A taxa de letalidade da histeria, alguém sabe?

Discordar das políticas adoptadas para fazer frente à pandemia de Covid-19 parece hoje ser mais do que uma voz discordante: é ser voz da discórdia. É promover a desinformação, ser displicente e irresponsável, e não são assim tão raras as vozes que o consideram anti-patriota. Atingimos o ponto do absurdo: na era do imediatismo das redes, que inflamam discursos e polarizam opiniões, só é possível ser-se negacionista ou cidadão exemplar. Quem discorda de algumas medidas de prevenção é negacionista, conspiracionista, ou apenas idiota, é assim que vamos. E isto, além de absurdo, é inaceitável.

Importa realçar que discordar das medidas de prevenção adoptadas, não é rejeitar a necessidade das mesmas. É tão somente questionar a sua real eficácia, considerar que há melhores. Importa vincar que questionar a forma como se encara a subida do número de infectados não é negar os riscos que corremos ou o perigo deste vírus. Será mais tentar balizá-lo para evitar que se entre num histerismo altamente nocivo. 

Falamos de um vírus recente, sobre o qual ainda não existe consenso científico alargado. Falamos de medidas que divergem muito dentro da própria UE. Não é uma boa altura para visões dogmáticas, pouco favoráveis à discussão imprescindível para qualquer avanço em investigação científica. Além disso, importa realçar que embora as recomendações sejam pareceres técnicos, sustentados na Ciência, as medidas delas decorrentes são decisões políticas e por isso, não raras vezes permeáveis a factores que pouco ou nada têm de científico.  

A 22 de Outubro vi pela primeira vez um responsável a falar publicamente do absurdo em que vivemos. Mesmo que se lhe tenha referido em termos mais brandos. “A situação está politizada”, foram as palavras de Jorge Torgal, especialista em Saúde Pública e membro do Conselho Nacional de Saúde Pública, violentamente atacado depois pela turba acéfala das caixas de comentários. Referiu que 90% dos infectados são assintomáticos, usando uma terminologia intrigante: “hoje sabemos que larga maioria das pessoas que estão infectadas não tem doença.” Ora, numa conjuntura em que o medo vive precisamente da possibilidade de infeção por uma “doença invisível”, como já li por aí chamarem-lhe, isto é realmente assinalável. 

Talvez não tanto: afinal já em Junho a própria OMS tinha admitido que a probabilidade de contágios através de assintomáticos era extremamente reduzida. Afirmação que suscitou polémica e que foi imediatamente abafada: porquê? Porque não se discute o aspecto mais paradigmático desta pandemia?

Mas voltemos à entrevista de Jorge Torgal: este insistiu ainda que o aumento global do número de casos por si só não traduz gravidade, sendo que esta deve ser aferida pelo “número de casos que exigem hospitalização e tratamento intensivo.” Não é a primeira vez que este especialista fala disto: a 29 Julho dizia que “no outono e no inverno vamos ter Covid-19, gripe e constipações. A epidemia irá aumentar seguramente na altura própria, mas haver muitos casos não é preocupante. O que é importante é proteger os que podem ter doença grave”. Tem sido a tónica do seu discurso, realçando ainda que este aumento resulta ainda da “grande amplitude do rastreio” – vulgo, número de testes realizados – e que “as regras são hoje demasiado pesadas para a gravidade da doença”.

Também o número de hospitalizações tem estado a aumentar, é certo, como o de mortes. E perante esse perigo, esse sim real, o que tem sido feito? Reforçou-se o SNS? Requereu-se o auxílio da saúde privada? Procurou-se reforçar as medidas de apoio ao trabalho para incentivar o teletrabalho (o que aliviaria o risco que se vive nos transportes públicos)? Não: colocam-se os médicos em trabalho de secretária, a acompanhar diariamente milhares de infectados que não estão doentes, faz-se florescer outdoors a apelar ao uso indiscriminado de máscara e diaboliza-se a vida social como sendo acessória. Mesmo que dela dependam sectores inteiros de actividade. Mesmo que a alardeada sobrecarga dos serviços pudesse ser aliviada e assim reconduzir a energia do SNS para tratar os muitos doentes não-COVID que estão hoje completamente desacompanhados (originando mais de dois terços do aumento global de mortes face ao número do ano passado)

