#17 “Os Anagramas de Varsóvia”, Richard Zimler (Porto Editora, 2020)

Há temas que por mais tempo que passe permanecem inesgotáveis. Histórias que parecem desdobrar-se em múltiplas formas de serem contadas. O Holocausto pertence a essa categoria e as suas histórias permanecem actuais, talvez até mais pertinentes que nunca. Richard Zimler conta estas histórias com um nível de mestria sem igual em Portugal. Essa é evidente na forma como constrói a narrativa deste Os Anagramas de Varsóvia, burilando a acção por entre a profunda densidade emocional de cada personagem, que assim assume uma dimensão quase espacial. Como se as pessoas fossem lugares onde mora tanta coisa: o desespero, a perda, mas também o nosso instinto de sobrevivência e sentido de justiça. A mestria do autor também se evidencia pela forma como descreve um capítulo abominável da nossa História, colocando a descoberto as atrocidades perpetradas pelo regime nazi: por vezes com uma candura desarmante, noutras com a pungência de um soco no estômago.

Erik Cohen, personagem principal desta história, é um velho psiquiatra judeu aprisionado no gueto de Varsóvia dos anos 40 com a sua sobrinha e o sobrinho-neto. Descobrimos este personagem, não o conhecemos: ele vai-se revelando à medida que se desenrola a narrativa, multiplicando-se num delicioso jogo de espelhos em que os anagramas que dão título à obra se revelam também, num astuto mecanismo de escrita. Descobrimos ainda o quão pesadas são as correntes da clausura, por muitas formas que assumam, e os terríveis efeitos que produzem nos que as carregam.

Pontuado por belíssimas metáforas, talvez a mais poderosa de todo o livro seja esta pulsão que parece conduzir Erik Cohen para eternizar todas as pessoas da sua vida, narrando a sua história já depois da morte a um estranho interlocutor. De facto, um dos aspectos mais interessantes da construção da narrativa é esse diálogo num estranho loop, uma história dentro da história, em que as fronteiras entre ficção e realidade se esbatem até se tornarem indistinguíveis.

Sob o mote de um policial cativante, em que Erik procura justiça para o assassinato do seu sobrinho-neto, a escrita consegue capturar o leitor de forma irrepreensível, à medida que vamos desbravando a profundidade da dimensão humana. Não é uma viagem fácil: Zimler confronta-nos com o grotesco que sabemos ser tristemente real, mas também com uma tristeza que parece não encontrar conforto na passagem o tempo.

O que leva alguém a odiar outra pessoa a ponto de procurar a sua completa obliteração deste mundo? Talvez seja esta a pergunta a que este livro procura responder, uma, de entre muitas. Talvez o tempo não cure nada, afinal. Mas não permitir que a memória das vítimas se esbata é tributo que lhes devemos, a estas como a tantas outras. E talvez procurar respostas a perguntas que perseguem a Humanidade desde os seus primórdios não seja mais do que uma forma de o continuar a fazer.

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