Carta aberta a um encarregado de educação.

Tem dias em que ser professor é demasiado difícil. Dias em que apetece desistir de tudo e fazer outra coisa qualquer. Sabia? Eu gostava mesmo de lhe explicar porquê.

Ser professor do ensino artístico especializado actualmente é profundamente desgastante: somos mal remunerados pela actividade que desenvolvemos, estamos numa luta contínua e extenuante para poder trabalhar em condições dignas (muitas vezes até com as próprias escolas que nos albergam!), e lidamos numa base diária com a mais abjecta falta de respeito e de educação. A fibra de que somos feitos permitiria lidar com a actual precariedade laboral, caso sentíssemos a real gratidão por parte de quem todos os dias tentamos educar. Não ter nem uma coisa nem outra, torna o exercício desta profissão num masoquismo permanente que nos rouba toda a energia de que necessitaríamos para a vida. Sim, nós também temos uma vida: temos família, gostamos de passear, gostamos de sair, enfim, somos pessoas como as outras.

Conseguimos reconhecer no ensino três grandes pilares sobre os quais assenta a base de toda a aprendizagem: o aluno, o professor, e claro, a família. Sim, vocês, esses tão “respeitados” e quase temidos encarregados de educação. Daqui se depreende que uma criança só será bem-sucedida se tiver uma série de condições mínimas, que passa por uma boa escola, com bons professores capazes de impulsionar uma motivação intrínseca pela aprendizagem, mas também passa por ter encarregados de educação atentos, que acompanhem e incentivem o seu desenvolvimento.

Estruturalmente falando, desde sempre e em qualquer vertente do ensino existe um grande fosso entre professores/escola e pais/casa, que se deve a muitas e diferentes características, seja relacionadas tanto com a comunicação em si, como com os diferentes contextos socioeconómicos. No ensino da música conseguimos demarcar ainda mais esse fosso, pois conhecemos os encarregados de educação dos nossos alunos logo em desvantagem, quando comparados com os restantes professores. Se o ensino regular é obrigatório até ao 12º ano, na Música, nunca o chega a ser.

Na sua essência, a Música representa uma opção tomada por cada um, que implica grandes quantidades de tempo, energia, dedicação, vontade e acompanhamento.

Ora, qualquer professor sabe que numa grande parte dos cenários que diariamente nos aparecem, poucos são aqueles que tomam essa decisão conscientes destas implicações, e não sendo obrigatório, deparamo-nos com a dificuldade de cativar alunos (e pais) quer para a continuidade do estudo da Música, quer para as responsabilidades que lhe estão inerentes.

Desculpe-me lá, mas tenho que o responsabilizar também pelo sucesso/insucesso dos seus filhos. Posso dizer-lhe que são incontáveis os casos em que tanto encarregados de educação como educandos se envolvem no ensino artístico especializado sem qualquer consciência das suas implicações. Eu explico: no contexto em que vivemos, não estamos à espera que cada criança que passa por nós se torne num músico profissional, nem é nisso que estamos a pensar quando dizemos exasperados que os alunos têm de dedicar um estudo diário ao instrumento. Urge clarificar que quando uma criança decide começar a aprender um instrumento, está a comprometer-se a trabalhar afincadamente para atingir esse objectivo: APRENDER UM INSTRUMENTO. Não está a “experimentar” um instrumento, a ver se funciona, nem a aumentar uma lista interminável de atividades extracurriculares com mais uma atividade lúdica que lhe confira algum status. Está a alargar os seus horizontes pessoais e académicos, dedicando tempo e energia a mais um saber, que deveria valer o mesmo que os restantes saberes.

Aquelas vantagens todas da aprendizagem de um instrumento, enunciadas num sem-número de investigações, só se concretiza se a criança estiver de facto a aprender um instrumento, e para o fazer, ela necessita de lhe dedicar um estudo diário. Lamento se ninguém vos explicou isto antes. Há que criar condições a esta criança, que mais que escolher uma boa escola, passa por investir num instrumento de qualidade, em idas regulares a concertos, em comprar CD’s de música e principalmente, por acompanhar e incentivar os seus esforços.