Temos o dever de questionar isto. Contudo, tem-se tornado impossível questionar e criticar as apelidadas medidas de “combate à pandemia”. Já venho referindo os efeitos que a utilização deste discurso bélico produz na sociedade, mas não julguei que fosse possível piorar ainda mais. Enganei-me. Entretanto, uma direção escolar suspendeu um aluno por partilhar uma sandes e um sumo. Ao que parece era prática continuada: mal sabia eu que crianças de 13 anos que, por ser verem afastadas dos amigos da turma anterior (com quem já não estavam desde Março) e por recusarem compreender qual a real eficácia desse afastamento, iriam passar a ser vistas como subversivas. 

Mas não é só: entretanto, o município de Guimarães suspendeu (cancelou era nomenclatura porventura demasiado forte) toda a actividade cultural no concelho. Aparentemente, uma iniciativa cumpriu as normas recomendadas pelas autoridades, mas de uma forma amplamente criticada nas redes sociais. Não sei se terão as autoridades competentes tecido as mesmas críticas quando viram o plano de contingência, mas o facto é que, neste caso, foi o FaceBook – que por estes dias parece ter sido elevado ao estatuto de vox populi – a ditar que aquilo foi errado. E que por isso, não havia que continuar a permitir qualquer dinâmica cultural. Afinal, talvez seja errado pensar-se em concertos e espectáculos e exposições e lançamentos e tudo o mais tão acessório à nossa economia em tempos de tanto medo (mesmo que as indústrias criativas representem uma parcela bem generosa do PIB), parece ser esta a mensagem.

O Governo decide que o uso de máscara na rua passa a ser obrigatório em todo o país: não importa ouvir os que lembram que a eficácia da utilização da máscara depende de muitos factores, como o contexto em que é usada, e que talvez ao ar livre seja contraproducente porque, por exemplo, tende a fazer com que a população desvalorize o distanciamento físico (essa sim, uma estratégia de prevenção que reúne um consenso científico alargado) e porque o risco em espaço exterior é consideravelmente menor (e importa mais como as pessoas se comportam, do que se levam a máscara posta). Afinal não, esses são apenas os soundbites utilizados pela comunicação social, afinal a obrigatoriedade depende da existência ou não do distanciamento físico (e porque teimam em continuar a chamar-lhe social?). Confuso? Nada disso; em cada esquina um fiscal para elucidar. 

Importa abafar estas vozes, sugerir que serão anti-máscaras, irresponsáveis e egoístas que não prezam nada a não ser o seu próprio conforto e bem-estar. Mas não; questionar a utilização das máscaras em determinados contextos e situações não é negar a sua eficácia noutras, ou sequer rejeitar o seu uso. É tão somente olhar um problema sob várias perspectivas, procurando benefícios que suplantem os malefícios. Porque sim, a utilização prolongada de máscaras tem riscos e consequências negativas, e só isso já bastaria para questionar o porquê desta narrativa centrada na sua utilização indiscriminada como se fosse uma estratégia única de prevenção. Se a isso juntarmos as permanentes contradições e incoerências doutras supostas medidas de prevenção, ficamos com a certeza de que existe um problema ao nível das decisões que vêm sendo tomadas. 

Mas começar a pensar implica ouvir estas vozes e isso hoje é incómodo, quando não ultrajante. Sobretudo porque ouvi-las implicaria assumir que o risco de contágio é bem maior dentro de um transporte público completamente sobrelotado, ainda que todos levem a máscara posta, do que numa vulgar reunião social entre amigos numa esplanada. 

