maior do que ditavam os registos prediais.

Não sabiam que os tinham acusado os outros vizinhos, os que se dedicavam a espiar a vida a desenrolar-se ali ao lado, e que tinham dado conta do cabaz abandonado naquele dia em que ela ousara entrar no apartamento dele. A partir daí, fora só estar ainda mais atento, e logo perceberam que no patamar do 2º andar decorriam manobras de perigosa insurgência. Também não sabiam que o chefe de secção dele, finalmente farto de justificar a tão expressiva quebra de produtividade dele (e os números falavam por si; haveria lá melhor juiz que uma folha de cálculo do Excel?), redigia uma carta de despedimento para lhe enviar no dia seguinte. 

Quando ela acordara, já o prédio bulia com os pequenos ruídos da manhã avançada, dele sobrara o espaço deixado vazio na cama. Levantou-se para o procurar e deu com ele enrolado numa bola, no chão da sala, arfando e chorando em estranha aflição. “O que se passa? O que sentes? O que tens?”, era aflição o que lhe escorria pela voz ainda mais rouca da noite passada a gemer, mas ele nada dizia, não conseguia responder. Fugia-lhe a respiração, tal qual como das outras vezes mas hoje ele não a conseguia controlar. Tinha visto a missiva que o condenava à indigência, tinha recolhido a carta dos serviços estatais a condená-lo a uma pesada multa por desobediência, ameaçando-o ainda de mais severas sanções se persistisse naquela tendência. Arfava como um animal, os olhos esgazeados num pedido de socorro que era incapaz de formular. 

Ela tomou-o nos braços, deitada no chão ao lado dele, “estás a ter um ataque de pânico, não estás?”, sussurrava-lhe baixinho ao ouvido enquanto o estreitava com força junto ao seu peito onde moravam duas cerejas firmes e redondas. “Não te preocupes, já vai passar; o meu coração junto ao teu vai acertar-lhe o ritmo novamente, sabias que um coração são a bater cadenciado é a melhor cura para um coração descompassado?”, não, ele não sabia, essa técnica não lhe tinha ensinado a terapeuta, “vais sentir a respiração a voltar, não te preocupes”. 

Ele queria conseguir dizer-lhe que nada disso importava, que não ia ficar tudo bem, que agora estavam perdidos. Tinha perdido o emprego e não encontraria outro tão cedo. Tinham o Estado a vigiá-los, sabe-se lá o que lhes podiam fazer. Mas ele não conseguia dizer nada, apesar de começar a sentir a respiração a amainar. O apartamento parava aos poucos de girar, e a voz dela era mantra que lhe ressoava no peito, “sabes, não importa que tudo mude, nem importa que nos roubem de tudo; o poder de um abraço, isso eles nunca vão conseguir levar”. 

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