Perdoa-lhes a hipocrisia, Senhor, que não sabem o que fazem!

Uma semana após a celebração da Páscoa católica, eu ainda permaneço enredada nos seus meandros. Não sou crente, em nada, diga-se. No entanto, não deixa de ser um exercício muito apelativo observar os efeitos que estas alturas do calendário religioso provocam nas pessoas.

Para muitos, foram duros os dias de abstinência da Quaresma. Purgar a alma da maldade, da mesquinhez e do escárnio não pode ser tarefa fácil. Com a chegada da Páscoa, ressuscita um espírito renovado para enfrentar o mesmo quotidiano de sempre. Abre-se a porta para nos tornarmos a nossa melhor versão, e multiplicam-se os discursos de incentivo e de auto-aperfeiçoamento. Só que sabemos que não é bem assim, pois não?

Em primeiro lugar, a apropriação da ressurreição como símbolo, orientando-o para um possível renascimento, chateia-me um bocado. Ressuscitar implica morrer, certo? Renascer também? É que para mim, não: a ideia de que a nossa versão actual, seja ela qual for, deve morrer para que uma nova e espantosa versão de nós mesmos possa florir, é coisa demasiado utópica para ser exequível. E por outro lado, também não entendo em que é que seria útil: não faz mais sentido ser quem (e o que) somos, procurando potenciar umas coisas e atenuar outras, por oposição a um conceito de total reconversão numa “nova” pessoa? Se calhar, para amar o próximo precisamos de gostar um bocadinho mais de nós mesmos primeiro, diria eu.

Depois, perceber que as inclementes tentativas de evangelização daquelas pobres almas que se recusam a acreditar em amigos imaginários depois da primeira infância, acontecem por parte de pessoas que, por um lado, apresentam pouco conhecimento da sua própria religião e que, por outro, não a praticam no seu quotidiano, já me chateia mais um bocado.

Que me importa se aquela pessoa jejuou ou se absteve sei lá eu do quê durante 40 dias, se no seu dia-a-dia continua a cultivar o ódio, a mentira, a injustiça e o egocentrismo? Que me importa se recebe em casa um instrumento de tortura romano como símbolo duma qualquer redenção, se depois preenche as suas rotinas com a mesma altivez, arrogância e prepotência de sempre? Não reconheço autoridade moral a pessoas que dizem uma coisa e praticam outra no seu quotidiano.

Por fim, quando esses discursos deixam de ser uma manifestação pessoal de fé ou da expressão da liberdade individual de cada um, ainda que tentando doutrinar o outro, e se transformam numa tentativa de instrumentalização da fé dos outros para servir os seus próprios propósitos, já me parece completamente intolerável. A mim, que não sou crente, não me ofendem determinadas atitudes. Mas por empatia para com os muitos católicos com quem convivo nos meus diferentes círculos de amizade,  e que respeito, causa-me repúdio ver como se procura usar a religião para manipular ou condicionar a forma de estar (ou de ser) do outro. A religião não é um código de conduta universal. Incorpora uma moral muito circunscrita, e muito particular para cada religião (embora com múltiplos pontos comuns), que só segue quem nela acredita. E não é por isso que o Mundo se divide entre más e boas pessoas consoante a sua fé (ou a sua ausência). Que exista quem, sabendo disto, escolha utilizar a religião como condicionalismo intrapessoal, é errado, ponto. 

A fé não é um salvo-conduto. O arrependimento não dá carta branca para cometer determinados erros com impunidade. Não há mea culpa ou terços suficientes que substituam uma real mudança nas acções e nas atitudes. Não há paciência para tanta hipocrisia e tanta beatice.

Das duas, uma: ou cessam as tentativas de evangelização acerca duma salvação divina (só alcançável com uma qualquer redenção nesta vida terrena), ou então têm que se tornar melhores pessoas antes de pregar. É que assim, é só inautêntico e por isso, descartável. Menos hipocrisia, mais doutrina, e depois falamos. 

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