Vivemos o que já muitos chamam de epidemia de medo, em que assistimos ao poder político vergar-se ao peso da opinião pública. É aqui que o “combate à pandemia” deixa de ser técnico, científico, e passa a ser politizado. Ao invés de termos medidas de prevenção sérias e realmente eficazes, temos uma mão cheia de areia que nos atiram diariamente para os olhos, como disso são exemplos as últimas medidas. Isso e a irresponsabilidade da comunicação social, que deixou de garantir uma informação isenta e fidedigna, insuflou o histerismo na população, que agora grita enfurecida nas redes sociais, tantas vezes em contradição e em absoluto desnorte, perante a subida inflexível dos números. 

Portugal não é a China; ainda. Não se pode avançar com uma proposta como a obrigatoriedade da instalação da app StayAway Covid, sabendo da sua inaplicabilidade, inconstitucionalidade e ineficácia, como forma paternalista de educar a população. Estivéssemos menos manipulados e seríamos capazes de reconhecer qual é a real estratégia aqui adoptada: transferir responsabilidades que são das autoridades para o cidadão. O cidadão é que deve procurar por todos os meios (mesmo os mais absurdos!) não se deixar infectar, porque, além de sobrecarregar os serviços, irá ser responsável por contaminar mais uns quantos. Pior, para ser responsável o cidadão deve abandonar tudo o que seja acessório – tudo o que não seja o trabalho, portanto. O problema é que isto não é verdade e gera óbvias contradições que não passam despercebidas à população cada vez mais saturada. Senão, vejamos: podemos ter um evento com mais de 20.000 pessoas reunidas (GP em Portimão), mas não aceitamos que pouco mais de 1000 se reúnam para ver as ondas gigantes na Nazaré. É fácil perceber porquê: uma gera receita, outra não. 

São estas as contradições, que nada têm que ver com real prevenção, que fomentam a desinformação, a revolta e que explicam o porquê de ser cada vez mais difícil acatar certas medidas. Não são as pessoas que são irresponsáveis: irresponsáveis são os que embarcam em política de FaceBook, imediatista e com pouca visão estratégica ou planeamento, não raras vezes com pouca sustentação técnica e científica, enquanto recusam fazer o óbvio e necessário. Não, meus senhores: aqui ninguém é culpado de ficar doente e se há incumprimentos é porque as pessoas estão saturadas de medidas discricionárias, completamente arbitrárias e sem eficácia que se veja e nem sequer compreendem realmente como devem proceder.

Ou ousam alegar que a subida dos números se deve à irresponsabilidade da população? Não será admissível questionar se esta não estará relacionada com a ineficácia destas medidas?

A taxa de positividade hoje é de 6.8%; em Abril era de 15%. Sabemos também que a terapêutica a utilizar é diferente e não tão exigente em termos de meios. Urge por isso quebrar este estado de pânico e consequente narrativa de culpabilização do cidadão, para exigir a quem nos governa que faça o óbvio: que tenha a coragem de recuperar o SNS, investindo o tanto que falta, discutindo com os privados formas de assegurar os serviços em falta (e que originaram as muitas mais mortes não-COVID), diminuindo a sobrecarga originada por um acompanhamento a 90% de “infectados” que não estão, efectivamente, doentes; que invista nos testes rápidos como primeira triagem, frequente, em urgências, lares, e possivelmente até em escolas, protegendo os mais vulneráveis; que salvaguarde medidas sociais decentes para quem se vê impedido de trabalhar; que abandone esta retórica de cancelamentos e restrições desajustadas para todo o território e que se dedique a perceber, caso a caso, o que se revela realmente necessário, sem ocultar informação preciosa a quem está no terreno. 

Jorge Torgal pede coragem ao Governo; eu também. Sobretudo para assumir o seu papel de liderança com as responsabilidades que lhe estão inerentes. Não estamos em situação de emergência, e só para lá caminharemos se os nossos responsáveis políticos optarem por continuar nesta narrativa de culpabilização como forma de se escusarem de fazer o que lhes compete. Enquanto forem as percepções enviesadas e imediatas das redes sociais a ditar a realidade, continuaremos  a viver num mundo de faz-de-conta. E o vírus continuará aí. 

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