A Música não vive tanto de “inspiração” e “talento” como se gosta popularmente de acreditar, mas sim de dedicação, responsabilidade e trabalho, muito trabalho.

É da sua responsabilidade como pai quando matricula o seu filho numa escola de música, assegurar que acompanha o seu trabalho nesta área da mesma forma atenta como acompanha o seu restante percurso académico. Desengane-se quem pensa que a Música pode ser proposta a uma criança como um hobbie prazenteiro, e que por isso mesmo não implica o mesmo tipo de esforço e acompanhamento que implica a escola regular. Urge desmistificar a aprendizagem musical: o seu filho, em grande parte das vezes, não vai querer largar o iPad para ir estudar piano. Quando lhe disser que o tem que fazer todos os dias, vai espernear e fazer birra, possivelmente fugir usando todo e qualquer subterfúgio. Quando lhe chegarem a casa resultados pouco impressionantes, vai argumentar que não tem tempo para estudar, entre a escola, o centro de estudos, a piscina, o futebol ou o ballet, e vai querer desistir. Pelo menos de três em três meses.

Sabe porquê? Não é porque não gosta, nem porque o professor/escola não está a fazer o seu trabalho como deve ser. É porque dá trabalho: estas crianças nasceram num mundo muito mais rápido que o seu, em que tudo é imediato e está à distância de um clique, em que se abandona facilmente um jogo se este não conseguir manter um nível alto de estímulo de forma constante. Daí que se possam sentir ligeiramente desmoralizadas quando percebem que não vão aprender um instrumento da mesma forma tão imediata e fácil como lhes venderam nas app dos tablets. Cabe ao Encarregado de Educação ser firme nestes momentos, responsabilizar a criança pelo percurso que escolheu e incentivar, acompanhar e reforçar o estudo. Não chega dizer conformado “Tens audição para a semana, não devias ir estudar?”. Há que pressionar um pouco, estabelecer um horário de estudo e exigir que este seja cumprido. Só assim a criança conseguirá resultados na Música, e só mediante estes resultados se irá sentir motivada para começar a ser mais autónoma e irá manifestar uma real afeição pela Música.

Aliás, posso acrescentar-lhe que só assim estará a educar um ser humano realizado, motivado, consciente e em última análise, quiçá mesmo feliz.

Agora deixe-me dizer-lhe: quando me envia o seu filho recorrentemente sem material para as aulas, sem sequer ter tocado no instrumento uma única vez nesta semana, está a educá-lo mal. Primeiro está a dizer-lhe que há professores de primeira e outros de segunda, e isto é mentira (mesmo que possa eventualmente pensar doutra forma). Não menospreze nem subestime a quantidade de tempo, financiamento e energia que investi ao longo de 20 anos (20 anos!) de escolaridade para chegar até aqui e desenvolver esta actividade. Não somos mais mas também não somos menos que um professor de matemática e como tal, merecemos o mesmo tipo de tratamento; tenho sérias dúvidas se permitiria que o seu filho fosse para a aula de Matemática recorrentemente sem o TPC feito (mesmo que estes sejam quase uma barbárie nos dias de hoje). Por outro lado, peço-lhe o que peço a qualquer aluno meu: exercite por favor a sua inteligência. Acha realmente que com uma aula semanal de 45 minutos eu consigo que qualquer criança toque um instrumento (seja ele qual for), se não existir uma real continuidade do trabalho desenvolvido na aula depois em casa, numa base que se quer regular? É que se acha está profundamente errado, e não há nada que possa fazer por si.

Tem dias em que ser professor é demasiado difícil. Dias em que apetece desistir de tudo e fazer outra coisa qualquer. Sabia? Espero ter-lhe conseguido explicar porquê. Afinal, sou professora, e vivo para educar.

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