Qual é, afinal, a estratégia de “combate à pandemia”?

Nunca tivemos que lidar com uma crise de saúde pública desta dimensão, é certo. Mas enquanto cidadã, com o meu sentido cívico e crítico intactos, não consigo continuar complacente perante o triste rumo de acontecimentos a que temos assistido.

Condenei desde início a utilização do estado de emergência. Hoje continuo a fazê-lo. Ele existe para reagir a uma emergência nacional, não existe para justificar um conjunto de medidas que se sabem ser um atentado aos nossos direitos básicos de liberdade, individual e colectiva. Hoje decreta-se estado de emergência para prevenir emergências, para justificar juridicamente o injustificável. É a inversão completa da lógica que subjaz a este enquadramento legal, o que a meu ver se afigura como a sua subversão.

O que se passa hoje é simples de perceber, mesmo por entre todo o jogo de espelhos: o Governo falhou em prevenir o actual estado dos serviços de saúde. Falhou porque decidiu não fazer o há muito dizem os especialistas na matéria: reforçar o SNS, com meios humanos e técnicos. E recusou fazê-lo porque isso implica um outro OE, implica também mexer nos interesses instalados nos privados da Saúde, medida que seria mais que óbvia num “combate à pandemia”. O Governo falhou em prevenir o aumento dos contágios, porque recusou mexer nos problemas endémicos do sector do trabalho e dos transportes e continua a recusar colocar em vigor os planos de contingência que instigou todas as escolas a fazer. O Governo continua hoje a falhar em proteger os cidadãos porque recusa assumir estas responsabilidades, preferindo transferi-las para o domínio da responsabilidade individual. Mas não foi só o Governo que falhou; a própria DGS falhou a partir do momento que se deixou contaminar naquilo que deveria ser uma actuação isenta, racional, sustentada apenas no que diz a Ciência.

Fê-lo porque a partir de dado momento (e saberão circunscrevê-lo sem precisar que eu o diga), optou por balizar as suas recomendações pelo barómetro da opinião pública, vomitada sem pudor pelas caixas de comentário da imprensa nacional, fóruns e demais contextos promovidos pelas redes sociais, criando situações visivelmente incongruentes e de aplicabilidade duvidosa. 

Expliquem-me por favor, como se eu fosse muito burra: porquê um recolher obrigatório (revestido com a patine da novilíngua) a partir das 23h? Que relevância tem este período para o contágio do vírus, alguém sabe? Alguém leu algures, numa remota revista científica da treta, um “estudo” a explicar qual será a grande eficácia desta medida? Querem mesmo continuar a fazer-nos acreditar que a maioria dos contágios acontece na condução da vida social e familiar das pessoas? Isto num país de gente completamente subserviente, que acata com zelo o “respeitinho”, como se já não tivéssemos todos restringido severamente esta parte das nossas vidas. 

Basta de mentiras: a maioria dos contágios acontece no exercício de funções profissionais, seja por causa da sobrelotação dos transportes e dos espaços (tantas vezes não arejados, porque ninguém parece ter considerado relevante explicar às pessoas que, mesmo que estejam com a máscara posta 8h diárias, se não arejarem as salas onde trabalham, o vírus continua a propagar-se com alta probabilidade), seja por causa da circulação que acontece durante o DIA, durante a SEMANA de trabalho. Estas restrições à noite e aos fins-de-semana são tentativas grosseiras de manipulação da opinião pública, é preciso dizê-lo com frontalidade.

Não é aquilo que as pessoas andam a fazer a altas horas da noite ou aos fins-de-semana que justifica os números de hoje: é o que fazem à semana, entre trabalho e escolas, precisamente os sectores lamentavelmente esquecidos por esta “estratégia”.

Mas não podemos paralisar o país, dirão e concordarei. Mas podemos promover e sobretudo regular o famigerado teletrabalho em sectores específicos de actividade onde este é realmente aplicável (por oposição a tentar obrigá-lo indiscriminadamente, repararam na diferença?), podemos estimular o funcionamento com turnos em espelho nos privados como já há nos públicos, podemos alocar mais meios (financeiros, está claro) aos sectores em que o teletrabalho simplesmente não é exequível, de modo a garantir o seu funcionamento em segurança. Podemos reforçar os apoios sociais e os incentivos, de maneira a garantir a aplicabilidade destas propostas de medidas. Podemos insuflar já os serviços de saúde, reforçar já os transportes públicos para tornar a rotatividade de circulação uma realidade. Mas já sei, isto dá bem mais trabalho que mandar as pessoas lavar as mãos, e implica bem mais dinheiro. 

Não podemos continuar a confundir a população com medidas vãs e de aplicação confusa, fazendo-a sentir culpada quando não tem culpa nenhuma, e fingir que se “combate a pandemia”. Não podemos continuar a promover este clima de desigualdade, em que uns estão protegidos e outros não, em que uns navegam a crise actual com estabilidade e outros não, em que uns se salvam e outros se afogam.

Não é na vida individual, do qual dependem sectores inteiros de actividade e por isso, centenas de milhares de pessoas, que o Governo pode ou deve intervir. É na vida colectiva, para onde devia estar a direccionar todos os meios. O Governo não tem o direito de perseguir a vida social da população, quando sabe perfeitamente que não é aí que se encontra o real problema, quando sabe que os números vão continuar a subir na mesma. E se não sabe, quando vai perceber isso? Quando já não restar nada para salvar? Onde está a razoabilidade de tudo isto? Quais são os pareceres técnicos e científicos que justificam estas medidas? Não vejo responsáveis científicos encarregues da estratégia. Vejo o frenesim imediatista das redes sociais e a politiquice eleitoralista a conduzir e a dominar o discurso. E só vejo isso mesmo, discurso, porque real estratégia de “combate à pandemia”, nem vê-la. Só um permanente “navegar à vista” que só tem aumentado os problemas.

É muito fácil “ficar em casa” ou “ser um agente da saúde pública” (que hoje parecem ser uma e a mesma coisa), quando o conforto nos está garantido. Esses estão de facto a ser protegidos: levam com cada vez menos pobres, na sua bolha de privilégio, e não imaginam o que é não saber como se vai aguentar até ao fim da semana, com contas sem amortizações ou isenções, com rendas, com dívidas, com despesas de saúde acrescidas, com necessidade de poder trabalhar para ganhar a vida.

Mas mais importante do que isso: somos pessoas antes de ser trabalhadores. Não consinto que me digam que o essencial é o trabalho, e que me despojem de tudo o que me faz existir fora do contexto laboral, porque não é, não pode ser. Não somos máquinas, não somos roldanas numa gigantesca cadeia de produção. 

Isto não me representa. Isto está-me a ser imposto de forma vincadamente autoritária. Não pertenço ao lote de negacionistas e não me sinto mais segura com todas estas medidas, bem pelo contrário: tudo isto só tem feito com que me sinta com a minha vida em risco. Estão-me a fechar em casa, impedindo-me de trabalhar e ganhar a vida, sem me oferecer nada que o atenue. Nada. A minha actividade profissional diminuiu drasticamente e está constantemente a ser restringida. Não me foi garantido nenhum balão de oxigénio para isto. Ao contrário da “grande quarentena”, as minhas contas não foram alvo de nenhum subsequente ajustamento. Não existem isenções para os profissionais como eu e equivalentes. E ainda querem que engula a patranha de que é o meu comportamento que representa um risco, quando cumpro escrupulosamente tudo o que são medidas de prevenção com sustentação científica?

E porquê tudo isto, afinal? Não é para “salvar o Natal”, desenganem-se os mais crédulos, convencidos de que são heróis por colocar uma máscara de cada vez que põem um pé no exterior; é porque se aguarda ansiosamente pelo final do ano, pela bazuca da Europa. Porque mexer no nosso dinheiro, no nosso OE, canalizando-o para tudo isto, implicava mexer com poderosos interesses instalados.

Recuso-me. Recuso continuar sem nomear isto pelo que é: isto é a ditadura do medo a delapidar a nossa vida em democracia. 

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